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A origem do ódio

Uma breve reflexão sobre um sentimento que permeia a sociedade hoje em dia: o ódio, onde busco entender sua origem e como ele ocorre.

Gabriel Ribeiro · 2026-04-29 16:21 · 1 claps · 4.4 min read
#filosofia #sociedade #culpa #ódio
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Wiki topics: 🔒 · Cybersecurity

A origem do ódio

Nos últimos dias estive pensando incessantemente sobre o ódio e a origem dele.

Para mim, desde que me entendo por gente, sempre vi o ódio como um dos sentimentos mais sombrios e, desde o momento em que atingi a mínima consciência sobre o que é a vida e quem eu era — sim, era, pois eu já não sou mais quem eu fui naquele momento — eu sempre evitei sentimentos sombrios.

Não sei o porquê, mas desde então eu me sinto muito desconfortável quando eu me deparo com esse sentimento. Honestamente, eu nunca entendi muito bem o motivo, e foi por isso que decidi tentar entender o que é o ódio.

Ao começar a refletir sobre o ódio, eu entendi que eu não queria responder essa pergunta especificamente, até porque é muito difícil definir um sentimento, então eu entendi que meu objetivo era entender a origem do ódio exclusivamente.

Vale mencionar que na minha reflexão, estou apenas me referindo ao ódio puro (ou melhor, o ódio ontológico), isto é, o ódio como um sentimento puro, distanciando-o da suas formas de expressões como a raiva e outros sentimentos baseados no ódio ontológico, como a frustração e a ira.

Sócrates foi um grande norteador nessa jornada. Para mim, a concepção que ele formulou sobre o ódio foi a que mais se aproximou do que eu sempre senti em relação a ele, embora nunca havia conseguido encontrar o significado desse sentimento. Segundo ele, o ódio, assim como o mal, é fruto da ignorância, simples assim.

Foi a partir dessa definição que entendi que o ódio está ligado à ausência da verdade.

um pouco mais a frente é possível observar que Harari (Nexus, 2024) foi muito importante para essa conclusão.

Continuando, o principal motivo que me trouxe até aqui, foi ler a tese de Sócrates sobre o intelectualismo moral, que, de maneira resumida, consiste no momento em que um indivíduo toma uma ação eticamente incorreta. Sob essa perspectiva, ao contrário do que muita gente pensa, Sócrates acredita que a culpa dessa tomada de decisão errônea não seria do próprio indivíduo, mas sim do fato de ele não ter consciência da verdade (REFERÊNCIA).

Para ser sincero, quando eu li essa afirmação eu senti um leve conforto, pois sempre assumi isso para mim, mas a partir daquele momento, eu tinha uma base sólida vinda de um dos maiores pensadores da história.

Contudo, o conforto durou pouco, tendo em vista as provocações que me vieram à cabeça, provocações essas comumente feitas por familiares, amigos e conhecidos.

A primeira objeção e mais comum à minha hipótese de que as pessoas eram ruins, mas não tinham culpa de serem assim — baseia-se na ideia de que o discernimento entre o certo e o errado é universal. Segundo essa visão, o erro é sempre uma escolha consciente e, portanto, gera culpa.

Entretanto, conforme já apresentei meu primeiro fundamento, Sócrates refuta esse argumento ao discutir o intelectualismo moral, compreendendo que as decisões erradas estão atreladas à ignorância. Agora conectando um pouco esse argumento com a minha reflexão, a tomada de decisão errada está intrinsicamente ligada ao ódio, não que estejam relacionadas, e que uma é causa da outra, mas é possível entender, a partir dessa tese, que o ódio, assim como as decisões errôneas, são baseadas em uma realidade distorcida, na inconsciência da verdade.

Adicionalmente, no âmbito do sentimento, eu entendi que o ódio ontológico precisa de uma distorção, ou seja, uma mentira ou estória para existir. Nesse sentido, para que o ódio puro exista, o indivíduo precisa acreditar que o objeto (algo ou alguém) é “mal por natureza” ou “inferior por essência”. Contudo, a verdade desmente essas afirmações, já que para que sustentar essas ideias é preciso ignorar a causalidade.

Confesso que no momento em que comecei a me aprofundar nesse tema eu tive uma grande vontade de desistir, pois o tema demandava muito tempo para a compreensão, tendo em vista a sua complexidade e os materiais quase que impossíveis de entender.

Enfim, até agora, a conclusão sobre a origem do ódio é que ele só existe devido a inconsciência da realidade e, além disso, ele só se sustenta através da distorção da verdade, bem como quando a causalidade é ignorada.

A partir disso, devemos entender o conceito de causalidade. Segundo Aristóteles, a causalidade baseia-se em variáveis, que no fim estão imbricadas, ou seja, entrelaçadas. Para ele, a causalidade consiste no contexto em que algo ou alguém está inserido, mas que elas só fazem sentido por conta do imbricamento — entrelaçamento entre a finalidade, a forma e a causa.

A fim de deixar mais claro, eu trouxe um trecho de um trabalho de Luís Oliva, professor de filosofia da USP. Em sua obra ‘ Causalidade e necessidade na ontologia de Espinosa’ (2016), o autor comenta:

“Tal imbricamento dos tipos de causa sob o comando da causa final fará com que uma crítica radical da finalidade implique uma revisão da concepção de causa em geral”.

Em outras palavras, Oliva nos mostra que se mudarmos nossa visão sobre a finalidade de algo, toda a nossa compreensão sobre o porquê de aquilo existir também muda. A partir dessa análise, é possível observar como Oliva compreende a finalidade como o pilar central que apoia o conceito de causalidade. Assim, a causalidade pode ser resumida em um processo de causa e efeito, abrangendo a biologia, a história, os traumas e até mesmo o ambiente, isto é, abrange o contexto como um todo. Sob essa ótica, concluo que a verdade de alguém ou algo está relacionada ao contexto que o tornou naquilo que esse algo ou alguém é. Quando compreendemos esse contexto, o ódio se transforma em contestação, isso significa que podemos até nos opor, mas não é mais possível odiar o objeto, pois entendemos que ele é apenas o resultado de variáveis. Na verdade, até é possível odiar o objeto quando se compreende o contexto, contudo isso só é possível quando ele é ignorado.

Gostaria de complementar, caso não tenha ficado tão claro, que quando eu me refiro à contestação, meu objetivo é esclarecer que quando é atingida a consciência nós deixamos de lutar contra o ódio a algo ou alguém e passamos a lutar contra as causas que moldaram eles.

Como havia mencionado antes, a verdade a qual me refiro é aquela apresentada por Yuval Harari. De acordo com Harari (2024) a verdade, de maneira resumida, consiste em uma tentativa de representação da realidade. Para isso, é preciso que haja um conjunto de informações suficientes para que seja possível representar a realidade desejada.

O ódio que permeia a sociedade está relacionado à ausência da verdade. Enquanto o ódio existir, saberemos que a verdade não está sendo apropriada, seja consciente ou inconscientemente.

Nota final: a fim de fechar as portas para possíveis má interpretações, compreender a causalidade não significa aceitar o comportamento. Na verdade, quando eu entendo o contexto, eu adquiro a ferramenta necessária para interromper o ciclo de uma maneira mais eficaz.


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