Do silêncio e da vergonha: nos 41 dias da greve de fome no Reino Unido
No dia 2 de Novembro deste ano, o aniversário da Declaração de Balfour — o inaugural compromisso britânico com a colonização sionista da…
Do silêncio e da vergonha: nos 41 dias da greve de fome no Reino Unido

Imagem de solidariedade criada pelo Krime
No dia 2 de Novembro deste ano, o aniversário da Declaração de Balfour — o inaugural compromisso britânico com a colonização sionista da Palestina — os presos políticos da Palestine Action deram início a uma greve de fome coletiva. No total, 33 pessoas estão encarceradas sem julgamento, a maioria há mais de 1 ano, pela sua oposição ao genocídio em Gaza. Esta situação surge no enquadramento da ilegalização da Palestine Action ao abrigo de leis anti-terror, que procuram deslegitimar e punir a ação direta da organização contra a mega-empresa israelita de armamento Elbit Systems. Até ao momento, 8 militantes continuam em greve de fome e 5 já foram hospitalizados, em condições de repressão brutais e sob risco extremo. Segundo as notícias mais recentes, alguns deles começaram a escrever os seus testamentos e estão a crescer os apelos pela sua libertação imediata. A campanha pode ser seguida na página do @prisoners4palestine no Instagram e a página workshops4gaza criou um toolkit de ação (focado nos EUA, mas que pode ser replicado em qualquer lado). Leiamos os seus nomes:
- Qesser Zuhrah, 41 dias
- Amu Gib, 41 dias
- Heba Muraisi, 39 dias
- Jon Cink, 37 dias
- T Hoxha, 34 dias
- Kamran Ahmed, 33 dias
- Umer Khalid, 9 dias
- Lewie Chiaramello, greve intermitente
E as suas demandas:
- Fim imediato de toda a censura e restrições à correspondência e comunicação.
- Libertação incondicional e imediata sob fiança.
- Direito a um julgamento transparente e justo.
- Relegalização da Palestine Action.
- Encerramento permanente de todas as instalações da Elbit Systems no Reino Unido.
Esta já é a maior greve de fome coletiva organizada no Reino Unido desde a campanha dos militantes republicanos irlandeses de 66 dias na Irlanda do Norte ocupada em 1981. Esta não é apenas uma luta anti-prisional e anti-repressiva, já por si imensamente valiosa nesses termos, mas está também inserida numa linhagem mais ampla de internacionalismo e libertação, desde logo em afinidade com as lutas dos presos palestinianos nas masmorras coloniais. Duas das grevistas, Amu e Qesser, têm também prestado solidariedade a outras formas de resistência no complexo prisional britânico, ainda mais invisíveis do que a sua própria: nomeadamente, as greves de fome dos imigrantes indocumentados nos centros de detenção. Desde os atos de sabotagem industrial à resistência prisional, a luta da Palestine Action tem sido um dos mais extraordinários exemplos de organização política e militância em todo o Ocidente nos últimos anos.
No entanto, a imensa coragem destes militantes nem fica inscrita nos nossos órgãos de comunicação social, ainda menos na memória coletiva. Os jornais ingleses têm sido acusados de perpetuar um *media blackout, na continuidade do que tem sido a sua cumplicidade geral com o genocídio em Gaza. Em Portugal, nestes 41 dias, nenhum *meio oficial sequer reportou a situação e, entre independentes, apenas a Guilhotina tem acompanhado os acontecimentos. A figura do preso político é, em Portugal, como em muita da Europa, um símbolo da brutalidade do legado fascista. Nela, estão condensados inúmeros relatos de tortura, de morte, de repressão política e de inabalável resistência. No entanto, após o fim do fascismo, o terreno da prisão foi gradualmente despolitizado, e os presos políticos separados rigidamente desta outra figura, rude e bruta, o preso comum.
Assim, como já argumentei noutros lados, as prisões continuaram a ser uma modalidade central de dominação racial e de classe em Portugal, atravessadas por abusos, torturas e mortes, mas isto passou a ser visto não como questão política, mas sim de direitos humanos. Que a notícia de uma greve de fome coletiva organizada por presos políticos numa democracia liberal europeia nem nos alcance é absurdo, mas não é propriamente surpreendente. Na nossa memória e consciência coletivas, cabe muita coisa e muita indignação, mas muita dela é mediada hoje pela ideologia liberal e por fatores de auto-interesse, onde as situações podem ser más, mas não convocam por isso para a mobilização. É preciso realmente, à luz da greve geral de ontem, construir a resistência coletiva, como modo de organização e luta política, assim como forma de pensamento e de vida quotidiana.
Este curto artigo serve primariamente para incentivar coletivos e órgãos independentes a noticiarem a greve de fome dos presos da Palestine Action. Mas desejo também denunciar que este silêncio dos principais jornais portugueses é puramente intencional. Sei que sim, porque escrevi duas cartas sobre o assunto à direção do Público, e nenhuma delas foi publicada. Já antes tinha enviado três cartas, todas publicadas na secção diária das “Cartas ao Director”, sobre a política anti-imigração e sobre o genocídio em Gaza. As três foram muito críticas, quer de figuras específicas da redação, quer apontando o sionismo geral da comunicação social portuguesa, mas isso não impediu a sua publicação. Só agora fui ignorado — não pelo tom da carta, mas simplesmente pelo tópico — e entretanto a situação continuou sem ser noticiada.
No final, a vergonha não é que nem reparemos, mas que a catástrofe seja socialmente organizada e organize o todo das nossas vidas. Ou que, afinal, nós é que organizemos a catástrofe. A repressão anti-palestiniana no Reino Unido não é um elemento esporádico — é a imagem daquilo que a Europa realmente é. A cumplicidade sionista, construída pelos biliões de euros que circulam entre a União Europeia e Israel, estende-se ao domínio do que é, para todos nós, permissível fazer. Como noticia a Rede Samidoun, entre a ilegalização de organizações ao abrigo de leis anti-terror e o encarceramento de ativistas, já inúmeros Estados europeus participaram na repressão à solidariedade com a Palestina.
Mantendo-se esta situação, a cumplicidade não é só dos nossos Estados, mas de todos os cidadãos europeus, num estado das coisas onde mesmo os esforços “para confrontar os males do passado [e do presente] arriscam tornar-se numa performance: uma forma de se sentir virtuoso sobre recordar a atrocidade enquanto se evita a muito mais pesada tarefa de examinar as condições que para começar tornaram a atrocidade possível”. Não deixemos a chama morrer. Não deixemos morrer os nossos companheiros que resistem nas cadeias britânicas. E com o seu sofrimento e sacrifício, saibamos nós também, aqui e em todo o lado, começar a fazer guerra aos nossos Estados, pilares inegociáveis de um mundo de chacina e exploração.
메타데이터
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