A cor do luto
O primeiro gole de café preto é um ritual, toda manhã. Um instante de silêncio antes do mundo acordar. O vapor sobe, quente, indiferente ao…

A cor do luto
O primeiro gole de café preto é um ritual, toda manhã. Um instante de silêncio antes do mundo acordar. O vapor sobe, quente, indiferente ao frio que se espalha por dentro. Enquanto a cidade ainda boceja atrás das janelas embaçadas, olho o café na xícara. Uma lágrima cai dentro dela. Mais uma. Mais uma. Tem dias que a vida pesa mais do que deveria. Tristeza, essa cor sem brilho, veste-se de tons profundos e silenciosos. Ela não grita, não pede licença. Apenas chega, senta-se ao meu lado e espera. Espera que a escuridão ganhe cores mais vivas.
Hoje é um dia sombrio, apesar do céu límpido. O sol, indiferente, arde na pele — como se zombasse da sombra que carrego por dentro. O vento empurra folhas secas pela calçada, e os passos apressados dos outros contrastam com o peso dos meus. O preto está por toda parte: no guarda-chuva que se abre contra tempestades inevitáveis, na roupa que escolho para o velório. Talvez o preto mais denso seja aquele que se instala por dentro. E que não está na roupa que visto, mas na ausência que ela cobre. Ele se espalha no vazio do abraço que não vou mais dar, no eco de uma risada que agora só existe na memória.
Pessoas andam apressadas, conversam, riem — como se o mundo não soubesse que perdi alguém. Como se a vida não pudesse parar nem por um instante. Mas o luto tem seu próprio tempo. Ele caminha devagar, em passos pesados, arrastando lembranças que se recusam a partir.
No velório, o preto se mistura a olhares vazios, a mãos que apertam as minhas sem precisar dizer nada. Há um silêncio que diz mais do que qualquer palavra. O cheiro das flores não ameniza a sensação de ausência. Apenas reforça que agora há um espaço onde antes havia uma presença.
Fecho os olhos por um instante e me agarro ao que resta: ao amor que não desaparece, às histórias que ficaram. A dor, aos poucos, também tem frestas. E sei que, um dia, o preto se tornará menos opaco. Até lá, sigo. Um gole de café por vez. Outro gole. Outro dia. E um dia, quem sabe, outra cor.
Março — Exercício 1 — Escrever a partir de uma cor.
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