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Obra de contenção do rio Pinheiros é adaptada para as capivaras

Quem passa diariamente pela marginal Pinheiros, zona oeste de São Paulo, já deve ter reparado o avanço de obras que trazem mais concreto…

André Derviche · 2024-01-06 15:29 · 0 claps · 4.3 min read
#rio-pinheiros #capivaras #biodiversidade #natureza #animais
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Obra de contenção do rio Pinheiros é adaptada para as capivaras

Quem passa diariamente pela marginal Pinheiros, zona oeste de São Paulo, já deve ter reparado o avanço de obras que trazem mais concreto para as margens do rio. A instalação dos gabiões, espécie de muro preenchido por pedras, ganhou fôlego nas últimas semanas com o crescimento da erosão do entorno que ameaça, inclusive, a ciclovia e as pistas da via. Mas a obra tem despertado também a atenção de biólogos e defensores de animais sobre os impactos da barreira.

A preocupação é que as espécies não tenham como acessar as margens. Uma em particular recebeu mais atenção: as capivaras. Elas precisam transitar entre água e terra principalmente para se alimentar.

O Projeto Capa (Centro de Apoio e Proteção Animal da Ciclovia Rio Pinheiros) se mobilizou para reivindicar adaptações no projeto. Assim que soube que a obra seria realizada, Mariana Aidar, presidente do projeto, afirma ter entrado em contato com o governo do estado de São Paulo, responsável pela intervenção. Sabendo que os muros do rio Pinheiros atrapalhariam a circulação das capivaras, ela pediu que fossem implementadas rampas de acesso.

As estruturas, que estavam fora do projeto original, entraram no planejamento do Daee (Departamento de Águas e Energia Elétrica), órgão do governo do estado responsável pela obra, em agosto de 2022, após o início da intervenção. Foram construídas até agora, nos 11 quilômetros de reconstituição das margens, 17 rampas de acesso. Outras 44 ainda estão em execução. A ideia é que as capivaras consigam sair do rio e subir nas margens para se alimentar sem grandes problemas.

"Existia uma falha quando a licitação [da obra] foi feita, porque tinha que ter contemplado [as capivaras], mas eles nos ouviram e tomaram providências. Pelos animais, eu vou até a Lua, se precisar", Mariana Aidar, presidente do Projeto Capa

Segundo o monitoramento do Projeto Capa, há 120 capivaras na extensão do rio Pinheiros. Elas se alimentam, principalmente, de grama, mas agradecem quando os cuidadores trazem cana ou folha de bananeira em ações pontuais. Pensando na alimentação das capivaras, um outro pedido do Projeto Capa foi o replantio da grama após o término das obras.

Polêmicas na obra de contenção

Os 11 quilômetros de reconstituição das margens finalizados até agora fazem parte do programa “Novo Rio Pinheiros”, iniciado em 2019. A iniciativa é do Daee, órgão da Semil (Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística), do governo do estado. A SVMA (Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente) e a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) também participam da ação.

Segundo o Daee, a obra se estenderá por 23,3 quilômetros, desde a foz do Rio Pinheiros no Rio Tietê até o desemboque do Canal do Guarapiranga. A proteção não atinge as duas margens do rio em toda a extensão.

Em nota, a Semil informou que a obra “faz parte dos serviços de limpeza e desassoreamento, obras de contenção de processos erosivos e urbanização, que têm por objetivo a revitalização deste importante símbolo da cidade de São Paulo”.

O trânsito das capivaras, no entanto, não foi o único alerta feito por especialistas em relação à obra. Paulo Pellegrino, vice-coordenador do LabVerde da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da USP, explica que um muro entre o ambiente terrestre e aquático pode ser um problema: “Essas interações entre os ambientes da margem e da água precisam acontecer para que as espécies tenham condições de existir naquele lugar. Você perde a capacidade de o rio manter essas espécies animais”.

O professor Pellegrino também indica que a obra elimina as condições de infiltração que o solo e a vegetação dão para a água do rio e prejudica o fluxo de nutrientes. “Todo o ecossistema ribeirinho, das espécies animais e vegetais do rio, precisa ter interação entre água e o terreno da vegetação, entre o espaço terrestre e aquático. Ali, você está impedindo essa relação”, explica.

Muro permeável nas margens do Pinheiros

Para contornar esse problema, o muro de contenção do rio Pinheiros foi feito com uma pedra especial “permeável”. A ideia é que, ao longo do tempo, a vegetação volte a crescer por entre os pedregulhos e, assim, interagir com o rio. A estrutura é diferente do que existe no rio Tietê, onde a contenção da margem foi feita com concreto e pouco espaço para área verde.

Procurada, a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) informou que a obra no Pinheiros entra na categoria de atividade de manutenção do rio e, portanto, não necessitou de EIA-RIMA, nome dado ao estudo de impacto ambiental de obras.

Para Mariana Aidar, a obra é um “mal necessário”: “É óbvio que não é o ideal, mas sabemos que precisa. Em dia de muita chuva, isso aqui desbarrancava. Já que tem que fazer, vamos adaptar. E os próprios animais se adaptam.”

Proteção contra a erosão do rio Pinheiros

Apesar dos pontos negativos, especialistas concordam que o estado do rio Pinheiros demanda intervenções. Nesse contexto, os muros servem para conter a erosão das margens do rio, o que garante estabilidade ao solo e evita deslizamentos de terra, principalmente em períodos de chuva. Além disso, o muro pode inibir o lançamento de dejetos no rio, um problema histórico do Pinheiros.

"É uma obra necessária, porque as margens dos rios estão desbarrancando e chegando até a ciclovia. Está perigoso. Tentamos fazer de uma maneira que cause o menor impacto possível na vida dos animais", Mayara Oliveira, bióloga do Projeto Capa

José Carlos Mierzwa, professor da Escola Politécnica da USP, também aponta aspectos positivos na intervenção: “Esse muro ajuda, porque evita o desbarrancamento das margens, que afetaria as marginais dos dois lados. Qualquer estrutura próxima poderia ser afetada”. Vale lembrar que as margens do rio Pinheiros abrigam ciclovias e trechos do monotrilho.

Para o professor Mierzwa, um outro caminho que poderia existir seria a revitalização total das margens do rio, o que exige a retirada da infraestrutura da marginal. “Mas, se considerar o rio Pinheiros e todo o desenvolvimento do seu entorno, seria bastante oneroso fazer isso”, ele pontua.

As intervenções no rio Pinheiros começaram a ser feitas nas primeiras décadas do século 20, quando o curso foi retificado. Por meio da construção de canais retilíneos, rios como o Pinheiros perderam suas curvas e meandros e tiveram suas várzeas ocupadas.

Além da recuperação das águas, o projeto Novo Rio Pinheiros também visa a exploração comercial do local. Ciclistas e outros visitantes do Parque Bruno Covas encontram uma séria de comércios por ali.

Em nota, a Semil informou que o processo de recuperação total das margens, ao longo de toda extensão do canal, tem prazo de conclusão para primeiro semestre de 2024. Já foram retirados 833.342 m³ de sedimentos por meio do desassoreamento, o que equivale a mais de 30 mil caminhões basculantes.


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