Querem pemba, querem guia, querem samba em Magé
Em 2018, a Inocentes de Belford Roxo desfilou lados desconhecidos da cidade de Magé, na Baixada Fluminense, misturando passado e presente…
Querem pemba, querem guia, querem samba em Magé
Em 2018, a Inocentes de Belford Roxo desfilou lados desconhecidos da cidade de Magé, na Baixada Fluminense, misturando passado e presente em uma história que poderia ser contada em quadros.
Distantes 57km entre si, Belford Roxo e Magé se encontraram na Sapucaí em 2018 em um desfile da Inocentes. Para contar a história e as singularidades da cidade, a caçulinha da Baixada (fundada em 1993), apostou em um samba valente composto sob demanda por dois dos maiores compositores de samba-enredo dessa geração: André Diniz e Cláudio Russo.
O resultado foi uma música de melodia cativante que traz em seus versos diversas referências interessantes sobre a cidade, sua história enraizada de africanidade e seus ilustres filhos e moradores.
FICHA TÉCNICA
enredo Mojú, Magé, Majubá — Sinfonias e Batuques (sinopse completa) autor do enredo Wagner Gonçalves carnavalesco Wagner Gonçalves desfile 6ª escola a desfilar | 10/02/18 | Sapucaí resultado 4ª colocada na Série A (LIERJ)
O SAMBA
A missão de escrever esse samba encomendado caiu nas mãos de dois dos mais talentosos compositores de sambas-enredo da história. Na verdade, caiu primeiro nas mãos de Claudio Russo, consagrado por grandes sambas (até aquele momento de 2018), na Beija-Flor, na Renascer de Jacarepaguá, na Cubango e na própria Inocentes em 2008 e 2012, entre outros. Curioso também comentar que 2018, além desse samba que abordaremos aqui, foi o ano em que Russo compôs aquele que considera um dos grandes sambas da sua carreira: o *“Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?”* na Paraíso do Tuiuti.
Com o desafio de fazer esse samba, Claudio convidou André Diniz, outro consagrado compositor que até ali colecionava inúmeros sambas campeões na Vila Isabel. A mistura das inspirações de ambos resultou em um samba fora do lugar comum: “com harmonia diferente e uma letra cheia de jogos de palavras e modulações inesperadas”, como define o próprio André Diniz.
Um batuque africano me chamou A pintura fez da tela, seu lugar Os prazeres vão se refletir Nas histórias que eu vou contar Sai o trem da estação Pra trilhar esta canção Moju, Magé, mojúbà! Luz dos olhos de Olodumarê Em cada amanhecer
Toca o atabaque, onde a África aportou Clamando por piedade Toca o atabaque, onde a lágrima aportou Maria Conga ergueu a liberdade
Benta água, ritos tão divinos Sentimentos cristalinos Pureza a pé, procissão Se a festa é de Pedro não demora Nossa fé, senhora, desta oração! A tribo que chegou aqui primeiro Deu o nome feiticeiro Às entranhas desse chão
Auê, auê na riqueza da pingueira Pra escorrer a doçura brasileira
Caminho do nobre metal Pavio de fogo e fé Da luta contra o marechal Aos dribles na vida, Mané Folia de todos os reis E o samba desabrochando em flor Nas cores do pintor
Querem pemba, querem guia Querem figa de guiné Axé, Magé, sinfonia de tambores Hoje a gira vai girar Ê mojúbà, ê mojúbà
O samba acima foi muito bem defendido na avenida pela talentosa dupla Ricardinho Guimarães e Anderson Paz que, nos microfones, tratou de valorizar as nuances melódicas e as interpretações que os compositores imaginaram.
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RESUMO DO ENREDO
Resumindo com muita simplicidade esse enredo, podemos dizer que é uma homenagem à cidade de Magé. Mas a profundidade do tema se dá na pesquisa que o carnavalesco Wagner Gonçalves desenvolveu para contar essa história que, como veremos, é riquíssima em sua herança cultural africana, indígena e no sincretismo religioso.
Além das raízes culturais, Magé, a segunda cidade mais antiga do Estado do Rio de Janeiro, também teve importante papel na época da mineração — já que era parte do caminho do ouro que ligava Minas Gerais ao Rio de Janeiro, é a terra natal de Mané Garrincha e foi palco da Revolta da Armada. Essas e outras curiosidades sobre a cidade estão presentes no samba que mergulharemos, palavra por palavra, a partir de agora.
VERSO A VERSO
Para contar essa história de misturas e influências diversas, o carnavalesco Wagner Gonçalves, que vinha para o seu sexto carnaval seguido na Inocentes (depois de um terceiro lugar com a Mangueira naquele desfile sobre Nelson Cavaquinho, em 2011), decide começar pela África. O samba começa com um verso singelo dizendo que “Um batuque africano me chamou” que pode ser lido com dois enfoques. O primeiro e mais claro está na sinopse do enredo, que começa evocando Magé como um bastião da tradição africana que guarda em si e na sua história essa “força ancestral” do “batuque africano”: ou seja, o próprio desenvolvimento do samba como gênero. O segundo é um pouco mais profundo: talvez uma derivação dessa reverência ao samba e ao carnaval construindo um link com os próximos versos. Vou tentar explicar. Nascido da miscigenação, como a própria cidade de Magé, o batuque do samba se desenvolve no Rio de Janeiro, capital do Brasil colônia, a partir da chegada dos africanos. Nessa mistura de Brasil e diversas culturas africanas, as primeiras canções do gênero samba eram marchinhas escritas por Pixinguinha, João da Baiana e o multitalentos Heitor dos Prazeres.
É Heitor, personificado no enredo e no samba, quem é chamado pelo batuque africano do primeiro verso: um convite do samba e do carnaval para que ele conte a história de Magé. Mas por que Heitor dos Prazeres contaria a história dessa cidade? Porque Heitor, compositor e pintor, foi casado com uma moradora de Magé, teve uma casa lá e se inspirou nas paisagens mageenses para pintar muitas de suas telas. O carnavalesco decide, então, desenvolver os setores do desfile com base nas obras de Heitor e o samba empresta a visão do artista para narrar a história.
Os próximos versos do samba deixam clara essa ideia: “A pintura fez da tela, seu lugar. Os prazeres vão se refletir nas histórias que eu vou contar”. Ainda criança, Heitor aprende a tocar cavaquinho e passa a frequentar com seu tio as casas das tias (Ciata, Esther) no Rio de Janeiro. O talento para tocar e compor canções como *Consideração, Tristeza e Pierrot Apaixonado* o faz figura recorrente entre outros bambas como Sinhô, Donga, João da Baiana, Pixinguinha e Paulo da Portela, contribuindo para que ele ajude a organizar e fundar os primeiros agrupamentos de samba e, posteriormente, as primeiras escolas. A morte da sua primeira esposa, porém, desabrocha em Heitor outro talento: o da pintura que, entre outros temas, tem Magé como um dos seus preferidos. Depois, o verso faz uma clara analogia ao sobrenome de Heitor, enunciando o prazer que o narrador terá em contar as histórias a seguir.
Logo em seguida, o samba começa a contar a história da cidade por uma de suas curiosidades mais simbólicas (e poéticas): Magé foi o ponto de partida da primeira estrada de ferro construída no Brasil pelo Barão de Mauá. O trecho de 14km começava na cidade e seguia em direção a Petrópolis e servia principalmente para escoar a produção agrícola da região. O samba lembra desse fato com os versos “Sai o trem da estação pra trilhar esta canção”, se valendo dessa passagem histórica como figura de linguagem ao início do samba.
A raiz do nome da cidade, de origem tupi, está no título do enredo e no próximo verso: “Mojú, Magé, mojubá!” é não apenas uma brincadeira com as palavras de entonação e gramática parecidas, como um enlaçamento das origens tupi e africanas da localidade. Segundo o glossário do enredo escrito pelo carnavalesco, Mojú é uma palavra Iorubá que significa “saber, conhecer”. Magé vem do Tupi e é uma derivação do seu primeiro nome, Magepe-mirim e pode ter seu significado entendido como “feiticeiro” ou “cacique”. Já a última palavra do verso, Mojubá, na língua Iorubá, pode significar “meus respeitos” em uma saudação. Assim, o verso juntaria expressões de origem africana e tupi para dizer (numa interpretação livre, é claro): “Prazer em conhecer, Magé, meus respeitos”.
A “luz dos olhos de Olodumaré em cada amanhecer” do próximo verso é um elogio carregado de africanidade à cidade e talvez à sua beleza retratada por Heitor em seus quadros. Apenas para constar: Olodumaré é o ser supremo da religião Iorubá.

Destaque do abre-alas da Inocentes: “Sob os olhos de Olodumaré” (G1)
Todo o refrão do meio que diz “Toca o atabaque, onde a África aportou clamando por piedade. Toca o atabaque onde a lágrima aportou, Maria Conga ergueu a liberdade” pode ser explicado em um mesmo contexto. O atabaque é a representação musical da herança africana que aportou no Brasil e também, mais especificamente, no Porto da Piedade, em Magé. O instrumento trazido ao Brasil pelos escravizados se tornou parte importante na criação do samba — gênero preferido do compositor Heitor dos Prazeres. O Porto da Piedade era local de desembarque de escravos que chegavam ao Rio de Janeiro até 1831 e, por isso, o refrão faz referência a ele e às lágrimas que provavelmente eram derrubadas ali. Já Maria Conga, que aparece no último verso, foi uma importante líder quilombola. Filha de um rei africano, ela conseguiu sua alforria aos 35 anos e seguiu lutando pela liberdade dos escravos criando, inclusive, um quilombo na cidade. É curioso notar que não parece haver nenhuma referência a ela na sinopse do enredo, mas os compositores sabiamente inseriram a figura histórica no samba — até porque há um busto em homenagem a ela no rebatizado Píer da Piedade.

O primeiro casal Peixinho e Jaçanã Ribeiro vestidos de “Batuques Africanos” (SRZD)
Os próximos versos fazem referência a alguns marcos religiosos da cidade de Magé. O primeiro deles está em “Benta água, ritos tão divinos, sentimentos cristalinos” que insere o Poço Bento, tradicional local de peregrinação para devotos em busca de água benta e que se localiza no centro de Magé. Depois o samba fala em “Pureza a pé, procissão. Se a festa é de Pedro não demora nossa fé, senhora, desta oração!” ainda dialogando com a temática religiosa cristã, mas dando destaque à tradicional festa de São Pedro que acontece em Magé no dia do santo, 29 de junho e também à igreja matriz da cidade: a Igreja de Nossa Senhora da Piedade de Magepe.
Os últimos versos dessa parte do samba remontam à origem do nome da cidade: “A tribo que chegou aqui primeiro deu o nome feiticeiro às entranhas desse chão”. A tal tribo que chegou a Magé primeiro foram os tupinambás, uma nação indígena que se espalhava pelo litoral brasileiro antes da invasão europeia. Como vimos acima, Magé, na língua tupi falada pelos tupinambás poderia ser traduzido como “feiticeiro” e é exatamente isso que o verso descreve.
O samba, então, apresenta um bis de melodia fácil e cativante: “Auê, auê na riqueza da pingueira pra escorrer a doçura brasileira”. A sacada aqui é uma referência a dois produtos da extração agrícola da região: a “pingueira” pode ser associada ao processo de extração da borracha nos seringais da região e a “doçura brasileira” aos inúmeros engenhos de açúcar que existiam e ainda existem (às vezes só em ruínas) em Magé.

A alegoria “Nos Trilhos da História” trazia à frente um trem e na parte de trás essa representação de um engenho de açúcar. (SRZD)
A última parte do samba inicia com um verso descritivo a respeito do fato de que Magé é parte de um dos roteiros do Caminho do Ouro (também chamado de Estrada Real) que ligava Minas Gerais à Paraty, no RJ, para escoar o ouro extraído nas minas para Portugal: “Caminho do nobre metal”, diz o samba.
Depois, em uma analogia poética, o samba faz referência à Revolta da Armada, movimento de rebelião da Marinha (que na época era chamada de Armada) que se inicia contra o Marechal Deodoro da Fonseca em 1891 quando ele decide fechar o Congresso e segue até 1893, já no governo do Marechal Floriano Peixoto. O samba fala em “Pavio de fogo e fé, da luta contra o marechal” e você pode estar se questionando: ué, mas a revolta da armada não resultou em um bombardeio feito por navios da marinha revoltosos contra a cidade do Rio de Janeiro? O que Magé tem a ver com isso? Bom, primeiro que esse evento aconteceu na Baía da Guanabara da qual Magé faz parte! Depois que as revoltas alcançaram efetivamente o Porto da Piedade e batalhas foram travadas em solo mageense.

Ritmistas da Bateria de Mestre Washington vestidos de oficiais da Marinha (Armada) em alusão à Revolta (SRZD)
O verso “Aos dribles na vida, Mané” é autoexplicativo. Faz referência ao mais ilustre mageense: Manoel Francisco dos Santos, o Mané Garrincha, nasceu em 28 de outubro de 1933 no bairro de Pau Grande, em Magé, onde um passarinho muito comum na região emprestou seu nome para apelidar um dos maiores gênios do futebol mundial. Já a “Folia de todos os reis” marca a tradição da festa popular que tem na cidade um bastião dessa cultura tendo três folias consideradas patrimônio cultural de Magé.
Os últimos dois versos antes do refrão retratam Heitor dos Prazeres ao dizerem “E o samba desabrochando em flor nas cores do pintor”. Ao mesmo tempo em que fazem a homenagem ao sambista, poeta e pintor, fio-condutor do enredo, os versos também citam sua vocação para o samba e para as telas que, em muitas ocasiões, retratavam o próprio samba em sua arte naïf.
Finalmente, o refrão principal encapsula essa diversidade cultural religiosa que constitui Magé. A pemba, a guia e a figa de guiné são artigos do universo místico religioso africano. O samba diz “Querem pemba, querem guia, Querem figa de guiné, Axé, Magé!” para responder a um questionamento do carnavalesco que se pergunta, ao final da sinopse do enredo, o que querem os moradores da baixada fluminense (especificalemte Belford Roxo e Magé)? Notadamente um local de grande concentração de terreiros, o samba então diz que eles querem a fé em uníssono: Axé!. A pemba é um giz feito de calcário usando para fazer marcações no chão do terreiro, enquanto as guias são colares ritualísticos que, por representarem o guia espiritual de cada religioso, recebem esse nome. Já a figa de guiné é uma peça popularizada por espantar o mau olhado. Ela é presente tanto em religiões de matriz africana, como em outras culturas estrangeiras.
Finalmente, o samba termina com os versos “Hoje a gira vai girar! Ê mojúbà, ê mojúbà”. A gira é o principal ritual da umbanda e pode ser considerado um momento de contato com os orixás. A combinação da gira com o verbo “girar”, popularizado primeiro nos anos 30 pelo Grupo Tupi em um ponto para Iansã também ganhou notoriedade com Zeca Pagodinho mais recentemente. De toda forma, a expressão “gira girar” pode ser entendida como uma acontecimento no contexto ritualístico: a gira girar poderia ser entendido como a gira (a reunião, o ritual) efetivamente acontecer (já que o giro, rodopio é um movimento comum nos rituais). O “mojubá”, como já vimos, é uma forma respeitosa de, nesse caso, encerrar o samba com uma saudação!
Se quiser me encontrar no Twitter para bater um papo sobre samba-enredo e carnaval, é só procurar por @videvieira.
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