← Back to list

A Teologia do Corpo de São João Paulo II (3/7)

Pe. Celso Pôrto Nogueira

Padre Celso Pôrto Nogueira · 2023-04-25 18:11 · 0 claps · 16.9 min read
#teologia-do-corpo #joão-paulo-ii #celso-pôrto-nogueira #pudor #carne-x-espírito
Open on Medium ↗

A Teologia do Corpo de São João Paulo II (3/7)

Pe. Celso Pôrto Nogueira

3. SEGUNDO CICLO

São João Paulo II começa esse Segundo Ciclo de palestras falando do trecho do Evangelho que se encontra em Mt 5, 27–28: “Ouvistes o que foi dito: não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo: todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso já cometeu adultério com ela em seu coração”. Esta é a tradução da Bíblia de Jerusalém. Outras traduções usam termos equivalentes, como: “todo aquele que olha para uma mulher com mau desejo”.

Essa afirmação de Jesus está no contexto do Sermão da Montanha de Mateus e fala do coração adúltero do ser humano, que olha e comete adultério mesmo que não se chegue às vias de fato. Isso se completa com todo o contexto do ensinamento de Jesus, que fala: “Não é aquilo que entra no homem que faz mal a ele, mas, sim, aquilo que sai de dentro do seu coração” (cf Mt 15, 11).

Também se conjuga com aquele dito de Jesus: “A boca fala daquilo de que o coração está cheio” (Mt 12, 34). Jesus apela para o coração. Ele se refere ao coração como sendo a sede dos pensamentos, dos desejos e de toda a esfera deliberativa do ser humano.

3.1. O NASCIMENTO DO MAU DESEJO

NUDEZ ORIGINAL

Mas de onde nasce esse mau desejo ou esse desejo libidinoso? Partimos da nudez original. Adão e Eva andavam nus e não se envergonhavam porque o corpo deles, com toda a marca própria da masculinidade e da feminilidade, refletia a glória de Deus, que é comunhão. Eles se olhavam e se viam como dom um para o outro, com a liberdade própria do dom. Era nessa liberdade que vivia e era para viver o ser humano no plano original de Deus.

O PECADO: DESARMONIA COM DEUS, COM O MUNDO E COM O PRÓXIMO

São João Paulo II não descreve e não analisa com a mesma atenção os versículos do Gênesis que tratam da queda original. Ele pula essa parte. Eu acredito que ele faz muito bem, porque o relato da queda original é um relato em que cada elemento tem uma profundidade muito grande. Iria acabar desviando do foco para falar só sobre os elementos que compõem o relato do pecado original. Ele fala muito brevemente sobre isso, centrando-se mais nas consequências.

Ele apresenta o pecado como um estado de desarmonia com Deus, com o mundo e com o próximo. Assim, tomando o texto do Gênesis, ele vê que Adão, consciente de que estava nu, foi se esconder diante de Deus.

Mas por que essa vergonha de Deus? Aquela confiança que ele tinha em Deus se transformou em vergonha. Por quê? Porque o pecado ensinou o homem a desconfiar de Deus. A serpente diz: “Não, de modo nenhum vocês vão morrer como Deus falou. Na verdade, ele não quer que vocês sejam iguais a ele” (cf Gn 3, 4–5). Ela faz de Deus um mentiroso, um invejoso e despoja o homem do seu estado de amizade com Deus.

Essa amizade com Deus incluía também dons para o corpo, como a imortalidade. Desse modo, o homem, despojado dos dons de Deus, sente vergonha, sente-se empobrecido, depauperado. São João Paulo II também fala que o homem sente uma nudez cósmica. O que seria essa nudez cósmica? Ele sente que a relação dele com a criação mudou. Ele não é mais o senhor da criação, porque ele não é mais senhor dele mesmo.

Ele se torna escravo de todos os condicionamentos da natureza. Ele entra em guerra contra a natureza e esta oferece a ele resistência. Por isso o texto do Gênesis fala dessa maldição do homem que vai plantar e vai encontrar só espinhos e pedregulhos. Ele vai ganhar o pão com suor do seu rosto, vai viver a vida toda nessa luta contra as forças da natureza, mas uma luta que perderá. Não importa o que fizer, o homem vai perder, porque vai se transformar em pó (cf Gn 3, 17–19).

Portanto, o condicionamento da natureza vai vencer sobre o corpo dele, que no plano original de Deus tinha sido destinado para a liberdade e para a imortalidade. Por isso o homem sente essa vergonha cósmica diante do mundo que ele não domina mais e ao qual agora é sujeito dominado.

Depois, o homem sente vergonha com relação ao seu próximo e essa vergonha é a marca ou o resultado da concupiscência. Ou seja, ele descobre no seu coração a concupiscência, o mau desejo. O relato do Gênesis fala explicitamente que Adão e Eva fizeram cinturões com folhas para cobrirem a sua nudez. Portanto, é uma nudez que se refere à proteção justamente daquilo que é a marca mais própria e característica da masculinidade e da feminilidade. Mas protegem do quê? Protegem contra o quê?

NASCE A “TRÍPLICE CONCUPISCÊNCIA”

O papa São João Paulo II quando fala da concupiscência faz relação com o texto da Primeira Carta de S. João, capítulo 2, versículo 16, que fala da concupiscência da carne, da concupiscência dos olhos e da soberba da vida.

Na tradição teológica e espiritual da Igreja essa sempre foi chamada de “A tríplice concupiscência”, ou seja, os três desejos desordenados que são as raízes de todo o mal que o homem pratica. Esses desejos nascem do pecado e nos levam ao pecado. Mas o que são esses três desejos?

A concupiscência da carne se refere à cobiça dos prazeres. Com relação à concupiscência dos olhos, há uma oscilação: para uns, ela se refere ao orgulho, para outros, à cobiça do dinheiro. A soberba da vida também oscila: para uns, ela se refere ao orgulho e para outros, ao desejo de riquezas. Enfim, nós temos esses três desejos: os prazeres, as riquezas e o orgulho (ou o poder de estar acima dos outros).

3.2. SIGNIFICADO DO PUDOR

São João Paulo II fala que esse pudor que nasce é uma defesa, não somente contra a chamada concupiscência da carne, que reduz o outro a um objeto de prazer, mas também contra as três concupiscências. Isso é algo original de São João Paulo II. Ele diz que o pudor defende a pessoa das três concupiscências, da parte do outro.

Que o outro não me veja como um objeto de prazer, nem como uma riqueza e nem como algo que ele tenha que subjugar e mostrar poder. Portanto, o corpo nu diante do coração mau do homem, ferido pelo pecado, se torna objeto não só de prazer, mas também de ter e de poder.

E ele também, por sua vez, é usado pela própria pessoa como objeto tanto de prazer, como de ter e de poder. Ou seja, a pessoa usa do seu corpo na sua marca própria de feminilidade e de masculinidade para exercer sobre o outro o domínio para ter, para adquirir prazer e para adquirir o outro como uma coisa.

A CONCUPISCÊNCIA REDUZ O SIGNIFICADO NUPCIAL DO CORPO

Dentro de tudo isso, percebemos que a concupiscência reduz o significado nupcial do corpo, no qual o homem se vê como um dom para o outro e vê o outro como um dom para si — um dom livre, chamado a ser feito na liberdade e no amor. Essa redução do significado nupcial do corpo se dá porque o domínio da natureza, na sua instintividade, passa a falar mais alto. Assim, o homem não vê mais o outro como um dom, mas como um objeto para a sua própria satisfação.

Ele objetifica o outro. O horizonte fica reduzido a uma só dimensão, desconectada das outras e isso diminui a dignidade do outro diante dos olhos do ser humano. O ser humano não vê mais o outro como um dom para si, e não se vê mais como um dom para o outro, mas vê o outro como uma coisa que ele tem que adquirir para a sua própria satisfação. Todo o seu horizonte fica reduzido à lógica do seu instinto.

O PUDOR VEM COMO RESGATE DO SIGNIFICADO, COMO REEQUILÍBRIO

Dentro desse contexto aparece o pudor, como um resgate do significado total do corpo e, portanto, como um reequilíbrio. Porque o pudor não serve para extinguir a atração física ou para extinguir o instinto, mas serve para moderar e reequilibrar. Ou seja, o ser humano também é objeto de desejo físico, de desejo animal, de instinto, mas não é só isso. É preciso olhar o todo, a pessoa humana completa, que não serve só como um objeto, mas que existe para o diálogo, para a comunhão, para a amizade, para todas as dimensões próprias do ser humano como pessoa, como ser relacional.

É muito interessante ver que o pudor existe em todas as culturas, embora ele tenha estratégias diferentes. Mesmo em povos que andam com o corpo descoberto, existem diversas estratégias e diversas regras de pudor.

Entre os índios do Brasil, por exemplo, era uma coisa indecente uma pessoa andar sobre os passos da outra ou sentar-se no lugar onde outra pessoa tinha se sentado recentemente. Eram regras de pudor. E entre povos primitivos ou povos de lugares quentes, principalmente, existe a estratégia não de cobrir o corpo, mas de desviar a atenção do olhar. As pessoas colocam enfeites coloridos, vistosos, chamativos, principalmente ao redor do rosto (da cabeça), para que essas cores gritantes, às quais o olhar automaticamente se sente puxado, levem a pessoa ao encontro com o olhar. É, portanto, uma forma de dizer: “Não olhe para o meu sexo, olhe para os meus olhos. Eu não lhe escondo o meu sexo, eu não lhe escondo a marca característica da minha masculinidade (da minha feminilidade), mas eu chamo o seu olhar para os meus olhos, para que você olhe para mim e veja um igual, uma pessoa como você. Eu não censuro o meu corpo, mas quero que você olhe para mim como um todo, não como uma única parte que seja objeto de um desejo instintivo.”

Esse é outro tipo de estratégia do pudor humano. O pudor vem como um resgate. Ele se transforma num valor, numa busca do equilíbrio das relações entre as pessoas. É como uma espécie de muleta para que o corpo volte a ser um dom livre.

Nesse sentido, uma pessoa cobre o seu corpo e só o descobre para outra a quem ela se dá livremente. Para essa pessoa, onde ela encontra a reciprocidade no dom, ela se desnuda, porque ela já se assegurou, por meio de um relacionamento com ela, que a sua doação é uma doação livre, uma doação que compromete a sua vida. Assim, não fica automaticamente determinada a relação de uso do corpo como uma coisa.

Dessa forma, o pudor se transforma num valor que anuncia também para o homem esse projeto original de Deus. Quando as pessoas falam umas com as outras dentro de um contexto de pudor, elas podem se encontrar e podem viver essa dimensão de dom, de relação interpessoal, que não se reduz a uma mera instintividade.

3.3. O “ETHOS” DO NOVO TESTAMENTO

Depois disso, São João Paulo II volta para o Novo Testamento, para aquele discurso de Jesus sobre a pureza de coração. São João Paulo II compara o adultério na antiga lei com o adultério na lei de Cristo, porque é justamente isso que Cristo faz no Sermão da Montanha. Ele diz: “Ouvistes que foi dito…, eu, porém, vos digo…”, ou seja, ele compara a lei antiga com a nova lei.

O ADULTÉRIO NA ANTIGA LEI

Jesus mostra que na lei antiga também existia a proibição da cobiça. Porém, a organização dos dez mandamentos na formulação judaica é um pouco diferente. O que hoje nós conhecemos como nono e décimo mandamentos, na antiga lei era um único mandamento, que dizia: “Não cobiçarás a mulher do teu próximo; nem desejarás para ti a casa do teu próximo, nem o seu campo, nem o seu escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença a teu próximo” (Dt 5,21)

Mas a Igreja, sabiamente, e seguindo também as palavras de Cristo, fez a divisão, porque naquela formulação alguém poderia entender que a mulher, o jumento, o boi e qualquer coisa material estariam no mesmo nível, mesmo que esse não fosse o horizonte da lei antiga. Assim, para deixar claro que não é dessa forma, a Igreja separa o nono mandamento (que se refere ao Matrimônio) do décimo mandamento (que se refere à cobiça pelas propriedades, pelos bens do próximo).

A lei antiga também dizia: “Não cometerás adultério” (Dt 5, 18), mas esses mandamentos terminavam numa observância externa.

O ADULTÉRIO NA LEI DE CRISTO

São João Paulo II apresenta uma grande novidade em seu ensinamento. De forma muito perspicaz ele faz a seguinte observação: Jesus fala que aquele que olhar para uma mulher com mau desejo já cometeu adultério com ela no seu coração. Jesus não diz: “aquele que olhar com mau desejo para outra mulher, que não seja a sua”. Ele diz: “aquele que olhar com mau desejo para uma mulher”. Essa é a novidade de Cristo.

Porque a antiga lei proibia o homem de olhar e desejar com cobiça outra mulher que não fosse a dele, mas não falava nada sobre como ele deveria olhar para a sua mulher. Desse modo, dava margem ao homem para olhar para a sua própria mulher com mau desejo, como se ela fosse um objeto que ele pudesse usar.

São João Paulo II também lembra dos ensinamentos dos profetas que falavam do adultério do povo de Israel, ou seja, de uma relação não justa, não adequada com Deus. Ele diz que esse adultério (ou essa adulteração) pode acontecer dentro do Matrimônio, quando um olha para o outro como um objeto. É interessante como isso acontece com frequência. Muitos homens acham que, a partir do momento em que se casam, a mulher passa a ser uma carta branca para ele e por isso, ela tem que fazer tudo o que ele quiser. Assim, a mulher se transforma numa espécie de escrava sexual do homem.

Essas distorções faziam com que um homem inteligente como Leon Tolstói dissesse que o casamento era a forma legalizada de prostituição na sociedade, porque o homem dava o sustento vitalício para a mulher e tinha a mulher como seu objeto vitalício de prazer. E assim ficava tudo tranquilo, todo mundo ficava em paz. A sociedade não se inquietava com isso.

Mas Jesus vai mais a fundo nessa análise do coração humano que, mesmo dentro de uma forma aparentemente ou externamente legalizada, pode perverter a relação com uma pessoa.

O CORAÇÃO, NÃO ACUSADO, MAS “CHAMADO”

Toda essa descoberta do coração que Jesus faz não é simplesmente para acusá-lo, mas para mostrar que o coração do homem tem outra vocação.

São João Paulo II recorda o que o linguista e filósofo Paul Ricoeur dizia a respeito dos chamados “mestres da suspeita” da modernidade, que são Marx, Freud e Nietzsche. Eles são quase que uma “Santíssima Trindade” da filosofia, que nós encontramos em toda a parte, pois o que disseram é como se fosse “Palavra de Deus” para muitas pessoas.

Ricoeur os chamava de “mestres da suspeita” porque sempre diziam que no homem tem uma intenção escondida. Para Marx, é o interesse econômico; para Freud, o interesse sexual e para Nietzsche, o interesse do poder.

Notemos como nesses três “mestres” nós encontramos as três concupiscências. Marx, no ter; Freud, no prazer e Nietzsche, no poder.

O cardeal Fulton Sheen tem um texto muito interessante, que fala das três idades do homem. A juventude é marcada pela concupiscência do prazer. Os jovens são escravos do prazer. A idade adulta é a idade do poder, na qual o homem procura se afirmar, vivendo a competição profissional e a busca do domínio, da supremacia. E a velhice é marcada pelo ter. Os velhos se agarram de uma forma avarenta às suas coisas, não admitem que ninguém mexa nelas. Assim, a cada uma das três idades do homem, tem uma das concupiscências que o dominam.

Mas Jesus não descobre o coração do homem para acusar, simplesmente, mas para resgatá-lo e redimi-lo. Ele também fala de um bom desejo do coração, da possibilidade que o coração tem com a Nova Lei de Cristo, de voltar ao princípio e ver o outro como um dom e de ver-se como um dom para o outro também. Esse seria o ethos do Novo Testamento, ou seja, a ética (ou moral) do Novo Testamento.

São João Paulo II também faz uma análise dessas duas palavras: ethos (de onde vem a palavra ética) e eros (de onde vem o erotismo). Assim, o ethos purifica o eros (o desejo, a atração entre o homem e a mulher) e volta a colocar isso no contexto da pessoa.

3.4. A DOUTRINA PAULINA SOBRE A “CARNE”

CARNE X ESPÍRITO. MANIQUEÍSMO?

Depois, São João Paulo II vai falar a respeito da doutrina paulina sobre a carne. Nós lemos nos textos paulinos que o cristão não deve viver segundo a carne, mas segundo o espírito, porque os desejos da carne são contrários aos desejos do espírito. Existe em São Paulo um discurso da carne x espírito. E aí vem a pergunta: será que isso é maniqueísmo? Será que isso é aquele esquema dualista maniqueu que vê a matéria como algo essencialmente negativo ou trata-se de outra coisa?

MEMBROS MAIS HONROSOS E MENOS HONROSOS

São João Paulo II analisa um pouco o contexto dos ensinamentos de S. Paulo e evidencia como ele dá um grandíssimo valor para o corpo. Percebemos isso, por exemplo, quando ele compara a Igreja a um grande corpo do qual Cristo é a cabeça e todos nós somos os membros.

Ele fala dos membros mais honrosos e dos menos honrosos e diz que os membros de menor honra são tratados com mais respeito, com mais decoro. Ou seja, a parte do corpo referente à masculinidade e à feminilidade é honrada, no sentido de que ela é coberta e, portanto, tratada com decoro.

Segundo São João Paulo II, não devemos entender que alguns membros do corpo têm mais honra do que outros e, muito menos, entender que as partes do corpo referentes à sexualidade têm menos honra do que as outras. Mas sim, que elas são as mais sujeitas à desonra, por causa do olhar da concupiscência.

Assim sendo, essa fragilidade de estarem mais sujeitas à desonra pelo olhar do outro é compensada com uma maior honra. Nesse sentido, os membros do corpo menos honrosos são cobertos com maior decoro, com uma maior delicadeza.

CORPO, TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO

São Paulo também fala do corpo como templo do Espírito Santo e faz isso justamente no discurso contra a impureza. Todos os pecados que as pessoas cometem são fora do corpo, mas quem peca por impureza peca contra o seu próprio corpo.

Paulo revela a dignidade do corpo e, à luz desse ensinamento, nós lemos aquele texto da carne contra o espírito e percebemos o seguinte: quando S. Paulo fala das obras da carne, refere-se à fornicação, à impureza, ao despudor e ao adultério, coisas que, na nossa visão atual chamaríamos de pecados da carne. Mas ele também considera obras da carne outras coisas que consideramos como pecados espirituais, como as rixas, dissenções, invejas. Para ele, tudo isso também é obra da carne.

Para S. Paulo, carne é um termo que São João Paulo II coloca em comparação ao termo mundo, usado por São João. Quando S. João diz “Eles estão no mundo, mas não são do mundo” ( Jo 17, 11.14) ou “O mundo não conheceu Cristo” (Jo 1, 10) ou o trecho que vimos da Primeira Carta de S. João “Tudo o que há no mundo — a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida…” (I Jo 2, 16), ele fala do mundo em termos negativos, como o conjunto das coisas que fecham o homem na sua imanência e o impedem de entrar em comunhão com Deus. Porém, em outras vezes, S. João fala do mundo em termos positivos, como sendo a criação de Deus.

São Paulo fala da carne como sendo essa realidade que fecha o homem em si mesmo. Por exemplo, quando as pessoas disputam dentro da comunidade cristã, ele diz: “Já sei que vocês são pessoas carnais ainda. Vocês ainda não são espirituais” (cf. I Cor 3, 1). Ou quando aquelas pessoas querem fazer com que os pagãos sigam a lei judaica, ele diz: “Eles querem se gloriar na vossa carne” (Gal 6, 13). Ou seja, o termo carne possui uma gama de significados para S. Paulo, não se referindo apenas ao corpo ou à sexualidade, mas a uma visão imanente das coisas, que não permite a pessoa ir até Deus.

3.5. O CORPO E A ARTE

São João Paulo II termina esse ciclo de catequese com uma belíssima reflexão sobre a representação do corpo na arte. Ele coloca a seguinte questão: qual é a ética (ou o ethos) da representação do corpo nas artes?

Não somente nas artes como o teatro e a dança, em que a pessoa usa o corpo inteiro, mas na representação do corpo na pintura e na escultura.

São João Paulo II também fala da fotografia, fazendo uma observação muito interessante. Ele diz que a fotografia, por ser um registro, não passa por uma interpretação, como é o caso da escultura e da pintura. Na escultura e na pintura o artista tem que recriar o corpo, mas na fotografia o corpo já está ali e a criatividade do fotógrafo entra só em alguns aspectos, como na iluminação, foco ou na escolha do modelo. Portanto, não é uma recriação ou uma interpretação completa do corpo.

Isso é algo que daria uma curiosa discussão, com o seguinte tema: “Até que ponto, hoje, na era Photoshop, a fotografia é apenas um registro e não uma total interpretação do corpo?”. Mas, de qualquer maneira, o ponto de partida da fotografia é algo que já está ali, ou seja, não é recriado a partir de outro material.

PROBLEMA ÉTICO DA REPRESENTAÇÃO DO CORPO

São João Paulo II fala do problema ético da representação do corpo, no sentido de que o corpo representado e, principalmente, o corpo na sua nudez, corre o risco de ser transformado num objeto.

Ele usa um termo ao lado do termo pornografia, que é o termo pornovisão. Pornografia é a representação gráfica da nudez ou a exposição da nudez, enquanto que a pornovisão é o ato de uma pessoa olhar de forma impura, pornográfica para aquele corpo. É o chamado voyeurismo.

A ARTE QUE RESGATA O CORPO

Mas, é possível tratar o corpo humano na sua nudez, de modo que ele não seja reduzido a um objeto “pornograficizado” ou “pornovisualizado”? São João Paulo II responde sim a essa pergunta. Ele diz ser possível representar o corpo e até mesmo o corpo na sua nudez, de forma que não leve um apelo irredutível a uma visão impura, que objetifica a pessoa e o corpo.

Ele escreve um texto muito bonito, que diz: “No decurso de várias épocas, começando na antiguidade — e sobretudo no grande período da arte clássica grega — há obras de arte, cujo tema é o corpo humano na sua nudez, e cuja contemplação consente concentrarmo-nos, em certo sentido, na verdade inteira do homem, na dignidade e na beleza — também a “supra-sensual” — da sua masculinidade e feminilidade. Essas obras trazem em si, quase oculto, um elemento de sublimação, que leva o espectador, através do corpo, ao inteiro mistério pessoal do homem. Em contato com tais obras, em que não nos sentimos determinados pelo seu conteúdo para “olhar desejando”, de que fala o Sermão da Montanha, aprendemos em certo sentido aquele significado esponsal do corpo, que é o correspondente e a medida da “pureza de coração”.”

João Paulo II está nos dizendo que os artistas tem a capacidade de apresentar o corpo humano e até mesmo o corpo nu, de uma forma idealizada. Mas não no sentido de que ela abstrai o corpo humano e, sim, no sentido de que ela devolve para o corpo a sua característica esponsal. Desse modo, pela lente do artista nós voltamos a ver o corpo humano na sua nudez masculina e feminina, em toda a sua grandeza e beleza originais, de forma que não olhamos para ele e sentimos imediatamente acender o impulso ou desejo animal, que nos levariam a olhar pornograficamente para este corpo.

Isso é algo que os grandes artistas conseguiram fazer. A escultura grega, por exemplo, não é realista. Ela nos parece realista, mas não é. Quando vemos a escultura de um atleta nu ou de um deus grego nu, percebemos que metade do seu corpo está relaxada, pois ele está se apoiando num pé só, mas ao mesmo tempo, vemos os seus músculos todos tensos. Os músculos da frente do corpo estão tensos, o que deveria relaxar os músculos das costas, mas também vemos os músculos das costas tensos.

Portanto, não é uma representação realista do corpo. É uma análise da beleza de cada parte do corpo humano e da sua harmonia. Esses corpos eram construídos sobre um cânone, sobre umas medidas pré-determinadas. A cabeça tinha que ter uma determinada proporção com relação ao corpo. Todo o corpo era dividido em seção áurea, em proporções matemáticas que criavam uma harmonia.

Assim, o corpo, na escultura clássica, não era um corpo realista, nem uma fotografia do corpo de uma pessoa. Mas era um corpo sublimado, que mostrava a glória do corpo como criatura de Deus. E esse ideal do corpo, mostrando toda a sua grandeza e sua glória, foi retomado na Renascença pelos seus grandes artistas.

São João Paulo II amava a Capela Cistina e ele a chamava de “O santuário da teologia do corpo”. Ele amava esse lugar porque é justamente o lugar em que mostra o corpo como quase recém-saído das mãos de Deus, das mãos do Criador. Isso só um grande artista, um homem de grande sensibilidade e grande espiritualidade poderia conseguir. Alguém com um grande dom, porque a arte é um dom. E é um dom próprio do artista intuir que por trás do corpo existe uma grandeza e essa grandeza é justamente a vocação do corpo como comunhão, como reflexo da trindade.

São João Paulo II foi um homem que durante toda a sua vida amou e cultivou as artes, principalmente o teatro e a poesia, sendo ele mesmo um artista.

Aqui terminamos esse ciclo, com a revelação do mau desejo do coração humano, mas também com o convite e a possibilidade da redenção, através de Cristo, para que o coração humano volte a ser um coração puro: “Bem aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus.” (Mt 5, 8)

**PARTE 2 PARTE 4**


메타데이터
post_id
d64fabe41392
slug
a-teologia-do-corpo-de-são-joão-paulo-ii-3-7-d64fabe41392
url
https://medium.com/@padrecelsoportonogueira/a-teologia-do-corpo-de-s%C3%A3o-jo%C3%A3o-paulo-ii-3-7-d64fabe41392
canonical_url
https://medium.com/@padrecelsoportonogueira/a-teologia-do-corpo-de-s%C3%A3o-jo%C3%A3o-paulo-ii-3-7-d64fabe41392
author_url
https://medium.com/@padrecelsoportonogueira
status
ok
fetched_at
2026-07-25 20:51:28