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Teletransporte quântico, ficção ou realidade?

1. Introdução

Instituto de Ciência e Tecnologia Itaú · 2025-09-11 18:01 · 2 claps · 9.5 min read
#quantum-computing #teletransporte #comunicação #redes #network
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Wiki topics: ⚛️ · Physics

Teletransporte quântico, ficção ou realidade?

1. Introdução

Em alguns episódios da famosa série de TV Star Trek, o conceito de teletransporte foi utilizado e explorado para o desenvolvimento da narrativa. A tripulação da USS Enterprise, com personagens icônicos como Spock e Kirk, utilizava a sala de teletransporte da nave para se deslocar a outros lugares.

Legenda: McCoy, Kirk and Spock na sala de teletransporte.

Legenda: McCoy, Kirk and Spock na sala de teletransporte.

No programa de TV, o teletransporte era realizado por meio de um processo chamado de “desmaterialização”, que convertia uma pessoa ou um objeto em um padrão de energia e o enviava para o novo local, onde este era novamente convertido em matéria, processo conhecido como “rematerialização”. Esse tipo de teletransporte, explorado na série, não é possível na realidade e suscita um paradoxo discutido na Grécia antiga: o famoso navio de Teseu. Resumidamente, esse paradoxo questiona se um objeto pode ser considerado o mesmo quando todos os seus componentes originais são substituídos ao longo do tempo. Essa reflexão se conecta ao teletransporte da série Star Trek, já que a pessoa ou objeto teletransportado seria reconstruído em uma nova localização.

Por mais interessante que seja a tecnologia apresentada na série, que nos permitiria evitar longos voos para viajar a outros países, infelizmente ela não passa de ficção científica. Entretanto, as propriedades peculiares da mecânica quântica nos permitem realizar o teletransporte de informação por meio de um protocolo de comunicação conhecido como teletransporte quântico.

Atualmente, diversos países têm investido em pesquisas em comunicação quântica, visando maior segurança em suas comunicações e outros objetivos. Parte dessas pesquisas envolve o uso do teletransporte quântico. Por exemplo: na China, está sendo desenvolvido um sistema de teletransporte quântico utilizando satélites; nos Estados Unidos, a Northwestern University demonstrou a viabilidade do teletransporte quântico em cabos de fibra ótica, atualmente responsáveis pelo tráfego de internet; Nos Países Baixos, a Delft University of Technology tem desenvolvido uma rede quântica que utiliza o teletransporte quântico; e, no Brasil, a Rede Rio Quântica é um projeto que busca criar a primeira rede de internet quântica do país, conectando a UFF, o CBPF, a UFRJ, a PUC-Rio e o IME.

O teletransporte quântico é um recurso essencial para a internet quântica, como destacado no artigo da Polytechnique insights. A Samuraí Brito, Head de Computação Quântica no ICTi, possui uma série de trabalhos importantes e relevantes sobre o tema. Na vertente técnica, destacam-se: “*Statistical Properties of the Quantum Internet” e “[Satellite-Based Photonic Quantum Networks Are Small-World](https://journals.aps.org/prxquantum/pdf/10.1103/PRXQuantum.2.010304)*”. O primeiro descreve as propriedades estatísticas da internet quântica, propondo um modelo baseado nas fibras óticas atuais. O segundo analisa redes baseadas em satélites e compara seu desempenho com as fibras óticas, evidenciando que nós fisicamente distantes podem estar próximos quando observados sob a perspectiva de redes. Já na divulgação científica, destacamos os artigos: “Internet quântica: A construção da rede do futuro já começou” e “Internet Quântica: Mito, fake ou ciência?”.

Respondendo à pergunta do título desse artigo: sim, o teletransporte é uma realidade, embora não nos moldes apresentados em Star Trek, mas por meio do emaranhamento quântico combinado com comunicação clássica. Com esse contexto inicial, a missão das próximas seções deste artigo é explicar como o teletransporte quântico funciona e demonstrar como realiza-lo utilizando Python em um computador quântico na IBM Quantum Platform.

2. Teletransporte quântico

A mecânica quântica apresenta propriedades exóticas, completamente contraintuitivas para a realidade da Física clássica que vivenciamos no cotidiano. Por exemplo, no dia a dia não vemos objetos em superposição, com certa probabilidade de estarem em uma configuração x ou y. Portanto, se você acha essas ideias confusas, saiba que não está só: o próprio Einstein demonstrava incômodo com a natureza probabilística da Física Quântica ao afirmar que “Deus não joga dados com o universo”. Até Richard Feynman comentou que “se você acha que entende de mecânica quântica, então não entende”, referindo-se ao fato de que a teoria envolve conceitos que desafiam nossa intuição baseada na Física Clássica. Sendo assim, “Don’t panic!” 🤓, nós vamos descomplicar esses conceitos.

· Emaranhamento quântico: A ação fantasmagórica a distância

Em 1935, Einstein, Podolsky e Rosen publicaram o artigo intitulado “Can Quantum-Mechanical Description of Physical Reality Be Considered Complete?”, que posteriormente ficou conhecido como o paradoxo EPR. Nesse trabalho, os autores argumentaram que a mecânica quântica fornecia uma descrição incompleta da realidade, expressando o incômodo de Einstein com as previsões da teoria. A relação de Einstein com a Física quântica é curiosa: em vários momentos, ele entrou em conflito com as previsões da teoria, mas, ao mesmo tempo, seu estudo sobre o efeito fotoelétrico foi fundamental para o desenvolvimento incial da Física quântica.

No artigo, os autores argumentavam que os estados emaranhados pareciam sugerir a transmissão de informação a uma velocidade superior à da luz, o que violaria um dos princípios da relatividade restrita. Esse suposto “efeito colateral” do emaranhamento ficou conhecido como “ação fantasmagórica à distância”, indicando que, no momento em que uma das partes do estado emaranhado colapsa para um dos estados possíveis, a outra parte também colapsaria instantaneamente para o estado correspondente.

Os estados de Bell são um exemplo clássico de estados emaranhados. Por esse motivo, Einstein, Podolsky e Rosen consideravam que a mecânica quântica fornecia uma descrição incompleta da realidade, sugerindo a existência de variáveis ocultas que poderiam resolver esse aparente problema da teoria. Contudo, em 1964, o físico John Stewart Bell publicou um artigo “On the Einstein Podolsky Rosen Paradox”, demonstrando que a interpretação baseada em variáveis ocultas era incompatível com as previsões da mecânica quântica. Esse resultado foi posteriormente confirmado por diversos experimentos. As implicações teóricas e filosóficas do trabalho de Bell são profundas e vão além do escopo deste artigo, mas para se ter uma ideia da importância desse debate para a Física, o Prêmio Nobel de Física de 2022 foi concedido a Alain Aspect, John Clauser e Anton Zeilinger por experimentos que demonstraram a violação da desigualdade de Bell, confirmando que a mecânica quântica permite a existência de estados emaranhados — recursos essenciais hoje para áreas como computação quântica e redes quânticas.

· Passo a passo do protocolo de teletransporte quântico

Para explicar como funciona o teletransporte quântico, vamos considerar dois personagens: a Alice e o Bob. Inicialmente, ambos possuem um qubit e decidem ir a um laboratório para permitir que seus qubits interajam e formem um estado emaranhado. Após ver um anúncio de uma viagem para outra galáxia, Alice se despede de Bob e leva seu qubit consigo. Chegando a nova galáxia, Alice “encontra” um novo qubit e deseja enviá-lo para que Bob possa estudá-lo no laboratório. Contudo, surge um dilema: se Alice medir o qubit, ela destruirá a informação quântica e perderá o estado que deseja enviar a Bob.

Diante desse cenário, Alice se lembrou das aulas do curso de informação quântica e de que compartilhava um estado emaranhado com Bob. Relendo suas notas, ela se deparou com o protocolo de teletransporte quântico e decidiu colocá-lo em prática. Com seu qubit emaranhado com o de Bob e o qubit que encontrou, Alice realizou uma medida de Bell nos dois qubits que estão em sua posse e anotou o resultado. Segundo os seus estudos, dependendo do resultado da medição, ela deveria informar Bob sobre as operações que ele precisará aplicar no qubit dele para recuperar o estado teletransportado. Ela seguiu o seguinte mapa: se medir 00, Bob não precisa fazer nenhuma operação; se medir 01, Bob deve aplicar uma porta X; se medir 10, a porta Z; e se medir 11, deve aplicar uma porta X seguida da porta Z.

É importante notar que, para completar o teletransporte quântico, Alice precisa transmitir dois bits para Bob por meio de um canal de comunicação clássico. Sem essa informação, os resultados de Bob seriam completamente aleatórios, e ele não teria recursos para reconstruir o estado teletransportado. Dessa forma, o teletransporte quântico não envolve envio de informações mais rápido que a velocidade da luz, ou seja, o princípio da relatividade restrita, que estabelece a velocidade da luz como velocidade limite no universo, não é quebrado. Além disso, o teorema da não clonagem também não é infringido, já que as operações realizadas nos qubits de Alice não criam uma cópia do estado original. Em resumo, tudo está coerente do ponto de vista da Física, e podemos resumir o teletransporte quântico no seguinte conjunto de passos:

o Passo 1: os qubits de Alice e Bob interagem para gerar um estado emaranhado (Hadamard + CNOT).

o Passo 2: Alice prepara o estado quântico que deseja teletransportar.

o Passo 3: Alice aplica uma medida de Bell em seus qubits (CNOT + Hadamard).

o Passo 4: Alice mede seus qubits e armazena o resultado em bits clássicos.

o Passo 5: Alice utiliza um canal de comunicação clássica para transmitir os bits para Bob, informando quais operações ele deve aplicar dado o resultado da medição. Com essas instruções (aplicando as portas X e Z condicionadas a resultados nos bits clássicos), Bob recupera o estado quântico que Alice queria teletransportar.

Os passos acima descritos podem ser implementados pelo seguinte circuito quântico:

Circuito quântico que implementa o teletransporte quântico que teletransporta o estado quântico definido pela aplicação da porta

(75% de probabilidade de medir o qubit no estado 0 e 25% de probabilidade de medir no estado 1).

Para auxiliar na visualização e no entendimento do teletransporte quântico, deixamos vários materiais nas referências e a plataforma Quantum Flytrap, onde há um experimento iterativo que implementa e explica o teletransporte quântico. Para os leitores que quiserem se aprofundar na Matemática e na Física, por trás do teletransporte quântico, também deixamos materiais nas referências.

Ilustração do teletransporte quântica na plataforma Quantum Flytrap.

Ilustração do teletransporte quântica na plataforma Quantum Flytrap.

No site da Quantum Network Explorer, há uma simulação mostrando como seria o teletransporte quântico entre duas cidades nos Países Baixos:

Ilustração de experimento na plataforma Quantum Network Explorer criada pela QuTech.

Ilustração de experimento na plataforma Quantum Network Explorer criada pela QuTech.

Em seu Medium, Samuraí Brito publicou um post que resume e explica, passo a passo, o protocolo de teletransporte quântico. Recomendamos também os vídeos abaixo, que tratam o tema de forma didática: **Como Teletransportar o Gato de Schrödinger e Quantum Teleportation Demystified with a Quantum Computer | Paradoxes Ep. 08.**

· Teletransporte quântico utilizando o Qiskit

Agora que entendemos um pouco sobre o emaranhamento e como ele pode ser usado para realizar o teletransporte quântico, vamos implementar o protocolo com Qiskit e executá-lo em uma QPU pela IBM Quantum Platform. Para isso:

  1. Crie uma conta na plataforma (a criação da conta é gratuita e você também ganha 10 minutos, de acesso gratuito as QPUs, por mês).

  2. Instale o Python em sua máquina, se ainda não o tiver.

  3. Uma vez instalado, você deve criar um ambiente virtual python (python -m venv env) e instalar os seguintes pacotes: numpy, qiskit, qiskit-aer e qiskit-ibm-runtime (pip install numpy qiskit qiskit-aer qiskit-ibm-rutime). Conforme as telas abaixo:

o Importando os pacotes:

o Inicializando a conexão com a IBM Quantum Platform, o simulador e conectando com a QPU escolhida:

o Criando o circuito mencionado na seção anterior:

o Simulando o circuito quântico e recuperando o resultado:

o Transpilando o circuito, executando o circuito quântico na QPU e recuperando o resultado:

o Comparativo do resultado simulado versus QPU:

3. Conclusão

É incrível perceber que estamos em uma era em que, com apenas algumas linhas de código e acesso a computadores quânticos via cloud, já podemos realizar experimentos de teletransporte quântico que antigamente só eram possíveis em laboratórios de universidades e centros de pesquisa com equipamentos complexos.

Além disso, vimos como conceitos até então teóricos da mecânica quântica começam a se materializar em tecnologias que, no futuro, tornarão nossas redes de comunicação mais seguras.

Esperamos que a leitura desse artigo tenha sido proveitosa e que tenha ajudado a entender o teletransporte quântico e a sua relevância para as redes de comunicação quântica.

Vida longa e próspera! 🖖

Referências

  1. Livro Quantum Computation and Quantum Information — Michael A. Nielsen and Isaac L. Chuang

  2. Teleporting an unknown quantum state via dual classical and Einstein-Podolsky-Rosen channels — Charles H. Bennett, Gilles Brassard, Claude Crépeau, Richard Josza, Asher Peres and William K. Wootters

  3. Quantum Milestones, 1993: Teleportation Is Not Science Fiction

  4. Statistical Properties of the Quantum Internet

  5. Satellite-Based Photonic Quantum Networks Are Small-World

  6. Internet Quântica: Mito, fake ou ciência?

  7. Internet quântica: A construção da rede do futuro já começou

  8. O teletransporte é possível?

  9. Entanglement in Action | Understanding Quantum Information & Computation | Lesson 04

  10. Como o teletransporte quântico realmente funciona

  11. Quantum Teleportation Demystified with a Quantum Computer | Paradoxes Ep. 08

  12. Artigo Wikipedia Quantum Teleportation

  13. QuEra Glossary Quantum Teleportation

  14. Why Did Quantum Entanglement Win the Nobel Prize in Physics?

  15. Como Teletransportar o Gato de Schrödinger

  16. Quantum magazine — What is Quantum Teleportation?

  17. Pennylane tutorial — Quantum Teleportation

  18. Quantum Flytrap — Quantum Teleportation

  19. Quantum Network Explorer

  20. Quantum Teleportation Protocol using Qiskit — Medium Samuraí Brito

  21. Computação Quântica e Teoria Quântica de Correção de Erros — José Victor Soares Scursulim

**José Victor **é analista de computação quântica no ICTi, mestre em Física, Qiskit Advocate e astrofotógrafo amador nas horas vagas.


메타데이터
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