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De Jorge Amado à pandemia

A resistência dos povos de terreiro

Projeto Cais · 2020-10-02 23:51 · 58 claps · 3.7 min read
#jorge-amado #salvador #pandemia #literatura #omulu
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De Jorge Amado à pandemia

A resistência dos povos de terreiro

Por José Francisco

Photo by Tiago Celestino on Unsplash

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No último mês de julho a voz de Xangô, orixá da justiça, ecoou em um dos principais terreiros de candomblé de Salvador e determinou que, embora permitido pela prefeitura, o centro religioso continuaria fechado enquanto a pandemia do novo coronavírus durasse. Esse fato reacendeu a análise do histórico enfrentamento das comunidades de terreiro às epidemias diversas. Fato é que os praticantes das religiões afro brasileiras sabem há tempos de uma coisa: quando a questão é saúde, as populações marginalizadas são, sempre, as que mais sofrem. Da obra de Jorge Amado na década de 1930 à pandemia da COVID-19 em 2020, os mais pobres e excluídos são, indiscutivelmente, as grandes vítimas quando se fala em doença.

Quase cem anos separam a escrita de “Capitães da Areia” da pandemia do novo coronavírus, porém um fato une esses dois momentos: o sofrimento das populações mais pobres em tempos pandêmicos e epidêmicos. O romance de Jorge Amado, escrito em 1937, é claro nesse sentido. Em seu capítulo “Alastrim”, o escritor baiano descreve com riqueza de detalhes e de emoção a chegada da epidemia de varíola na cidade de Salvador:

“Omolu mandou a bexiga negra para a cidade. Mas lá em cima os homens ricos se vacinaram, e Omolu era um deus das florestas da África, não sabia destas coisas de vacina. E a variola desceu para a cidade dos pobres e botou gente doente, e botou negro cheio de chaga pra cima da cama. Então vinham os homens da saúde pública, metiam doentes num saco, levavam para o lazareto distante.”(1)

Esse pequeno trecho é claro em mostrar quais são os indivíduos que morrem e são desassistidos em momentos epidêmicos: sempre a população marginalizada. A obra mostra também a íntima relação dos cultos de candomblé com a chegada da varíola na cidade de Salvador, tendo como ponto principal a divindade ancestral Omolú. Esse orixá, adorado no Brasil e também em terras de África, é tido como o deus responsável pelas epidemias de varíola, estando relacionado tanto com sua infecção, como também pela sua cura, encarnando em si a dualidade saúde-doença.

O famoso romance de Jorge Amado continua a narrativa mostrando a devoção dos povos de terreiro pedindo que o deus Omolú leve embora a epidemia mandada para castigar os ricos, mas que, entretanto atingiu o povo mais pobre e carente.

“Omolú tinha mandado a bexiga negra para a Cidade Alta, para a cidade dos ricos. Omolú não sabia de vacina, Omolú era um deus das florestas da África, que podia saber de vacina e coisas científicas?(…). Os jornais falavam da epidemia de varíola e da necessidade da vacina. Os candomblés batiam noite e dia, em honra a Omolú, para aplacar a fúria de Omolú.”(1)

Oitenta e três anos depois, o mundo, e especialmente o Brasil, vêem-se passando por uma nova situação em saúde: a pandemia causada pelo vírus SARS-Cov-2. De forma análoga à obra “Capitães de Areia”, novamente os mais pobres têm sido os mais atingidos pela situação pandêmica mundial. “O que a pandemia tem evidenciado é o que vários estudos já mostravam em relação ao maior prejuízo da população pobre e negra ao acesso da saúde. A covid-19 encontra um terreno favorável porque essas pessoas estão em um cenário de desigualdade de saúde e de precarização da vida”, afirma Emanuelle Góes, doutora em saúde pública pela Universidade Federal da Bahia e pesquisadora do Cidacs/Fiocruz sobre desigualdades raciais e acesso a serviços de saúde (2).

O tempo passa e as desigualdades perduram, de forma que os povos marginalizados continuam a sofrer e a serem exterminados. Esse entendimento de desigualdade social já era sabido pelas religiões de matriz africana, estas que sempre sofreram com a intolerância religiosa por parte de religiões dominantes. O passado desses cultos remonta a tempos imemoraveis em terras da África, onde os ancestrais dos escravos africanos cultuavam os seus deuses negros. Com a escravização, esses deuses atravessaram o Atlântico em navios negreiros cheios de dor e injustiça, chegaram ao Brasil e também aqui fizeram seus devotos, em um exemplo indiscutível de resistência.

As comunidades de terreiro mantiveram, tal como seus ancestrais, o entendimento do fazer em comunidade, o que perdura até os dias de hoje. Talvez por isso, alguns centros de Umbanda e Candomblé, mantiveram suas portas fechadas em meio à pandemia do coronavírus. Esses povos sabem muito bem o risco que uma doença pode ter em meio às comunidades mais carentes. Sendo assim, os terreiros se colocam novamente em um ato de resistência, de portas fechadas, mas com muita fé e trabalho. Um exemplo é o tradicional terreiro de candomblé em Belo Horizonte no bairro Concórdia, que todos os anos realiza seu cortejo pelas ruas em homenagem a Omolú, de forma reinventada, o culto aconteceu, de portas fechadas, com capacidade reduzida e todos de máscara (3). Seja na década de 1930 ou em 2020, os atabaques continuam a soar, pedindo ao deus da cura que leve embora as doenças, para que os mais desfavorecidos possam não mais sofrer e morrer em decorrência da desigualdade.

Referências bibliográficas

  1. Capitães da Areia. 33th ed. Rio de Janeiro: José Olympio; 1937.
  2. Gragnani Juliana. Por que o coronavírus mata mais as pessoas negras e pobres no Brasil e no mundo. BBC News Brasil [Internet]. 2020 Jul 12 [cited 2020 Sep 30]:1–1. Available from: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53338421
  3. Cortejo de Candomblé é adiado por causa da pandemia [Internet]. Belo Horizonte: MG1; 2020 Aug 29. Cortejo de Candomblé é adiado por causa da pandemia; [cited 2020 Sep 30]; Available from: https://globoplay.globo.com/v/8815497/.

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