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Ritas (2025), de Karen Harley e Oswaldo Santana

O mundo fica mais pobre quando algumas pessoas partem dele. Foi isso que aconteceu com a partida de Rita Lee deste plano, em 2023. A Rainha…

Letícia Magalhães in Cine Suffragette · 2026-01-19 18:55 · 0 claps · 3.0 min read
#cinema #filmes #documentário #música #rita-lee
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Ritas (2025), de Karen Harley e Oswaldo Santana

O mundo fica mais pobre quando algumas pessoas partem dele. Foi isso que aconteceu com a partida de Rita Lee deste plano, em 2023. A Rainha do Rock Brasileiro foi ativa e ativista, irônica e icônica, nunca subalterna mas para sempre eterna. E um documentário sobre ela só podia ter o título no plural, com sua ousadia de falar sobre uma mulher múltipla.

Caçula de três filhas, Rita mostra fotos da infância ao lado da mãe e do pai, um “feioso charmoso”. Naquela época, a menina Rita e Rita Lee eram a mesma pessoa. Tudo mudou no ginásio, quando Rita Lee tomou os holofotes para si e formou sua primeira banda, só de meninas.

Quando loira, viajou o Brasil e depois foi expulsa d’Os Mutantes. Como ruiva, revolucionou a carreira e a música brasileira. Passou a ter o sol na cabeça, ela mesma diz. Na velhice, tinha cabelos brancos, ou uma lua na cabeça. Seria ela então uma mulher de fases?

Quando falhou em fazer sucesso, foi posta à prova pela gravadora e sabatinada por uma legião de homens engravatados que, ademais, diziam como ela deveria cantar e tocar. A reunião terminou em palavrões, mas Rita Lee não levou desaforo para casa e, ao encontrar nova gravadora, conseguiu liberdade criativa para criar o grande disco “Fruto Proibido”.

Por sua ousadia, Rita Lee foi observada de perto pela ditadura militar e teve músicas censuradas. Foi presa pela ditadura por posse de entorpecentes quando estava grávida, fato que serviu mais como um sinal de alerta dos militares para a juventude que tanto admirava a cantora.

A diva paulistana dividiu o palco com os baianos Caetano Veloso e Maria Bethânia. Compôs “Alô, Alô, Marciano” para Elis Regina, que ela considerava a maior cantora brasileira. Fez dueto ainda com João Gilberto. As parcerias na música popular brasileira não apenas servem para alavancar carreiras, mas também para criar momentos inesquecíveis para nós, que apreciamos a boa música.

Formou sua família. Casada por mais de quarenta anos com Roberto de Carvalho, teve três filhos e no documentário aparece ao lado da neta, ambas mexendo em seus smartphones. Sua causa do coração era o bem-estar animal — bem pensado para uma dona de três gatos e um cão, mas que no passado já teve jaguatiricas como mascotes. Com os animais, dizia que via Deus.

Em meio aos depoimentos da própria Rita, gravados em 2018, aparecem trechos de shows, entrevistas diversas e participações em programas de televisão. Exemplos inegáveis de um talento imenso e janela para uma alma em ebulição.

Creditada pela co-direção está Karen Harley, que também assina em colaboração o roteiro, afinal, foi exclusivamente para ela que Rita deu a entrevista de 2018 que deu origem ao documentário. Karen é uma prolífica editora, tendo editado filmes como “Que Horas Ela Volta?” (2015) de Anna Muylaert e “Zama” (2017) de Lucrécia Martel.

Assim como outro documentário sobre uma mulher incrível que perdemos há alguns anos, “Fernanda Young: Foge-me ao Controle”, “Ritas” é menos um artefato informativo que uma linda homenagem num raro exemplo de a homenageada poder falar por si própria. Logo no início somos informados de que o filme é livremente baseado no livro “Rita Lee: uma Autobiografia” e provavelmente lê-lo aguçará a experiência de ver o longa.

Em dado momento Rita Lee diz que “sendo mulher eu escancaro os tabus, mas não revelo os mistérios”. Isso fica muito patente em um de seus maiores sucessos, no qual contrapôs amor e sexo. Foram muitos os feitos de Rita Lee, mas talvez o maior seja ter provado que lugar de mulher também é com esse tal de rock’n roll.


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