[0] Pensar a Sociedade ‘para Além do Estado’, o Trabalho em Moldes Mutualistas e a Justiça Social…
O objetivo do presente blog é discutir três possibilidades relativamente marginalizadas no debate público predominante, mas que não…
[0] Pensar a Sociedade ‘para Além do Estado’, o Trabalho em Moldes Mutualistas e a Justiça Social com Liberdade Econômica: a contracorrente do remanescente
O objetivo do presente blog é discutir três possibilidades relativamente marginalizadas no debate público predominante, mas que não obstante penso que valha a pena examinar a fundo, tanto cada uma separadamente (na possibilidade de sua realização isoladamente) como em sua interação (na possibilidade de sua realização conjunta):
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uma organização de trabalho predominantemente mutualista (‘socialista’), na qual predominem firmas gerenciadas pelos próprios trabalhadores, isto é, cooperativas autogeridas de trabalhadores interagindo em um livre mercado e por meio de federações associativas;
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uma sociedade contemporânea funcional, mas sem Estado, sem um poder impositivo supremo, isto é, uma organização da sociedade pela própria sociedade organizada que vá da escala local à regional e assim em diante por meio de associações voluntárias;
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uma maneira de realizar a justiça social por arranjos institucionais públicos, na qual o maior bem-estar ao menos favorecidos (camadas econômicas e minorias sociais desprivilegiadas) seja alcançável de maneira compatível e mesmo potencializada pela liberdade econômica, em particular, e pela liberdade individual, no geral (ou seja, a compatibilidade entre livre mercado e justiça social).
Para conceber seja a possibilidade da realização isolada ou conjunta desses três elementos, e mesmo o quanto já podem ter se realizado de maneira parcial em certos contextos, irei reexaminar a literatura anarquista, em especial do anarquismo mutualista e individualista (como os clássicos de Benjamin Tucker e Lysander Spooner), mas também em face de outras variantes do anarquismo, como o anarcossindicalismo e o municipalismo libertário, especialmente pela ideia de anarquismo sem adjetivos. Portanto, veremos de Pierre Joseph Proudhon a Errico Malatesta, de Rudolf Rocker a Kevin Carson aqui, entre diversos outros.
![Periódico Liberty, eminente publicação anarquista individualista e mutualista de Benjamin Tucker de 1881 até 1908. Com a frase clássica de Proudhon, “[A liberdade] não é a filha, mas a mãe da ordem”.](https://miro.medium.com/v2/resize:fit:431/1*uUBpYFuidIRLFMLSz4t2fg.png)
Periódico Liberty, eminente publicação anarquista individualista e mutualista de Benjamin Tucker de 1881 até 1908. Com a frase clássica de Proudhon, “[A liberdade] não é a filha, mas a mãe da ordem”.
Esse reexame da literatura anarquista e de casos concretos de aplicação será relacionado com: 1) o liberalismo e o socialismo (com especial enfoque no liberalismo novo-clássico/neoclássico da escola do Arizona, no socialismo de mercado e em casos concretos do modelo de cooperativas de trabalhadores) no socialismo de mercado e em casos concretos do modelo de cooperativas de trabalhadores); 2) o potencial progressista embutido em certas tradições culturais (caras ao conservadorismo); 3) o conhecimento científico e acadêmico robusto como produzido nas áreas pertinentes (sociologia, antropologia, economia, historiografia, ciência política, psicologia, biologia, etc.); 4) a economia e história brasileiras e da região amazônica (para pensar tanto o quadro nacional como regional que me é mais próximo).
Aspiro demonstrar que, sim, vale a pena pensar tais potencialidades em sua plenitude para os séculos vindouros ou, na pior das hipóteses, milênios vindouros. Este último caso imaginando um possível “take over” da liberdade e da potência individual por meio do potencial para controle autoritário e vigilância em massa da Inteligência Artificial, e a tendência cultural de enfraquecimento epistêmico decorrente do uso de textos mastigados de um “oráculo digital” para formar opiniões, abandonando-se a busca e leitura das fontes humanas que efetivamente discutiram e produziram o conhecimento e são responsabilizáveis pelo que escreveram (algo ainda mais alarmante se pararmos pra pensar que a IA esteja substituindo fontes humanas na cabeça das pessoas justamente no momento em que tais fontes estão mais disponíveis do que nunca pelo compartilhamento gratuito tornado possível pela internet, em uma das dimensões ainda mais cyberlibertárias desta, que ainda não foi sufocada pelas grandes corporações interessadas e pelos Estados especialmente dos países desenvolvidos e esperamos que jamais o seja).
No tempo presente, por mais que uma ou mais dessas potencialidades não pareça remotamente alcançável (ao menos nas suas formas mais “plenas”), é preciso um remanescente que mantenha essa chama acesa, que continue discutindo essas ideias e práticas, na espera de tempos mais propícios.
De fato, vivemos atualmente em tempos nos quais o predomínio do poder impositivo nos assuntos humanos parece uma realidade a perder de vista no horizonte do futuro. Pressupomos que é preciso que alguém mande e que outro obedeça, seja em modelos democráticos ou autocráticos, seja em modelos capitalistas ou socialistas. Para aqueles de nós que ousam imaginar um mundo sem tal predomínio, o presente certamente coloca desafios inexpugnáveis. Vale ainda a pena conceber tal possibilidade?
Esse problema já ameaçava os teóricos sociais pertinentes na 1ª metade do século XX (especialmente a partir da década de 30), quando enxergaram a ascensão do nazismo, do comunismo soviético e dos Estados-providência/Estados-ingerência democráticos, bem como das grandes corporações capitalistas. Do final do século XIX para o início do XX, a possibilidade de uma sociedade contemporânea funcional sem um poder impositivo supremo (ou seja, sem o Estado como tradicionalmente definido) foi amplamente discutida e defendida. Parecia alcançável daquele ponto de partida. Mas já na 1ª metade do século XX a dependência das pessoas ao redor do mundo em relação ao Estado e em relação ao emprego assalariado passou a aumentar vertiginosamente. Assim, uma sociedade de pessoas livres, que sejam independentes tanto do poder político como do econômico (os quais imiscuem-se), tornou-se mais distante a partir desse novo ponto de partida.
O teórico georgista e libertário Albert Jay Nock em face disso escreveu um texto seminal, cuja ideia é homenageada no título do presente blog. Como Nock aborda em “The Isaiah’s Job” (“A Missão de Isaías”), de 1936, uma visão sobre a possibilidade radical das forças econômicas difusas pela sociedade reorganizarem a sociedade sem os meios políticos responsáveis pelo Estado pode encontrar sérias dificuldades no apelo às massas (Nock de fato era muito pessimista nesse aspecto, mas mesmo que não concordemos exatamente com ele nisso, basta comparar com o apelo muito maior de propostas que se servem indiscriminadamente do aparato estatal coercitivo no intuito de avançar o que propõem).
Mas Nock, que recebera a formação teológica episcopal e chegou a ser ordenado ministro antes de ter virado jornalista e crítico social, encontrou um precedente para esse dilema no fenômeno antigo do profetismo israelita clássico, mais especificamente no trabalho profético de Isaías.
“A carreira do profeta começou no final do reinado do rei Uzias, digamos por volta de 740 a.C. Esse reinado foi incomumente longo, quase meio século, e aparentemente próspero. Foi um desses reinados prósperos, no entanto — como o reinado de Marco Aurélio em Roma, ou a administração de Eubulus em Atenas, ou do Sr. Coolidge em Washington — onde no final a prosperidade de repente se esgota e as coisas vão por água abaixo com um estrondo retumbante.
No ano da morte de Uzias, o Senhor comissionou o profeta a sair e avisar o povo sobre a ira que viria. “Diga a eles que bando de inúteis eles são.” Ele disse, “Diga a eles o que está errado, e por que e o que vai acontecer a menos que eles mudem de ideia e se endireitem. Não poupe as coisas. Deixe claro que eles estão positivamente na última chance. Dê a eles boa e forte e continue dando a eles. Suponho que talvez eu deva lhe dizer,” Ele acrescentou, “que isso não fará nenhum bem. A classe oficial e sua intelectualidade torcerão o nariz para você e as massas nem mesmo ouvirão. Todos eles continuarão em seus próprios caminhos até que levem tudo à destruição, e você provavelmente terá sorte se sair com sua vida.”
Isaías estava muito disposto a assumir o trabalho — na verdade, ele havia pedido — mas a perspectiva deu uma nova face à situação. Levantou a pergunta óbvia: por que, se tudo isso fosse assim — se o empreendimento fosse um fracasso desde o início — havia algum sentido em iniciá-lo? “Ah”, disse o Senhor, “você não entendeu. Há um Remanescente ali sobre o qual você não sabe nada. Eles são obscuros, desorganizados, inarticulados, cada um se esforçando da melhor maneira que pode. Eles precisam ser encorajados e preparados porque quando tudo tiver ido [por água abaixo], eles são os que voltarão e construirão uma nova sociedade; e enquanto isso, sua pregação os tranquilizará e os manterá esperando. Seu trabalho é cuidar do Remanescente, então vá agora e comece a trabalhar nisso.” (Nock, tradução encontrada aqui, com pequena modificação entre colchetes devido a uma expressão incomum no português brasileiro atual)
Ou seja, Isaías entendia ter sido enviado por Deus a pregar para o povo, mas, ao mesmo tempo, Deus já o teria alertado de que o povo não ouviria. Então do que adiantaria? É aí que a mensagem divina cria uma reviravolta: sim, o povo não ouvirá, mas um remanescente, um resto, ouvirá. É preciso encontrar esse remanescente que ouvirá e manterá a palavra, custodiará a palavra, até que ela possa ao fim se cumprir. Que viverá agora uma vida diferente em face desse horizonte. Se encaixa bem como em outro blog, o “A Estrela da Redenção”, descrevi o cerne da profetismo bíblico clássico como um pensamento de longuíssimo prazo (que promove práticas alternativas no aqui e agora), e que pode nos inspirar na questão sociopolítica também:
“O grande cerne do profetismo num sentido existencial foi inspirar um pensamento de longuíssimo prazo para frente e um pensamento histórico para trás. É preciso recontar a história passada, medida em séculos. Assim, poderemos discernir o futuro que virá, também medido em séculos. Só assim poderemos enfrentar adequadamente os desafios do presente. E isso significa se preocupar com as futuras gerações, ao invés do imediatismo de se preocupar apenas conosco individualmente ou com nossa geração presente. O que os profetas fizeram foi trazer à consciência essa necessidade de pensar a vida da comunidade em SÉCULOS. Sim, agora as coisas estarão ruins. Mas é preciso persistir porque daqui há muito tempo haverá a redenção. Sim, você talvez não veja nada disso, eu (o profeta) também não. Mas seus tataranetos o verão. E quando isso se concretizar, a SUA vida terá valido à pena, na retrospectiva.” (blog “A Estrela da Redenção”, [24] Pensamento de Longuíssimo Prazo, em Prol das Gerações Futuras: o cerne da profecia bíblica clássica)
Portanto, eu concluiria com Nock, mesmo se as potencialidades mais radicais forem impalatáveis ao discurso público dominante, ainda há um remanescente que poderá fazer o contrapeso e que precisa ser alcançado. Nock mesmo não esperava que suas ideias seriam realizadas, mas pensava dever registrá-las mesmo assim (independente de alguma utilidade) e ainda considerando que sempre haveria pensadores independentes para encontrar e levar à frente esse tipo de discussão (bem como as práticas sociais que, já aqui e agora, emergem de forma paralela à organização estatal da sociedade, possibilitando esferas do “viver sem autoridade/sem dominação” que caracterizam uma definição de anarquismo no presente). É nesse espírito que lanço esse blog: esta chama precisa continuamente ser acesa e renovada.
![“Anarchic Energy” [Energia Anárquica], Conroy Maddox, 1939.](https://miro.medium.com/v2/resize:fit:750/1*5BZZ3-xbSEybnUQZBAIO2Q.jpeg)
“Anarchic Energy” [Energia Anárquica], Conroy Maddox, 1939.
Além disso, também cultivo aqui uma atitude similar à que inspirou originalmente o blog gringo “*Bleeding Heart Libertarians” quando iniciado em 2011, e que pouco depois de dele tomar conhecimento em 2012, me fez iniciar um blog dedicado em parte a discutir tais questões em janeiro de 2013 (e que foi finalizado em novembro de 2016), o “Tabula (não) Rasa & Libertarianismo Bleeding Heart” (o 1º blog brasileiro e quiçá lusófono a aderir explicitamente à [proposta bleeding heart libertarian](https://libertarianismoedarwinismo.wordpress.com/2014/01/16/o-que-e-o-libertarianismo-bleeding-heart-que-concilia-justica-social-e-liberdade-economica/)), bem como a participar de 2 projetos coletivos, o “Mercado Popular”, brasileiro, do qual fui editor-chefe em 2014 (ano inicial do site, lançado final de 2013) e do “C4SS” — Center for a Stateless Society* –, internacional, do qual fui colunista em língua portuguesa de 2014 a 2015.
Desde 2016, contudo, havia desistido de falar sobre questões políticas e econômicas na internet, entendendo que o trabalho que havia feito nos canais acima elencados já fora o suficiente para o que eu tinha a dizer (além de que a maneira como a viralização e a polarização tomaram conta do discurso público na nova era das redes sociais me frustrou muito, como pode ser lido em meu texto de despedida do “Tabula (não) Rasa & Libertarianismo Bleeding Heart”).
Agora, 10 anos depois, percebo que vale a pena sim voltar e colocar novas palavras.
Uma coisa que em especial desejo refletir diz respeito aos 2 braços da proposta do “Bleeding Heart Libertarians” original: na sua defesa pela compatibilidade entre livre mercado e justiça social, havia tanto uma possibilidade mais radical — e anarquista — como uma mais moderada — e não-anarquista -, convergentes até certo ponto, mas não inteiramente.
A anarquista (individualista e mutualista) eu já conhecia bem há anos antes, o left-libertarianism, que inclusive já havia discutido no meu primeiríssimo blog de 2010/2011 (no texto “Libertarianismo de esquerda: um socialismo pouco conhecido” de 2011 e “A Revolução Industrial, o Estado e o Mercado: uma desmitificação” de 2010) e que já nutria identificação desde 2009 (talvez 2008, mas com mais certeza em 2009).
Mas me foi muito marcante conhecer o lado moderado, por sua articulação de filosofia política acadêmica para a teoria da justiça (como em John Rawls e Robert Nozick) de uma forma nova, a escola do Arizona de liberalismo, ou liberalismo novo-clássico/liberalismo neoclássico (neoclassical liberals). Se o left-libertarianism (também conhecido como “anticapitalismo de mercado”) já me era muito caro antes, essa outra formulação ajudou-me a ter uma postura mais conclusive em meu pensamento, justamente em torno dessa formulação dupla, a do left-libertarianism e do neoclassical liberalism, como se uma complementasse o que a outra não tinha. Dentre as 3 potencialidades objeto deste blog, o braço radical se ocupa mais da 1ª e da 2ª (a proposta de uma sociedade auto-organizada por meio de trocas livres, com predomínio da organização de trabalho mutualista/socialista de mercado), enquanto o braço moderado da 3ª (pensando-a em termos do crescimento econômico promovido pelo livre mercado, e por meio de políticas públicas que promovem a redistribuição de renda por métodos que não interfiram na precificação de mercado, como temos no Brasil o exemplo do próprio bolsa-família, um programa de transferência direta de renda).
Após esses 10 anos sem publicar textos sobre isso, posso dizer que cheguei numa elaboração mais madura de como relacionar esses 2 braços dentro da tese da compatibilidade entre liberdade econômica e justiça social, que não me era claro mesmo quando eu realizava esse aspecto duplo no meu blog pessoal da época, como também nas publicações do Mercado Popular (puxadas para o braço moderado) e nas do C4SS (puxadas para o braço radical). Para colocar sucintamente aqui, seria que as propostas do braço moderado poderiam fornecer um avanço na configuração do arranjo estatal (e com predomínio do trabalho assalariado capitalista), tornando mais fácil a realização das propostas do braço radical de substituir o arranjo estatal e capitalista por meio de organizações (contra)econômicas que fariam do mutualismo/socialismo de mercado o modelo predominante de organização do trabalho. Daí a importância de andarem em conjunto como discutiremos neste blog.
Assim dito, procuraremos examinar como trocas livres e justiça social, para o desenvolvimento de fortes individualidades e de sociedades auto-organizadas, podem ser a chave para o futuro da humanidade.
Valdenor Monteiro Brito Júnior. Filósofo acadêmico. Paraense.
Doutor em Filosofia (Ontologia).
21 de abril de 2026.
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