Atos de violência não são o normal
Primeiro dia do mês e eu estou sentado na cobertura de um hotel delicioso em Recife (que praticamente é a minha nova casa de Novembro)…
Atos de violência não são o normal
Primeiro dia do mês e eu estou sentado na cobertura de um hotel delicioso em Recife (que praticamente é a minha nova casa de Novembro), leve, descansado e assado depois de passar muito tempo debaixo do sol e com os pés na piscina. E, nesse final de semana sozinho e de completo “fazer nada”, eu refleti muito. Acho que me faltava um pouco isso: tempo e espaço para pensar.
Tudo se tornou muito, rápido, intenso… por falta de expressão melhor: “too much”. Nem quando eu estava bem pertinho do sono (sabe quando o sono vem chegando e você está pegando sono? aquela sensação bem gostosa), eu conseguia pensar. Pensar gostoso, sem pressa, sem cobrança, com paciência, com carinho. E, nessa corrente fluida e quase transparente de pensamentos, eu percebi algo que não é tão leve quanto essa experiência: eu não sei diferenciar atos de violência do simples dia a dia.
Vamos lá… pareceu bem dramático né? Também achei! Mas, nas últimas sessões de terapia, eu tenho revisitado diversas cenas da minha infância/adolescência: piadas sobre o meu corpo, xingamentos pela minha “viadagem”, punições pela feminilidade, limitações para os sonhos. Como esse era o meu dia a dia, eu normalizei. Normalizei o pedir um abraço e não tê-lo, normalizei o chegar e não ser recepcionado, normalizei o rir e ser julgado. E, agora, quando o contrário acontece, quando eu sou abraçado, quando eu sou bem tratado, quando eu sou celebrado, me assusta, me estranha. E, como reação óbvia, eu me afasto, ou pior ainda, eu afasto as pessoas. Eu sou rude, eu sou bravo.
Não é de hoje que eu percebo isso, tem anos na verdade. As pessoas que eu mais amo e quero perto de mim são aquelas que eu mais sou rude. Mas, não para machucá-las, nunca isso, mas… na verdade não sei o motivo. Ia tentar justificar mas na verdade não sei. É engraçado que enquanto escrevo isso, eu percebo o quão idêntico eu me tornei a meu pai (meu terapeuta vai amar essa reflexão. consigo visualizar o sorriso de satisfação dele ao ouvir isso). Tornei-me aquele que expressa seu sentimento e/ou carinho quando bêbado, que se afasta ao ser abraçado, que se esconde quando merece ser visto, que se julga por simplesmente existir.
Não sei bem o que fazer… ou melhor, acho que estou descobrindo enquanto escrevo (e penso). O segredo não é “curar” meu pai, mas fazer as pazes com todos esses julgamentos. será??? mentira. não é não — você acabou de experienciar 1min na minha mente. sim. é essa loucura mesmo haha
Vamos lá… deixa eu me organizar. Infelizmente, não farei como eu gosto, não terei um manual ou um passo a passo do que fazer para melhorar. Mas, um primeiro passo é respirar e aceitar o afeto, aceitar o carinho, o abraço, a recepção, a celebração. E, lutar contra os atos de violência, não permiti-los, não normaliza-los.
Enquanto escrevo isso, eu consigo me sentir me abraçando, me acariciando, me aceitando. Que isso se torne o comum, e que outros também possam fazer isso. Que eu me permita ser aceito e amado, mesmo quando eu achar que eu não mereça.
메타데이터
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