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Rubem Arruda Câmara: prefeito de São Pedro da Aldeia que criou a primeira TV pirata do Brasil

Comparado ao folclórico Odorico Paraguaçu, o prefeito de São Pedro da Aldeia foi além: colocou no ar a primeira TV pirata do Brasil.

Jornal Camboa · 2026-07-17 06:42 · 0 claps · 5.4 min read
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Rubem Arruda Câmara: prefeito de São Pedro da Aldeia que criou a primeira TV pirata do Brasil

Comparado ao folclórico Odorico Paraguaçu, o prefeito de São Pedro da Aldeia foi além: colocou no ar a primeira TV pirata do Brasil.

Em outubro de 1980, moradores de São Pedro da Aldeia e Cabo Frio tiveram a programação da TV Globo interrompida. No lugar, aparecia um homem com microfone e câmera anunciando que aquela era a TVA, a testemunha da verdade.

O homem era Rubem Arruda Câmara, prefeito de São Pedro da Aldeia pelo partido Arena. Em meio ao regime militar, ele havia montado uma emissora de televisão sem concessão. Pesquisadores do Museu Brasileiro de Rádio e Televisão apontam o caso como o primeiro registro de TV pirata no Brasil.

“Eu tinha 15 anos e guardo essa lembrança com clareza. Lá na praça, ele instalou uma televisão com uma antena gigante, e o equipamento ficava ali, protegido. As pessoas se reuniam em volta e adoravam assistir aos programas que o prefeito passava para a gente.” — Davi Monteiro

Rubem chegou à região em 1959 como inspetor do Instituto Brasileiro do Sal. Durante sua gestão (1977–1983), o município vivia a transição econômica do declínio da indústria salineira, que antes absorvia grande parte da produção local, para a explosão do mercado imobiliário e do turismo. É nesse cenário de mudança urbana e êxodo de famílias carentes que a sua comunicação popular operava.

Cine Arruda Câmara

Antes de se tornar prefeito, Arruda Câmara já ensaiava os passos de comunicador em Nova Cruz, sua cidade natal. Abriu uma sorveteria e, ao lado do irmão Ivan, fundou o Cine Arruda Câmara em 1949.

Instalado na Rua Getúlio Vargas, 75, o cinema tinha capacidade para 500 lugares e funcionava com um projetor de 16 milímetros. Mas o que parecia apenas um negócio familiar era, na verdade, o laboratório de um homem que já enxergava o audiovisual como ferramenta de aproximação com o público.

A citação do professor Antenor Laurentino Ramos, de que Rubem “transformava seu cinema numa quase emissora de rádio”, é perfeita para entender sua personalidade curiosa e muitas vezes dita como folclórica.

A experiência da TVA era o improviso. O equipamento resumia-se a um monitor de vídeo-cassete instalado na Praça Doutor Plínio Tavares. Arruda Câmara operava a câmera e gravava os programas, que sofriam com sacolejos, falta de foco e movimentos de zoom com uma irritante regularidade.

Como não tinha editor de vídeo, ele gravava com som direto e ruído ambiente. Na cobertura da transferência das famílias da Favela do Lixo para o Alecrim, ele colocou para tocar a música-tema do filme A Ponte do Rio Kwai no toca-fitas do seu carro Opala ao fundo, enquanto narrava com a câmera na mão que ali estavam os caminhões da prefeitura transportando os retirantes para a terra da promissão.

Entre os programas estava A Turma do Manda-Chuva, onde ele dublava os personagens com um roteiro articulado. O gato Batatinha, por exemplo, defendia a prefeitura dizendo que o prefeito estava conseguindo asfalto para os buracos, enquanto o Manda-Chuva representava a autoridade perplexa. Ele revelou que a gangue de gatos representava os 11 vereadores da oposição que tentavam derrubá-lo.

Quando Arruda Câmara instalou uma antena na praça e transmitiu sua própria programação, ele estava, em essência, colocando em prática a mesma filosofia que já aplicava no cinema de sua cidade natal: usar imagens e som para falar diretamente com o povo.

Ferramenta política

Em um momento de isolamento extremo. Após ser eleito pela Arena em 1976, Arruda Câmara considerou sua vitória uma derrota da burguesia local. Durante a Abertura, ele tentou migrar para o PDS, mas a Comissão Provisória do partido rejeitou todas as suas 1.150 fichas de adesão, deixando-o de fora das convenções.

O prefeito sofreu 15 processos de impeachment ao longo de sua gestão. No primeiro deles, escapou por um único voto. Enfrentou ainda a rejeição de contas por contratar, sem licitação, um caminhão de lixo para o distrito de Iguaba por 10 mil cruzeiros mensais, respondendo que achou bom negócio. A TV na praça era o único meio onde ele não sofria censura, uma estratégia de sobrevivência para não cair.

Existe um paradoxo na figura do prefeito. Ao mesmo tempo em que cometia o ato subversivo de piratear o sinal da Rede Globo e desafiar o DENTEL, Rubem Arruda Câmara declarava-se um apologista do regime e dizia acreditar no processo de abertura confiando no General Figueiredo.

Ao justificar projetos sociais, fazia questão de frisar que amparava os pobres mas sem comunismo ou esquerdismo. Ele usava métodos de guerrilha midiática para sobreviver, ilustrando as bizarrices da transição política brasileira.

A gestão foi marcada por tensões. Em outubro de 1980, na reta final da campanha para eleger seu sucessor, Arruda Câmara sofreu um enfarte dentro do gabinete após uma discussão violenta com um funcionário que não cumprira uma tarefa.

Precisou ficar internado por mais de 10 dias na Casa de Saúde de Cabo Frio. Antes disso, enfrentou a fúria de Nilton Coelho, que invadiu a prefeitura quebrando portas e mesas por ter sido demitido, sendo contido pela turma do “deixa disso”.

A TVA não foi um caso isolado.

A documentação disponível indica que, após a experiência de São Pedro da Aldeia, outros prefeitos repetiram a façanha: em Guaranésia (MG), em 1987, e em São Joaquim da Barra (SP), um ano depois.

Também nesses casos, o conteúdo transmitido era propaganda política. A primeira TV pirata sem fins eleitorais, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, foi a TV Livre de Sorocaba, em agosto de 1985. Em 1986, surgiu em São Paulo a TV Cubo, uma emissora caseira que invadia a programação da TV Cultura e do SBT para exibir sátiras.

No Rio de Janeiro, em 1990, a 3 Antena foi ainda mais longe: em uma de suas primeiras transmissões, exibiu um vídeo dublado onde Roberto Marinho, fundador da Globo, supostamente ensinava como montar uma TV pirata. A resposta do governo veio com truculência policial.

Essas emissoras foram a prova de que, com imaginação e equipamento mínimo, era possível desafiar o poder das concessões públicas. Assim como a TVA, cada uma delas foi um ato de independência contra a censura e o controle da informação.

A tentativa de documentar a TVA esbarrou na ausência de registros oficiais: o poder público de São Pedro da Aldeia nada preservou sobre a emissora ou seu criador. Diante desse apagamento institucional, a salvação da memória local encontrou-se em Davi Monteiro Gomes, um pesquisador que mantém, por conta própria.

A resistência da memória

Davi Monteiro Gomes, aposentado, herdou o gosto pela pesquisa histórica através de Geraldo Luiz Ferreira, uma referência na preservação da memória aldeense.

Foi com ele que aprendeu a manusear hemerotecas, a garimpar fontes primárias e a compreender a história da cidade. Em suas palestras em escolas, Davi transmite esse legado, mantendo viva a tradição da oralidade que corre o risco de se perder em meio à indiferença do poder público.

Além das palestras, ele mantém uma página no Facebook onde divulga suas pesquisas e insiste na importância de manter vivos os registros históricos e culturais.

Nesse contexto, figuras como Davi e Geraldo Luiz Ferreira são mais que pesquisadores. São verdadeiros guardiões da memória, pontes entre um passado que as instituições negligenciam e um futuro que corre o risco de se tornar ainda mais esquecido.

A história de Rubem Arruda Câmara, afinal, não está nos documentos da prefeitura, está na lembrança e na vontade de quem não deixa que essa memória se apague. É esse conhecimento, transmitido de mestre para aprendiz, que resiste ao tempo e à falta de políticas públicas de preservação cultural.


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