Avaliar habitando a encruzilhada
A leitura de Pedagogia das Encruzilhadas, de Luiz Rufino, muito nos ajuda a pensar avaliações no Brasil, especialmente quando buscamos…
Avaliar habitando a encruzilhada

A leitura de Pedagogia das Encruzilhadas, de Luiz Rufino, muito nos ajuda a pensar avaliações no Brasil, especialmente quando buscamos caminhos comprometidos com perspectivas antirracistas e decoloniais. Ao afirmar a indissociabilidade entre ser e saber, e ao reconhecer o conhecimento como algo que corre o mundo e se inscreve nos corpos, o texto nos provoca a revisar práticas avaliativas que ainda operam na lógica da neutralidade e do distanciamento. Em uma perspectiva antirracista e decolonial, avaliar passa a ser menos sobre medir e mais sobre escutar, reconhecer e sustentar a complexidade das experiências no cruzo da vida.
A ideia de “carrego colonial” ajuda a nomear aquilo que muitas vezes aparece de forma difusa nos processos avaliativos, isto é, assimetrias de poder, hierarquias de saber e critérios que reproduzem exclusões. Avaliações antirracistas e decoloniais tornam visíveis esses aspectos e trabalham ativamente para expurgá-lo. Isso implica revisar perguntas, indicadores e métodos, reconhecendo que nem tudo que importa cabe em métricas tradicionais e que há saberes que circulam fora dos regimes hegemônicos de validação.
Ao trazer Èsù como movimento e possibilidade, o texto oferece uma chave importante na qual avaliar é habitar a encruzilhada em um espaço de múltiplos caminhos, onde diferentes perspectivas se encontram, tensionam e criam novos sentidos. Isso se traduz em processos avaliativos mais dialógicos, que valorizam a pluralidade de vozes e reconhecem que o conhecimento emerge do encontro, e não apenas da aplicação de instrumentos.
Se o conhecimento é encarnado, a avaliação não pode prescindir do corpo, da história e da posição de quem avalia e de quem é avaliado(a). Incorporar essa dimensão é fundamental para enfrentar o epistemicídio, a objetividade, a neutralidade e o distanciamento. Avaliar de forma decolonial exige, portanto, assumir posicionamentos e perspectivas pessoais, explicitando trajetórias e como elas moldam olhares.
Ao afirmar a necessidade de inventar novos seres e novos mundos, o texto dialoga diretamente com o potencial transformador da avaliação. A avaliação pode ser um espaço de criação de futuros, de fortalecimento de práticas mais justas e de ampliação de possibilidades. Quando orientada por princípios antirracistas e decoloniais, que demandam grandes esforços na prática, ela deixa de ser apenas um instrumento de controle e passa a ser uma prática de cuidado, de aprendizagem e de reimaginação de novos possíveis no campo social.
메타데이터
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