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Show de Paul McCartney retorna à Florianópolis e faz jus à sua grandeza histórica

Concerto no Estádio da Ressacada marca a 40ª perfomance do astro de Liverpool em solo brasileiro

Fábio Carneiro in Caderno 2 · 2024-10-30 13:48 · 9 claps · 6.5 min read
#paul-mccartney #beatles #florianopolis #florianópolis #maracanã
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Música

Show de Paul McCartney retorna à Florianópolis e faz jus à sua grandeza histórica

Concerto no Estádio da Ressacada marca a 40ª perfomance do astro de Liverpool em solo brasileiro

Após 12 anos, Paul McCartney retorna ao Estádio da Ressacada. | Créditos: Lucas Amorelli (NSC)

Após 12 anos, Paul McCartney retorna ao Estádio da Ressacada. | Créditos: Lucas Amorelli (NSC)

“E aí manezinhos! Boa noite Floripa!”, em plena emulação de um sotaque catarinense, foi a escolha de Paul para saudar o público em seu regresso à capital litorânea da região sul do Brasil.

2023, aliás, foi marcado pela passagem de Paul McCartney ao nosso país. Apresentando-se em cinco capitais brasileiras (Brasília, Belo Horizonte, São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro, respectivamente), o Beatle encerrou sua vinda por aqui em grande estilo, retornando ao Estádio do Maracanã após um hiato de 33 anos. Em sua primeira vinda ao Brasil, em 1990, ele quebrou o recorde de Tina Turner e Frank Sinatra de maior show pagante de um artista solo na história, com um público de 184 mil pessoas.

Quando os shows de Florianópolis e São Paulo em 2024 foram anunciados, havia certo ceticismo quanto à adesão do público. Afinal, o astro já havia marcado presença no Allianz Parque no ano anterior, diferentemente da capital de Santa Catarina. A última ocasião em que os floripanos tiveram a oportunidade de testemunhar o cantor em ação ocorreu em 2012, com a turnê On The Run. No entanto, esgotando os ingressos nas duas cidades, ficou claro que o ceticismo era infundado.

Em um sábado de clima variado (19), o Estádio da Ressacada centralizou fãs das mais variadas gerações para prestigiar o potencial maior artista vivo da História. E, diga-se de passagem, a turnê Got Back trouxe gratas surpresas para aqueles que esperaram uma dúzia de anos para reencontrar Macca. O astro chegou ao estádio no meio da tarde e iniciou a passagem de som por volta das 17h.

Os fãs próximos da Ressacada tiveram a rara oportunidade de ouvir o soundcheck reverberando cristalinamente do lado de fora, dada a estrutura não habitual do estádio, escutando juntamente daqueles que desembolsaram os salgados R$ 7.920 do pacote VIP do show, o ingresso especial Hot Sound. Entre canções que se destacaram, os deep cuts que ficaram de fora do repertório oficial: Ram On, Every Night, Coming Up e Temporary Secretary.

A última canção citada foi fruto de um pedido coletivo de fãs, encabeçado por um cartaz de Mariana Morosetti, administradora da página The Beatle BR no X (antigo Twitter) e Instagram, e pelo fã Josué Calixto, que ganhou um concurso para conhecer o ídolo e ouvir o ensaio do grande show.

Nota do autor: foi um enorme prazer pintar três ou quatro letras do cartaz, e tocante saber que indiretamente contribuí para uma deliberação de Macca. Obrigado novamente, Mari!

O cartaz elaborado por Mariana Morosetti parou nas mãos de Josué Calixto, que esteve presente na passagem de som. Paul atipicamente tocou “Temporary Secretary” fixando-se no cartaz. | Créditos: Acervo pessoal de Fábio Carneiro, Celeste Juchem, Josué Calixto e Mariana Morosetti

O cartaz elaborado por Mariana Morosetti parou nas mãos de Josué Calixto, que esteve presente na passagem de som. Paul atipicamente tocou “Temporary Secretary” fixando-se no cartaz. | Créditos: Acervo pessoal de Fábio Carneiro, Celeste Juchem, Josué Calixto e Mariana Morosetti

Com 23 anos, Josué conta que virou fã de Paul durante o buzz online do anúncio de New, seu antepenúltimo disco de estúdio lançado em 2013. Mineiro, ele atualmente reside na ilha capital de Santa Catarina.

“No ano seguinte, estive no meu primeiro show do Paul, que foi a abertura mundial da turnê ‘Out There’, no Mineirão, em Belo Horizonte”, conta ele.

Desde então, ele esteve presente em 17 shows do compositor de Yesterday. Seu encontro com McCartney ocorreu logo após a passagem de som, onde Paul notou a camiseta de Josué, que estampava a capa do álbum de 2013.

“Foi uma experiência absurda e estou incrédulo até agora”, pontua o fã.

“Custou 12 anos, inúmeras turnês, 17 shows, três países, quase uma dezena de estados, mas finalmente consegui conhecer meu maior ídolo”. Ele acrescenta com humor: “Ele é mais baixo do que eu esperava”.

Josué e os demais vencedores do concurso da NSC que garantiu um meet and greet em grupo com Sir Paul McCartney. | Créditos: MJ Kim/Acervo pessoal de Josué Calixto

Josué e os demais vencedores do concurso da NSC que garantiu um meet and greet em grupo com Sir Paul McCartney. | Créditos: MJ Kim/Acervo pessoal de Josué Calixto

O show foi aberto pelo DJ Chris Holmes, que trouxe um setlist conciso, equilibrando bem os lados A e B, seja solo, dos Beatles ou dos Wings, com destaques como Arrow Through Me, I’m Down e All You Need Is Love, meu destaque pessoal. Por algum motivo, foi tocante imaginar que um coro de 30 mil pessoas endossou e repetiu essa mensagem apresentada pelos quatro rapazes de Liverpool em 1967.

Destaco também a inclusão de Para Lennon e McCartney, de Milton Nascimento, e Minha Vida, de Rita Lee, tributos prestados aos Beatles por esses dois gigantes da MPB. Após o set, o show prossegue com um vídeo de 30 minutos recapitulando a trajetória que consagrou Sir Paul na História, precedendo uma entrada triunfal.

Começando pontualmente às 21h30, McCartney iniciou os trabalhos com Can’t Buy Me Love, faixa que ele alterna nas aberturas atualmente com A Hard Day’s Night, sintetizando precisamente a beatlemania e o contexto de lançamento do longa e do disco de trilha-sonora do Fab Four. Ao longo das 37 canções e aproximadamente 2h30 de espetáculo, a energia do baixista parece ser a mesma de 60 anos atrás.

Paul McCartney inicia o show com “Can’t Buy Me Love”, sintetizando a efervescência da beatlemania 60 anos atrás, em 1964. | Créditos: Fábio Carneiro

Paul McCartney inicia o show com “Can’t Buy Me Love”, sintetizando a efervescência da beatlemania 60 anos atrás, em 1964. | Créditos: Fábio Carneiro

A sequência incluiu Junior’s Farm e Letting Go, do álbum Venus and Mars, sendo a última com direito ao grupo de sopro no entorno. Ele retorna aos anos 60 com Drive My Car, canção de abertura do disco Rubber Soul que entrou oficialmente no repertório da turnê Got Back em 2024, seguindo com a excelente Got to Get You Into My Life do icônico Revolver, de 1966.

Paul por pouco não deixou de fora seu material recente, incluindo Come On To Me de seu penúltimo álbum Egypt Station (2018). Tratando de Wings, tivemos a icônica balada Let Me Roll It, seguida por uma homenagem a Jimi Hendrix com Foxy Lady. Da fase setentista, destaco Let ’Em In como um hino à diversidade, reforçada pelas imagens no telão que mostravam marchas de grupos minoritários em defesa de seus direitos. Ainda em Band on the Run, as luzes oitentistas de Nineteen Hundred and Eighty-Five são um show à parte. A única homenagem à Linda McCartney que restou no setlist foi Maybe I’m Amazed, a balada que colocou Paul McCartney no mapa enquanto artista solo.

Paul também fez uma viagem no tempo até os primeiros anos dos Beatles, tocando In Spite of All the Danger, dos tempos em que a banda ainda se chamava The Quarrymen, e Love Me Do, o primeiro single do Fab Four.

Indo para o violão, em um momento intimista o cantor emenda a apoteótica canção do álbum branco, Blackbird, com o emocionante tributo ao amigo John, Here Today.

A surpresa do ano ficou na sequência: a apresentação da canção dos Beatles lançada em 2023, Now and Then. Com o videoclipe dirigido por Peter Jackson (sim, o diretor de Senhor dos Anéis) sendo exibido no telão, o contraste do cute beatle no fim de sua vida sobrepondo um apanhado de registros, recapitulando a trajetória do grupo britânico, tem lá sua simbologia e significância. Os fãs reservaram uma surpresa durante a execução da canção: balões no tom da capa do single tomaram a plateia da pista premium, emocionando Paul após a conclusão da música. E claro, it’s all because of you.

Uma adição ao setlist de 2024 é a faixa lançada pelos Beatles em novembro de 2023, “Now And Then”. | Créditos: Fábio Carneiro

Uma adição ao setlist de 2024 é a faixa lançada pelos Beatles em novembro de 2023, “Now And Then”. | Créditos: Fábio Carneiro

Mudando radicalmente o tom, temos New, uma vibrante canção de amor da fase moderna da carreira do músico britânico. E a lenda do rock prossegue com Lady Madonna, o manifesto dele às mulheres que movem as engrenagens sociais. Jet e posteriormente a ópera-rock Band on The Run são os dois grandes números para representar o auge da banda pós-Beatles de Paul. Outro momento memorável foi a homenagem ao seu “mano” George Harrison com Something, intercalando entre o ukulele e a superprodução de sua banda, sempre com foto dos dois integrantes desse icônico conjunto dos anos 60 ao fundo. Destaque para o tema de 007, Live and Let Die, com direito a muitos fogos e pirotecnia.

Na reta final, vieram os hinos Let It Be, Get Back, e, claro, Hey Jude, com todos cantando juntos o famoso “na-na-na”.

Clássico soberano dos Wings e tema de “Com 007 Viva e Deixe Morrer”, “Live and Let Die” destaca-se pela sua sofisticada pirotecnia de fogos e explosões. | Créditos: Fábio Carneiro

Clássico soberano dos Wings e tema de “Com 007 Viva e Deixe Morrer”, “Live and Let Die” destaca-se pela sua sofisticada pirotecnia de fogos e explosões. | Créditos: Fábio Carneiro

No bis, Paul McCartney retorna ao palco para um reencontro com o passado; através da tecnologia MAL utilizada no documentário Get Back, o diretor conseguiu isolar os vocais de John Lennon na memorável performance do terraço da Apple Corps., permitindo o reencontro da maior dupla de compositores em um dueto virtual com I’ve Got a Feeling.

Paul McCartney em um dueto virtual com John Lennon no memorável Rooftop Concert com a canção “I’ve Got a Feeling”, fruto da tecnologia utilizada por Peter Jackson no documentário The Beatles: Get Back. | Créditos: Fábio Carneiro

Paul McCartney em um dueto virtual com John Lennon no memorável Rooftop Concert com a canção “I’ve Got a Feeling”, fruto da tecnologia utilizada por Peter Jackson no documentário The Beatles: Get Back. | Créditos: Fábio Carneiro

Além desse momento, temos o pout-pourri Sgt. Pepper/Helter Skelter, que precede o fechamento definitivo do show com uma das escolhas mais majestosas do Sir, a trinca que encerra o disco Abbey Road: Golden Slumbers, Carry That Weight e The End. E, como de costume, ele encerra o show com seu icônico “see you next time!”, deixando claro que o show do artista tem que continuar.

Um concerto apoteótico para a marca do quadragésimo, sintetizado perfeitamente nos versos finais proferidas pelo astro ao público:

“And in the end, the love you take is equal to the love you make.”

Até a próxima, Paul!


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