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Amargura e Confiança

O vento atravessava a clareira, e eu caminhava sozinho, sentindo o peso do mundo sobre meus ombros. Ao redor, a lembrança das palavras…

Roberto Böck · 2026-03-15 19:27 · 1 claps · 2.2 min read
#confiança #amargura #desigualdade #injustiça #esperança
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Imagem gerada no Gamma App.

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Amargura e Confiança

O vento atravessava a clareira, e eu caminhava sozinho, sentindo o peso do mundo sobre meus ombros. Ao redor, a lembrança das palavras antigas parecia sussurrar: Quase me resvalaram os pés, pouco faltou para se desviarem os meus passos (Sl 73.2). Era como se cada prosperidade injusta, cada triunfo do ímpio, se projetasse sobre a minha alma.

Olhei ao redor, mas não havia riqueza em abundância para todos — apenas sinais de desigualdade. Famílias deslocadas pela guerra e pelo despotismo caminham sem rumo. Na Síria, na Nigéria, no Sudão, no Afeganistão, na República Democrática do Congo, milhares vivem sem segurança, sem teto, sem justiça. E eu me perguntava — como podem os maus prosperar enquanto tantos sofrem?

Com certeza foi inútil conservar puro o meu coração e lavar as minhas mãos na inocência, pois o dia inteiro sou afligido e cada manhã sou castigado (Sl 73.13–14). A amargura apertava meu peito.

— Por que a justiça parece tardar tanto? — murmurei, lembrando das notícias sobre crianças famintas, famílias expulsas de suas casas, pessoas perseguidas por sua fé, por suas ideias, por sua origem.

O olhar se perdeu no horizonte e outra lembrança veio à mente, carregada de dor: Quando o meu coração estava cheio de amargura e o meu íntimo se comoveu, eu estava embrutecido e sem entendimento. Era como um animal diante de ti (Sl 73.21–22).

— Às vezes me sinto assim, impotente diante da injustiça. — Mas havia algo no ar, um fio tênue de esperança, insistente e silencioso.

Então, como um sopro de alívio, uma voz interior trouxe consolo: Quanto a mim, bom é estar perto de Deus. Faço do Senhor Deus o meu refúgio para proclamar todas as suas obras (Sl 73.28). E respirei fundo. É esta certeza que sustenta o coração do justo, mesmo quando os ímpios prosperam sem esforço ou piedade.

— Confie no Senhor e faça o bem — falei baixinho, repetindo um conselho antigo (Sl 37.3). E o pensamento continuou: Agrade-se do Senhor e ele satisfará os desejos do seu coração (Sl 37.4). Não riqueza material, mas a certeza de que a integridade ainda preserva algo inviolável.

— Entregue o seu caminho ao Senhor, confie nele e o mais ele fará — disse, quase como quem tenta acalmar a própria ansiedade (Sl 37.5). Olhando o mundo, vejo deslocados na Etiópia, no Iêmen, no Haiti, nas Filipinas. A dor parece infinita, e ainda assim, algo persiste: uma ordem invisível que resiste à corrupção e à maldade.

Descanse no Senhor e espere nele (Sl 37:7) passou pelo meu espírito como um rio calmo. Não é fácil. Esperar não cura a injustiça, não devolve o que foi perdido. Mas é a única forma de permanecer firme quando os maus prosperam e o mundo parece ignorar os injustiçados.

O vento se acalmou. A clareira parecia respirar junto comigo, e eu continuei andando, entre pensamentos, palavras antigas e o presente que insiste em desafiar a esperança. Entre a amargura e a confiança, restava apenas a pergunta silenciosa: como viver num mundo onde os ímpios prosperam, mas ainda existe um refúgio que ninguém pode tocar?

E assim continuei, sem resposta pronta, mas com o coração atento, aberto ao mistério e à espera.


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