Parque de diversão pra adultos
Sábado passado o sol apareceu em Berlin, e a cidade fez o que sempre faz quando isso acontece: esvaziou os apartamentos e encheu os lagos…
Parque de diversão pra adultos

Sábado passado o sol apareceu em Berlin, e a cidade fez o que sempre faz quando isso acontece: esvaziou os apartamentos e encheu os lagos. Fomos pro Plötzensee. O lago é bonito, tem até uma faixa de areia; e ali, deitado numa canga, com o pé na água doce e parada (que nem cheira tão bem), me veio uma sensação difícil de nomear. Porque eu nasci no Brasil. E areia, pra mim, vem com barulho: onda quebrando, vendedor de milho, um horizonte que não termina em árvore nenhuma. O lago é ótimo. Mas o lago é silencioso de um jeito que a minha memória não reconhece: falta o sal, falta o susto da água gelada batendo na canela, falta aquele fundo sonoro que a gente nem percebe até deixar de ter. É uma versão da mesma coisa. Boa, funcional, um pouco menor.
O engraçado é que, enquanto eu sentia essa falta, eu estava olhando exatamente pra tudo aquilo que me prendeu aqui em primeiro lugar. Do meu lado esquerdo, uma família turca com três gerações dividindo comida de uma caixa térmica. Um pouco mais a frente, gente pelada sem nenhuma cerimônia, não como provocação, mas como quem simplesmente não vê motivo pra roupa. Mais adiante, uma caixa de som tocando algo que eu não conhecia, um casal de senhores lendo em silêncio, um grupo de vinte e poucos anos jogando vôlei em roda. Ninguém performando pra ninguém. Ninguém pedindo licença pra existir daquele jeito. Berlin tem essa competência raríssima de fazer tribos completamente diferentes ocuparem os mesmos duzentos metros quadrados sem que nenhuma precise se justificar, e isso, pra quem veio de um lugar onde o olhar do outro pesa, é uma forma concreta de liberdade.
Depois a gente foi no meu tailandês favorito e terminou num bar, e foi ali que a ficha caiu de novo: Berlin é um parque de diversão pra adultos. É uma cidade que foi arrasada, dividida ao meio, remendada, e que ao se reconstruir parece ter decidido que a religião oficial seria a liberdade. Não existe dress code. Não existe hora certa pra ir dormir. Você pode jantar num galpão de trem abandonado, dançar dentro de uma cabine telefônica, comer um döner que foi inventado aqui por trabalhadores turcos nos anos setenta, ou simplesmente sentar na calçada com uma garrafa de um euro e ter uma noite melhor do que a de muita gente numa mesa reservada. É barato ser feliz aqui, e é isso que faz Berlin funcionar como ímã pra quem estava sufocando em outro lugar.
E aí está a parte que eu não consigo resolver: eu sinto tudo isso com nostalgia. No presente. Ainda morando aqui. Como se eu estivesse simultaneamente vivendo a coisa e lembrando dela, a cidade se comportando bem, a cidade fazendo aquilo que a fez lendária, e eu já olhando de um pouco fora, com uma ternura que só costuma aparecer depois que a gente vai embora. Escrevi outro dia que Berlin não mudou, eu mudei, e continuo achando isso verdade. Mas talvez eu tenha sido injusto ao colocar as duas coisas em oposição, porque não é desencanto: é a convivência de duas verdades que se recusam a virar uma só. Eu amo essa cidade. E eu quero ir embora. As duas frases são igualmente honestas, e nenhuma cancela a outra.
Acho que a gente cresce com a ideia de que amar um lugar e escolher um lugar são a mesma decisão; e não são. Berlin me deu a versão de mim que eu precisava aos trinta: uma que aprendeu que não precisa performar, que pode se vestir de preto ou de nada, que aprendeu a se divertir com pouco dinheiro e muita gente diferente. Mas o que serviu como escola não necessariamente serve como casa pra sempre, e a falta de sal na areia do Plötzensee talvez seja só a versão mais boba de uma saudade maior: de calor, de ruído, de um jeito de existir que Berlin nunca prometeu. Quanto tempo a gente fica num lugar depois de perceber que ele já cumpriu o que tinha pra cumprir?
메타데이터
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