segunda etapa
as desilusões que enfrentei #01
segunda etapa
as desilusões que enfrentei #01
Tenho o péssimo costume de classificar as pessoas. Assim que ela entra na sala, não é diferente. O sobrepeso e a maquiagem pesada na pele pálida fazem com que eu automaticamente diminua toda sua existência classificando-a na caixinha dos “viciados em trabalho”.
Tento me livrar rapidamente deste tipo de pensamento e me convenço a não tirar conclusões precipitadas. Afinal, quem deveria estar sendo avaliada sou eu. Enquanto ela fala mais sobre a vaga e não chega na parte das inevitáveis perguntas, fico tentando imaginar qual é a visão que ela tem de mim. Aposto que ela não imagina que a camisa que estou vestindo passou a manhã toda dobrada cuidadosamente dentro de uma mochila e que há menos de meia hora eu estava dentro de um banheiro apertado me vestindo — obrigada, linha amarela, por não ter banheiros tão precários.
Aliás, será que as empresas tem noção do quão cansativo é participar de um processo seletivo presencialmente? São muitas idas e vindas, ajustes na agenda e um pingo de ansiedade. Devo estar fazendo uma cara de paisagem convincente, pois o discurso continua. Sou realmente boa em soltar uma sequência de “uhum” e “é”, criando um ritmo e uma frequência que passam segurança para quem ouve.
Mas, apesar de tudo, estou realmente interessada neste emprego. Boa parte do meu interesse vem porque eu não aguento mais o meu atual trabalho — verdade seja dita. Já ouvi bastante sobre a vaga e toda a apresentação da empresa e tudo me pareceu ser realmente bom — embora eu seja uma pessoa muito fácil de se iludir, claro.
Depois de ouvir tudo que já havia ouvido na primeira etapa do processo — uma longa tarde presa dentro de uma sala de reunião com quase meia dúzia de pessoas se esforçando para completar um calhamaço de testes de perfil e algumas rodadas de dinâmicas em grupo — começo a responder as perguntas que também já me foram feitas na semana passada.
Dou início ao meu lindo discurso decorado, declarando tudo aquilo que as pessoas querem ouvir — veja bem, nada do que eu falo é mentira, mas depois de um tempo a gente vai entendendo o que as pessoas gostam de ouvir e, consequentemente, a gente aprende a falar a mesma língua. Ela me parece bem impressionada quando conto por onde andei e o que procuro. Talvez a gente possa dar certo trabalhando juntas, não sei (eu já falei que eu sou uma pessoa que se ilude com facilidade?). O tom de voz e a forma como o discurso dela foi conduzido só afirmam a minha impressão inicial — ela é viciada em trabalho mesmo.
Ela me pergunta se eu posso ficar mais, pois quer que eu conheça o gerente da área. Uma sequência de palavras bem educadas saem da minha boca e eu aguardo enquanto a outra pessoa não chega. Aproveito para relaxar. Desabo na cadeira, sentando praticamente com as costas e pegando meu celular. Preciso avisar meu atual chefe que a desculpa da vez vai demorar mais do que eu esperava — aliás, qual era mesmo a desculpa que eu tinha inventado?
A outra pessoa chega — um homem de aparentemente 40 e tanto anos, bem vestido, bem simpático, bem sucedido (talvez essa seja a caixinha dele). Começamos a conversar, as mesmas perguntas, as mesmas respostas. De novo e de novo e de novo. Por onde andei e o que procuro. A energia da sala está tão mais leve desde que ele chegou que quase me esqueço que estou sendo avaliada.
A conversa não dura muito, vamos direto ao ponto. Nos despedimos com a promessa de um retorno na semana seguinte. A caminho da saída, tento observar o máximo de detalhes possíveis daquele escritório — como as pessoas estão vestidas, como se comportam, o que elas podem me dar de spoiler sobre o que acontece lá dentro.
Aguardo ansiosamente pelo retorno. Tenho controlar a expectativa que existe meio sem motivo aparente.
E, na semana seguinte, nada. Mais alguns dias depois e… nada!
Um e-mail aparece na minha caixa de entrada e me dou por vencida de que não fui aprovada. Mas o conteúdo da mensagem reanima a minha expectativa dizendo que fui muito bem avaliada no processo e isso me deixa muito feliz, mas (sempre aquele “mas”…) o processo está atrasado mas ainda está acontecendo.
Só me resta esperar mais um pouquinho.
Alguns dias depois, recebo uma ligação de um número desconhecido e torço para que não seja alguma operadora de celular me oferecendo aquele novo plano que eu já disse que não me interessa.
Saio da minha mesa apressada e atendo a ligação no corredor mesmo, torcendo para que não ouçam o barulho da fábrica ao fundo. Recebo a notícia de o processo continua acontecendo (ainda??) e que eles estão “contando comigo” (e, aqui, utilizo fielmente as palavras da recrutadora).
Suspiro aliviada, voltando para minha mesa animada para que aquele seja um dos últimos dias no atual emprego.
Para ler a continuação, clique aqui.
Hey! Que bom que você chegou até o fim :) Não vai embora ainda não… Para ler os outros relatos baseados em fatos reais, clique aqui. Sua história pode virar um texto!! Para ser ouvido, entre em contato comigo por direct ou por e-mail.
메타데이터
- post_id
- da5dca7f7e8b
- slug
- segunda-etapa-da5dca7f7e8b
- url
- https://medium.com/judualibi/segunda-etapa-da5dca7f7e8b
- canonical_url
- https://medium.com/judualibi/segunda-etapa-da5dca7f7e8b
- author_url
- https://medium.com/@judualibi
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-08-17 05:39:31