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Pink Bubbles Go Ape: O Início do Fim da Era de Ouro do Helloween

Em 1991, banda tinha a maior gravadora do mundo, escritório do Iron Maiden e dinheiro sobrando; faltava apenas o que não se compra

Diego Cataldo · 2026-06-04 21:28 · 0 claps · 9.1 min read
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Pink Bubbles Go Ape: O Início do Fim da Era de Ouro do Helloween

Em 1991, banda tinha a maior gravadora do mundo, escritório do Iron Maiden e dinheiro sobrando; faltava apenas o que não se compra

Reprodução/Amazon

Reprodução/Amazon

Para entender como o Helloween chegou em Pink Bubbles Go Ape (1991), é preciso voltar ao momento em que a banda era (ou parecia ser) invencível.

Ascenção e Queda — o prêmio para todos que não é nada agradável

Em maio de 1987, o quinteto de Hamburgo lançou Keeper of the Seven Keys Part I — um disco que não apenas definiu o power metal como gênero, mas deu ao mundo uma nova linguagem para o heavy metal melódico.

A combinação era sobrenatural: a voz estratosférica de Michael Kiske, as guitarras de Kai Hansen e Michael Weikath, o baixo de Markus Grosskopf e a bateria de Ingo Schwichtenberg.

O disco eternizou clássicos como “Future World”, “Halloween” e “I’m Alive”. Keeper of the Seven Keys Part II, lançado em agosto de 1988, foi ainda mais ambicioso. “Eagle Fly Free”, “Dr. Stein”, “I Want Out” e a faixa-título tornaram-se hinos instantâneos.

Durante a Seventh Tour of a Seventh Tour de 1988 — a turnê mundial do Iron Maiden — , o Helloween figurou entre as bandas de abertura, dividindo palcos com Anthrax, Megadeth e Guns N’ Roses. Jovens headbangers em toda a Europa e no Japão viam os alemães como os herdeiros naturais do trono do metal.

Helloween no Monsters Of Rock ’88 (Andre Csillag/REX/Shutterstock)

Helloween no Monsters Of Rock ’88 (Andre Csillag/REX/Shutterstock)

Mas o próprio sucesso começou a cobrar um preço. Longas turnês, desgaste interno, disputas sobre direção musical — as fissuras apareceram cedo. E a mais profunda delas tinha o nome de Kai Hansen.

“I Want Out” — E Era Sério

“I Want Out”, o maior hit do Keeper Part II, era na verdade uma declaração pessoal de Hansen. O guitarrista confirmou isso em 2017, numa longa entrevista à revista Classic Rock:

“Foi uma declaração, sim. Não se tratava apenas de querer sair da banda, mas de algo geral relacionado a tudo o que estava acontecendo: má gestão, outras pessoas nos dizendo onde estar e o que fazer, discussões internas sem fim… Eu só queria tocar.”

As tensões vinham se acumulando desde o fim da turnê do Keeper. Exausto de estradas intermináveis e desgastado pelos atritos sobre a direção do próximo disco, Hansen tomou a decisão que ninguém queria acreditar — ele deixou o Helloween em 1989. Partiria para construir o Gamma Ray, projeto que lhe daria liberdade criativa total.

Para o Helloween, porém, perder Hansen era como perder metade do DNA criativo que havia produzido os Keepers. Michael Kiske, também à Classic Rock, descreveu a partida com uma mistura de ingenuidade e pesar:

“Quando ele foi embora eu nem achei que seria um problema tão grande — ingênuo que eu era. Ele fazia parte disso, mas era uma parte importante: ele não era a banda, como algumas pessoas gostam de dizer pra ele. Mas assim que ele não estava mais lá, todo o espírito mudou. Virou um pesadelo.”

Hansen deixou a banda em 1989 (Paul Natkin)

Hansen deixou a banda em 1989 (Paul Natkin)

O substituto

A vaga foi preenchida por Roland Grapow, ex-guitarrista da banda alemã Rampage — que havia gravado os álbuns Victims of Rock (1981) e Love Lights Up the Night (1983). Após a dissolução do Rampage em 1983, Grapow ficou praticamente inativo musicalmente e trabalhava como mecânico de automóveis quando Michael Weikath o chamou, em 1989, para se juntar ao Helloween.

Tecnicamente competente, Grapow entrou num ambiente já marcado por divisões. Com sua chegada, as facções dentro da banda tornaram-se mais definidas: de um lado, Kiske e Schwichtenberg; do outro, Weikath e Grapow; Grosskopf navegando entre os dois polos.

Grapow assumiu as guitarras em 1989 (Getty Images)

Grapow assumiu as guitarras em 1989 (Getty Images)

A Fuga da Noise Records e a Guerra nos Tribunais

Paralelamente ao caos humano, havia o caos contratual. O Helloween estava preso à Noise Records, a pequena gravadora berlinense de Karl-Ulrich Walterbach que havia lançado os Keepers. A banda havia vendido muitos discos e via muito pouco desse dinheiro.

Em janeiro de 1989, o Helloween assinou com a EMI Records antes de encerrar formalmente o contrato com a Noise. A gravadora entrou com uma ação judicial, e em dezembro de 1990 um tribunal decidiu que o contrato com a companhia alemã ainda era válido.

Em entrevista ao site True Metal, Weikath falou sobre o momento de ruptura com a antiga gravadora:

Com a Noise Records, para mim era algo natural, porque meus pais sempre estiveram nos tribunais desde que me lembro. Algumas pessoas na banda tinham medo de estar num processo judicial. Para mim era natural — eu só queria sair do contrato.”

A banda ficou proibida de lançar material em boa parte do mundo — o processo foi descrito pelo escritor David E. Gehlke, em seu livro Damn the Machine: The Story of Noise Records, como “uma batalha judicial de 18 meses que congelou o Helloween nos anos 90”.

Álbum ao vivo foi lançado para tapar buraco enquanto a banda era impedida de gravar disco de inéditas

Álbum ao vivo foi lançado para tapar buraco enquanto a banda era impedida de gravar disco de inéditas

Para manter alguma presença, discos ao vivo foram lançados: Live in the U.K., Keepers Live in Japan e I Want Out — Live nos Estados Unidos. Um hiato de quase dois anos sem álbum de estúdio foi uma sangria de momento que a banda nunca recuperou completamente.

Rod Smallwood, a Sanctuary e a Sombra do Iron Maiden

Se havia algo positivo nesse caldeirão de problemas, era o novo gerenciamento. O Helloween havia assinado contrato com a Sanctuary Music Management — o mesmo escritório que gerenciava o império do Iron Maiden, encabeçado por Rod Smallwood e conduzido por Andy Taylor, Harrie Smits, Harry Mohan e Aky Najeeb.

Nicko, Steve, Dickinson e Kiske no casamento de Smallwood (Reprodução/Reddit)

Nicko, Steve, Dickinson e Kiske no casamento de Smallwood (Reprodução/Reddit)

A lógica era sedutora: se Smallwood conseguiu fazer o Iron Maiden dominar o mundo, talvez pudesse fazer o mesmo pelos alemães. Na prática, a parceria gerou tanto expectativa quanto pressão.

A EMI investiu pesado no vindouro álbum novo — o orçamento de gravação chegou a aproximadamente 400.000 libras esterlinas (o equivalente a R$ 2,7 milhões na cotação atual), um valor absurdo para os padrões da época e para uma banda ainda envolvida numa batalha judicial.

A Dinamarca, o Produtor Errado e as 400.000 Libras

As gravações estavam originalmente previstas para outubro de 1989, mas só começaram em meados de 1990 — depois que Chris Tsangarides encerrou seu trabalho no épico Painkiller do Judas Priest, gravado entre janeiro e março de daquele ano.

Durante três meses, o Helloween ficou no PUK Recording Studios, em Gjerlev, na Dinamarca, para as sessões do disco. No entanto, o que se viu foi muito dinheiro gasto, e um resultado que desapontou a todos.

Tsangarides era um nome respeitado — tinha no currículo discos de Thin Lizzy, Gary Moore, Black Sabbath e o próprio Judas Priest. Mas desde o início ficou claro que ele e o Helloween viam o novo trabalho da banda por diferentes perspectivas.

Banda já passava por tensões nos bastidores (Reprodução/Tumblr)

Banda já passava por tensões nos bastidores (Reprodução/Tumblr)

Weikath havia sido o compositor dominante no Keeper Part II e agora via suas músicas sendo deixadas de lado. O produtor, Kiske e Schwichtenberg formavam um bloco. Weikath ficou à margem, assinando apenas uma faixa e meia do produto final.

Kiske, em 2017, foi direto ao resumir o período para a Classic Rock:

“A situação toda era ruim. Gastamos uma fortuna num estúdio na Dinamarca, mas não havia inspiração.”

E Weikath, refletindo sobre o período como um todo, reconheceu sua própria parcela de responsabilidade no colapso interno da era:

“Eu ficava enchendo o saco dos coitados com as minhas ideologias: ‘Precisamos ser mais comerciais’ e sei lá o quê. Eu era um idiota. Mas eu estava pensando: temos esse sucesso, vamos fazer algo com ele.”

Capa de Outro Mundo

Antes de qualquer nota ser ouvida, o Pink Bubbles Go Ape já causava estranhamento. A capa, desenvolvida por Storm Thorgerson — lendário designer gráfico do Pink Floyd, Led Zeppelin e Genesis — em parceria com Colin Chambers, é surreal e desconcertante. Antes de chegarem ao título definitivo, Kiske e Weikath haviam cogitado “Pink Bubbles”, “Pink Bubbles Go Wild” e “Pink Bubbles Go Nuts”.

Capa sem tipografias (Editada com IA/Gemini)

Capa sem tipografias (Editada com IA/Gemini)

A versão final venceu pelo excesso — era a mais desvairada e, talvez por isso, a mais honesta sobre o que estava acontecendo com a banda. Para os fãs que esperavam a continuidade épica dos Keepers, a capa já era um aviso: aquele Helloween era outro.

Pink Bubbles Go Ape — o álbum

“Kids of the Century” — o único consenso

Se o álbum tem um momento incontestável, é “Kids of the Century”. A faixa abre o disco de verdade — depois da brevíssima intro acústica homônima — e é o Helloween funcionando como deveria: riffs assertivos, coros antêmicos e Kiske em plena forma. A letra trata de uma geração presa num sistema que molda e controla. Chegou ao número 56 no UK Singles Chart.

Capa do singles Kids of the Century (Reprodução/Discogs)

Capa do singles Kids of the Century (Reprodução/Discogs)

Thorgerson também dirigiu o videoclipe de “Kids of the Century”, filmado no Rainbow Theatre em Londres.

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“Number One” — a herança de Les Hambourgeois Walkways

“Number One”, assinada por Weikath, carrega parte de um riff que o guitarrista havia composto ainda na época do Keeper of the Seven Keys Part I, então chamado “Les Hambourgeois Walkways” — uma brincadeira com “Parisienne Walkways”, do Gary Moore — , mas Kai Hansen o recusou para aquele álbum.

Capa do raríssimo single Number One

Capa do raríssimo single Number One

Transformada, a melodia sobreviveu até o Pink Bubbles Go Ape e foi lançada como segundo single em agosto de 1992, quase um ano e meio após o lançamento do disco.

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“Heavy Metal Hamsters” — a provocação à Noise Records

O título mais memorável da lista é “Heavy Metal Hamsters”, supostamente uma provocação velada à antiga gravadora e à indústria fonográfica como um todo. O próprio Weikath revelou o que aconteceu com a faixa em entrevista ao True Metal:

“Levei um bocado de merda por causa da música ‘Heavy Metal Hamsters’, que era para ser um lado B do álbum Pink Bubbles e acabou virando uma faixa do disco.”

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“Someone’s Crying”único vestígio de power metal

O fã da banda que queria ouvir músicas na linha dos Keepers teve que esperar até o lado B do álbum para encontrar algo que remetesse a esse estilo. Bumbo duplo direto, harmonias na velocidade da luz, agressividade e vocais em tons altos… o último suspiro Helloween power metal.

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“Mankind” — a ambição contida

A mais longa do álbum, com seus 6 minutos e 18 segundos, “Mankind” é assinada por Grapow e representa a tentativa mais séria do disco de recuperar a grandiosidade épica de outrora. Kiske está, como sempre, vocalmente impecável.

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Outras faixas: “Back on the Streets”, “Goin’ Home”, “I’m Doin Fine, Crazy Man”, “The Chance” e “You Turn”.

Lançamento, Processo e Silêncio

O álbum foi lançado em 11 de março de 1991 na Europa e imediatamente o Helloween se viu impedido de promovê-lo como deveria. A batalha jurídica com a Noise Records continuava, e uma liminar proibiu a banda de realizar turnês durante praticamente um ano inteiro após o lançamento.

Foi só na primavera de 1992 — após um acordo extrajudicial — que o Helloween pôde finalmente pisar num palco novamente. A mini-turnê europeia começou em Hamburgo, em 30 de abril de 1992, e no outono do mesmo ano a banda fez algumas datas no Japão.

Um ano e meio de silêncio ao vivo para promover um álbum num mercado que era, acima de tudo, alimentado por shows.

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O disco chegou a posições razoáveis nas paradas europeias — número 5 na Finlândia, 14 na Noruega e na Suécia, 20 na Suíça, 32 na Alemanha, 41 no Reino Unido — números que demonstram que a base de fãs ainda estava lá. Mas sem turnê, sem Estados Unidos e sem a magia dos Keepers, era pouco.

O Legado

Pink Bubbles Go Ape é, mais de trinta e cinco anos depois, um álbum profundamente injustiçado — e ao mesmo tempo um registro honesto do caos que o produziu. Não é um Keeper. Nunca poderia ser, dada a partida de Hansen, o ambiente tenso das gravações, o produtor errado e o processo judicial que sufocou o lançamento. Mas tem, espalhadas ao longo de seus 44 minutos, músicas que em qualquer outro contexto seriam lembradas com mais carinho.

O álbum sinalizou, com clareza brutal, que a “era mágica” havia terminado. O próximo disco, Chameleon (1993), levaria a banda ainda mais longe da identidade do power metal. Michael Kiske e Ingo Schwichtenberg foram demitidos do grupo no fim daquele mesmo ano.

Demissões de Kiske e Schwichtenberg colocaram um ponto final em um período conturbado do Helloween

Demissões de Kiske e Schwichtenberg colocaram um ponto final em um período conturbado do Helloween

Schwichtenberg, cujos problemas de saúde mental foram agravados ao longo dos anos de desgaste, faleceria tragicamente em 1995. O Helloween só voltaria a encontrar um rumo sólido com a chegada de Andi Deris, mas isso é história para outro texto.


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