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King Kong (1933) — Quando o filme enfrenta o espectador

Nas minhas experiências mais recentes com filmes - artes, no geral -, não fui enfrentado tão diretamente há tempos.

Lucas · 2025-10-22 22:44 · 52 claps · 4.4 min read
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King Kong (1933) — Quando o filme enfrenta o espectador

Nas minhas experiências mais recentes com filmes - artes, no geral -, não fui enfrentado tão diretamente há tempos. Veja, o filme não lida com nada explicitamente polêmico ou prejudicial, não enfrenta os valores morais dos espectadores como um ero-guro, uma chanchada, por exemplo. Porém, fui confrontado de uma maneira sublime e, ao mesmo tempo, direta. A primeira metade do filme é um pouco sonsa, mas paralelamente sincera (levando em consideração o que o filme virá a ser posteriormente), ao passo que os diretores E. Schoedsack e M. Cooper nos mostram um enredo comum. O não-tão-renomado diretor Carl Denham planeja viajar para uma localidade misteriosa para realizar o que seria a sua magnum opus, porém para isso ele precisaria de uma donzela para ser sua atriz principal.

Como havia dito, nada demais até o presente momento. Contudo, ao decorrer das cenas, mais precisamente quando já estão todos embarcados, chega o momento da minha cena favorita do filme: Denham com sua câmera filma Ann Darrow (a donzela) e dá uma dupla vida à atuação e câmera. Nós vemos através da lente dele, o que já veríamos normalmente, mas com essa escolha, nós somos guiados a focar no ensaiamento e, consequentemente na atuação da duplamente musa, Ann Darrow (Far Wray). Nesse momento, um pouco antes do acontecimento principal do filme, a chegada na Ilha da Caveira, me encontro perdidamente interessado pelo filme e o que mais ele poderia me apresentar. Isso porque a semiótica do ensaio dramatúrgico apresentado anteriormente, que liga um fio de encenação ao medo absoluto visto na presença do Kong, era imbatível.

Porém, no momento mais basilar do filme, o de chegada, eu percebo que no mínimo fui feito de trouxa. Isso porque o filme a partir daquele momento não era nada mais, nada menos que propaganda. Não falo isso da boca pra fora (como queria que fosse), é nítido a mensagem de superioridade que os EUA quer passar a partir desse ponto; na verdade, é na composição do grupo de tripulantes. Um dos personagens mais icônicos do filme, se encontra em forma de caricatura: um homem de meia idade chinês, que fala errado, é cozinheiro - o que faz com que ele não participe efetivamente das “missões” - e marginalizado. Fora isso, todo momento de contato entre a tribo local e os tripulantes, é clara a existência de um viés colonizador, que vem do olhar arredio e o tratamento grosseiro, numa lida de como se fossem animais. Não querendo apontar efetivamente o intuito de algo, mas vale a curiosidade que todos na tribo são pessoas pretas e, obviamente, não há um preto na tripulação.

A partir daqui, saindo um pouco desse exercício lógico de falta de tato ou ao menos historicização, aparece a verdadeira grande estrela e vítima do filme: Kong. Quero partir em defesa de que “não estava familiar com seu jogo…”, porque se tem uma coisa que funciona, e funciona muito bem nesse filme, é uso de stop-motion para movimentar as grandes bestas (dinossauros, cobras e o saudoso gorila). Com isso, me veio na memória todas as boas lembranças que tenho com os filmes de Daikaiju e como seriam se fossem feitos a partir dessa técnica. No mais, fiquei criando inúmeras conjecturas, teorias, mas em nenhum momento peguei pra ler sobre, ao menos pesquisar…

Depois de toda a trama na ilha - da qual eu vejo valor, mas não me interessa falar aqui - mais ou menos ali do meio pro final do filme, tudo fica mais escrachado. Após a derrota de Kong, Denham decide capturá-lo, pois isso geraria imensos lucros pra ele e sua equipe. Aqui, para mim, há uma clara mensagem de superioridade americana. O ato colonizador, racista, é transposto através da câmera para um dos momentos mais frágeis dos EUA (Crise de 29). Não quero ficar catando “pelo em ovo” ou “vendo coisa aonde não tem”; o filme, assim como fez antes, mas agora muito sucinta e discretamente, nos guia.

Logo após, nos últimos 20 minutos, a merda toda é jogada no ventilador. O que antes parecia ser um indício, uma dúvida, vira fato. A plateia que vê o Kong acorrentado, não tão ingênua quanto os espectadores, é sintoma e agravante direto da capitalização de uma cultura importada e racismo. O Kong não é dali, não pertence aos EUA, muito menos é um espetáculo ambulante, mas a curiosidade do novo é interceptada pelo capital, mais uma vez.

No fim, não vou apontar o dedo falando o que é e o que não é, são coincidências demais que acabaram por despertar uma dúvida, que não é novidade pra mim e muito menos pra humanidade: mesmo vendo, conjecturando e entendendo esses problemas, é um problema eu gostar disso? No mais, não. Não que seja o caso dos exemplos que citei anteriormente aqui, mas a situação aqui é clara; se trata de uma obra de seu tempo, de seu contexto socio-cultural e do homem como fruto de seu tempo. Por fim (de novo), os EUA venceu dessa vez, infelizmente. Gostei MUITO do filme.


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