MEUS 10 ANOS SEM DEUS
Por Guilherme Natividade
MEUS 10 ANOS SEM DEUS
Por Guilherme Natividade

Não texto *Como me descobri ateu, escrito e publicado por mim em janeiro de 2021, relato as breves experiências religiosas que tive ao longo da juventude e como foi a minha descoberta ateísta quando tinha entre 15 e 16 anos de idade. Este que fora o texto pioneiro, que deu início a uma série de produções textuais mensais, cumprindo com minha promessa pessoal e com minha meta de escrever um artigo por mês desde 2021, relatou a minha trajetória de vida até o ateísmo libertador e transformador. Agora, quatro anos mais tarde, neste presente texto, pretendo discorrer sobre a minha trajetória de vida dentro* da comunidade, do movimento e do ativismo ateísta brasileiro.
Neste ano de 2025, completam-se dez anos que me identifico socialmente como ateu. Mais do que isso: como um livre-pensador ateísta convicto e orgulhoso de minha ideologia, que tenho para mim como uma filosofia de vida. Passou-se uma longa década, onde adquiri diversas experiências no meio ateísta, através do ciberateísmo, e onde também pude compartilhar os meus conhecimentos, contribuindo diretamente para a fundação de uma nova onda neoateísta no Brasil. Agora, dez anos depois, chegou o momento de fazer uma retrospectiva pessoal e prestar contas à comunidade ateia brasileira quanto aos meus esforços para dar visibilidade ao ateísmo no nosso país.
Primeiramente, devo citar, em especial, a minha até então maior criação dentro do movimento ateísta brasileiro: a Aliança Ateísta. Esta comunidade digital, criada no dia 25 de dezembro de 2020 através de um perfil na rede social Instagram (@alianca.ateista), hoje conta com quase dois mil seguidores na plataforma, além de um grupo fechado e um canal de transmissão aberto no WhatsApp. No dia 23 de junho de 2024, redigi o Estatuto Social que rege essa comunidade virtual de natureza privada, recreativa, apartidária, sem fins lucrativos e constituída por tempo indeterminado, a fim de divulgar conteúdos para formação de militância e propaganda ateísta, bem como artigos, materiais informativos e notícias sobre ateísmo, secularismo e religião. A Aliança Ateísta tem sido um espaço onde posso divulgar e compartilhar materiais (livros, artigos, vídeos, pesquisas, ensaios, resenhas, eventos etc.) produzidos por ateus e ateias em todo o mundo, além dos textos por mim escritos mensalmente, desde janeiro de 2021, aqui na plataforma Medium, sobre as temáticas ateísmo, secularismo e laicidade.
Outro marco do meu ativismo secularista, em defesa do Estado laico no Brasil, foi a redação do Projeto Nacional de Secularização (PNS), que fora elaborado a partir de uma participação on-line coletiva que possibilitou o envio de sugestões de medidas que efetivem e consolidem a laicidade do Estado Brasileiro pela população. O artigo, publicado no dia 27 de março de 2023 em minha conta no Medium, conta com uma série de dispositivos que, aplicados na prática institucional, tornariam o Estado factualmente laico no país, fazendo-se cumprir o que está estabelecido na teoria constitucional republicana.
Mas não apenas de textos e artigos mensais publicados na plataforma Medium se resume o meu ativismo ateísta. No mês de maio de 2021, participei, enquanto pesquisado (Entrevistado 11), do Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Mestrado Profissional em Inovação na Comunicação de Interesse Público da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), “ATEUFOBIA: O desafio da comunicação de interesse público no combate ao preconceito e discriminação contra os ateus no Brasil”, desenvolvido por Edmar Luz de Almeida. Na oportunidade, concedi uma entrevista particular e exclusiva ao pesquisador, relatando os casos de ateofobia que sofri ao longo de minha juventude, de forma velada e marcada, principalmente, pela exclusão social. Esta pesquisa foi publicada em 2022 pela editora Helvetia Edições no livro *Ateufobia: aversão, desprezo e ódio contra os descrentes*, contendo nele um capítulo com meu nome e relato.¹
Além desta participação no meio acadêmico, meu ativismo ateísta também se encontra em materiais audiovisuais, disponíveis em alguns canais de amigos e camaradas e militância na plataforma YouTube. Por mais que a escrita seja o melhor meio de comunicação e expressão por mim já alcançado, pude aproveitar de alguns espaços que me foram concedidos para expressar minha identidade ateísta ativa/militante e meus posicionamentos. A primeira vez, no dia 24 de junho de 2023, foi no canal do Prof. Ricardo Russell, onde participei ao vivo do 10º Bate-Papo Ateísta, concedendo uma entrevista ao historiador Dr. Ricardo Oliveira da Silva. Posteriormente, no dia 03 de março de 2024, participei de uma conversa ateísta com a musicista Mariangela Campos e o poeta e fotógrafo Marcos Cavalcanti no canal da Mari Campos; o mesmo onde, junto com Mari, no dia 11 de fevereiro de 2024, entrevistei a Tia Ateia no quadro *Ateu, ateia, à toa não*. Por fim, no dia 24 de agosto de 2024, concedi uma nova entrevista, abordando o tema “O ateísmo é para chatos?”, no canal Ativistas Ateus do Brasil, de Marcos Cavalcanti.
Ao longo desses dez anos, muitas foram as minhas contribuições para o ativismo ateísta enquanto ateu militante. Nos anos de 2017 e 2018, por exemplo, ajudei a financiar, na condição de apoiador nível bronze, através da plataforma on-line Catarse, a impressão e a publicação da terceira e da quarta edição física da Revista Ateísta — projeto desenvolvido por Gabriel Filipe Rodrigues de Souza entre 2013 e 2018. Além disso, também apoiei e auxiliei várias páginas de cunho ateísta tanto no Facebook quanto no Instagram, compartilhando e divulgando seus conteúdos críticos e reflexivos.
No dia 26 de janeiro de 2018, muito antes de fundar a Aliança Ateísta, eu fiz a minha primeira tatuagem: um símbolo de representação do ateísmo, envolto do átomo científico, no lado esquerdo do peito, marcando para sempre na pele a minha ideologia. Ao final do mesmo ano, tornei-me associado contribuinte da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA). E, em 22 de março de 2022, me associei ao Movimento Brasil Laico (MBLaico), na categoria associado beneficiário, a fim de contribuir com a luta em prol da laicidade brasileira.
Parece pouco?! Mas ainda tem mais. A minha identidade ateísta também está materializada de maneira teórico-filosófica, a partir dos estudos independentes que realizo sobre a história do ateísmo no Brasil e no mundo. Está na leitura de livros e artigos, na visualização de vídeos educativos, na busca por materiais, na produção de conteúdos escritos, na formação de militância e no compartilhamento de propaganda de viés ateísta em todas as minhas redes e mídias sociais.
Por exemplo, entre os dias 29 de abril e 03 de junho de 2023, participei do I Curso de Extensão: Ateísmos, Descrenças Religiosas e Secularismo, realizado pelo Curso de História do Campus de Nova Andradina da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Na oportunidade, recebi uma certificação oficial de 30 horas pela conclusão da atividade de extensão, que contou com um total de seis aulas na modalidade virtual. Posteriormente, em 2024, participei de mais alguns cursos rápidos de formação sobre a história do ateísmo, obtendo igual certificação e carga horária complementar.
Do curso de extensão da UFMS, formou-se, ainda em 2023, um grupo de ativistas ateístas empenhados em fundar uma nova associação ateísta e agnóstica no Brasil e realizar um grande congresso nacional de ateísmo e laicidade no país. E eu componho este grupo, engajado e mobilizado para constituir uma nova onda neoateísta no país. Tanto é que, na noite do dia 09 de março de 2025, fui eleito, em Assembleia Geral, como primeiro secretário do Movimento Ateísta e Agnóstico Brasileiro (MAAB) — associação civil de direito privado, constituída por tempo indeterminado, sem fins lucrativos, de caráter organizacional, filantrópico, assistencial, promocional, recreativo e educacional, sem cunho político-partidário, com a finalidade de desenvolver atividades no campo da ordem social que busquem promover o Ateísmo, o Agnosticismo e a Laicidade do Estado Brasileiro.
Aliás, por falar em associação, no dia 15 de outubro de 2024, fiz uma solicitação oficial de apostasia perante a igreja católica onde fui indevidamente batizado quando ainda era criança. Através da Associação Ateísta do Planalto Central (APCE), preenchi e assinei um Termo de Solicitação de Apostasia, solicitando formalmente a anulação do meu registro de batismo, bem como a desvinculação do meu nome perante a Igreja Católica Apostólica Romana nos registros do Vaticano. Infelizmente, até então não obtive nenhum retorno da igreja, mas pretendo seguir insistindo na tentativa para que não ignorem minha renúncia formal ao cristianismo.
Outro exemplo que aqui exponho foi quando, em janeiro de 2024, denunciei a Prefeitura Municipal da minha cidade natal, Porto Alegre, após a cerimônia de diplomação dos(as) conselheiros(as) tutelares do município para a gestão 2024–2027 ter sido convocada para ocorrer dentro de um espaço privado pertencente a uma igreja evangélica. Por entender que o ato infringia o que está estabelecido no Artigo 19 da Constituição Federal de 1988, em seu Inciso I, ferindo a laicidade do poder público, fiz uma denúncia direta ao Ministério Público da COMARCA de Porto Alegre, a fim de que este órgão investigasse o caso. Contudo, em fevereiro do mesmo ano, recebi a notificação do arquivamento da denúncia pela Promotoria de Justiça da Infância e da Juventude de Porto Alegre, em razão da alteração do local da posse dos(as) conselheiros(as) tutelares pela Secretaria Municipal responsável, após a repercussão negativa da notícia que, na época, viralizou nos veículos de imprensa da região.
Mas há dois projetos que considero como os principais, até então. O primeiro deles, sem dúvidas, foi o meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Sociologia, requisito obrigatório para concluir a graduação de Bacharelado em Ciência Sociais e obter o título superior de cientista social. No dia 15 de janeiro de 2025, obtive aprovação, por conceito A, durante a defesa da pesquisa social que foi divulgada por mim através da Aliança Ateísta. Intitulado *Perfil e Identidade Ateísta: os sentidos contemporâneos do ateísmo no Brasil*, este projeto, orientado pelo Prof. Dr. Marcelo Kunrath Silva, teve como objetivo geral “analisar, de modo exploratório, os sentidos do ateísmo para a comunidade ateísta brasileira no século XXI”. Essa pesquisa social, que foi dedicada ao conjunto da comunidade ateísta brasileira e do movimento humanista secular e de livre-pensamento, está disponível, na íntegra, no Repositório Digital Lume da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Além deste trabalho, no dia 19 de março de 2025 (data do meu 26º aniversário) foi publicado o artigo de minha autoria, Visibilidade ateísta em vias Porto-Alegrenses, no volume 12 da Revista Tempo Amazônico, da Universidade Federal do Amapá, a partir do Dossiê: *Ateísmos na História*, organizado por Marcos Vinicius de Freitas Reis (UNIFAP) e Ricardo Oliveira da Silva (UFMS/CPNA) a partir de iniciativa do grupo de pesquisa Ateísmos, Descrenças Religiosas e Secularismos: histórias, tendências e comportamentos.
Enquanto isso, sigo com meus projetos e minhas idealizações pessoais. Pretendo seguir escrevendo e publicando ao menos um artigo por mês sobre ateísmo aqui na plataforma Medium, participando de mais cursos de extensão e formação sobre essa temática, e realizando leituras independentes sobre a história do ateísmo. A historiografia ateísta me desperta profundo interesse e me motiva a produzir novas pesquisas e adentrar em novos estudos na minha área de formação, adquirindo cada vez mais conhecimentos sobre um tema e um ativismo ao qual dedico parte da minha vida.
Além disso, também pretendo escrever e publicar um livro de autoria própria sobre o ateísmo. Tenho o desejo de deixar um registro a mais, além dos meus textos, dos meus artigos e da minha monografia. Sinto-me confiante para, com coragem e resistência, encarar mais algumas longas décadas de militância ateísta.
REFERÊNCIA
¹ LUZ, Edmar. Ateufobia: aversão, desprezo e ódio contra os descrentes. Cabo Frio-RJ: Helvetia Edições, 2022. p. 85–90.
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