A felicidade é dividir uma fatia de melancia com meu cachorro
Contido o rompante, sobrevoei o mapa mental dos momentos felizes da minha vida e, de todos, um sobressaía pela simplicidade no trato.
A felicidade é dividir uma fatia de melancia com meu cachorro
Uma vez, durante a consulta, minha terapeuta sacou da manga uma pergunta paralisante: “O que é a felicidade pra você?”. Na tara por uma grandiloquência que casasse com o tamanho da pergunta, pensei em mil coisas materiais, duas mil espirituais, três mil transcendentais e muitas coisas mais e tais.
Mas, contido o rompante, sobrevoei o mapa mental dos momentos felizes da minha vida e, de todos, um sobressaía pela simplicidade no trato. Quase como que numa epifania, ou coisa que valha, respondi que a felicidade era simplesmente dividir uma fatia de melancia com meu cachorro numa noite quente de verão.
O Zeus, esse cachorro em questão, é um personagem sui generis na minha história: um vira-lata que chegou com 3 meses, nascido em Campo Grande, adotado no Largo do Machado e que logo virou um olariense nato. Por onde passava, causava suspiros das pessoas e ira dos seus pares caninos. Nos passeios pela rua, só se dava bem com um cachorro, o Dylon, um labrador que morreu cedo demais e deixou Zeus órfão de amigos — muito por opção dele também, sendo honesto.

Lutando contra a preguiça (e perdendo)
Sem dizer uma palavra, o Zeus me ensinou valiosas lições, como tomar sol todo dia, valorizar uma boa soneca, estar junto de quem você ama sempre que possível e não ter vergonha de demonstrar carinho. Também reforçou a importância de defender a família, que a gente não precisa lutar sempre contra a preguiça, e a importância de flanar um pouquinho por aí e latir suas frustrações quando necessário.
Mas o verdadeiro ensinamento, cerne desse texto, é que a felicidade, esse sentimento dos mais ariscos e tão perseguido pelos homens, de poetas a políticos, pode morar em lugares tão simples ou tão inusitados que o nosso olho, que sofre da urgência pelo incrível e da saudade do futuro, muitas vezes não enxerga — ou menospreza.
No episódio final da série The Office, o personagem Andy Bernard (Ed Helms) diz que “Queria que houvesse uma maneira de saber que você está nos bons velhos tempos antes de realmente deixá-los para trás”. Acho que essa frase sintetiza — involuntariamente, talvez — a tragédia de ser humano. Exagero? Muito provável, mas aqui é um espaço seguro para isso.
A questão é que eu posso listar dezenas de momentos em que fui legitimamente feliz — e agradeço muito por todos e tantos —, mas a sensação de cortar uma fatia de melancia e ouvir o barulhinho das patas do cachorro se aproximando da cozinha me mostra toda vez que talvez a gente esteja procurando a bendita no lugar errado.
Zeus me ensinou muita coisa nesses quase 13 anos de vida. A maior lição é que a felicidade pode e DEVE morar nos momentos mais simples, senão a recompensa não sustenta a busca. E a lição foi tão importante que eu planejo essa crônica há alguns anos, escrevendo, corrigindo, apagando, escrevendo e por vezes quase desistindo. Por um desses caprichos da vida, só conseguir finalizá-la hoje, no dia em que ele partiu.
Quando eu tinha uns 9 anos, perguntei pra educadora do centro espírita que eu frequentava se bicho tinha alma. Ela não soube me responder. Ninguém nunca soube me responder, mas eu desconfio, quase aposto que sim. E de verdade, eu espero que tenha. Que paraíso furreca seria esse onde eu não posso dividir uma fatia de melancia com meu cachorro numa noite quente de verão?!
메타데이터
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