Todo mundo envelhece, Berlin não
Ontem eu vi ele de novo. Estava na plataforma do metrô, cantando para ninguém em particular — ou talvez para todo mundo, que é mais ou…

Todo mundo envelhece, Berlin não
Ontem eu vi ele de novo. Estava na plataforma do metrô, cantando para ninguém em particular — ou talvez para todo mundo, que é mais ou menos a mesma coisa em Berlin. Reconheci a voz antes de reconhecer o rosto: Infidelix. Dez anos atrás eu tinha visto um vídeo dele numa estação de trem, jovem, improvizando com uma garota, aquela energia crua de quem tem algo pra dizer e não precisa de palco pra dizer. Fiquei seguindo o canal no YouTube, assistindo aos vídeos de tempos em tempos. Depois de alguns anos, aconteceu o improvável — eu o encontrei aqui, ao vivo, tocando no S-Bahn, e me aproximei pra perguntar se era mesmo ele. Era. Mais velho, um pouco cansado, mas com a mesma vibração. Ontem, três anos depois desse encontro, ele estava de volta à plataforma. Careca agora. Alguns roxos nos braços. Um olhar que já percorreu distâncias que eu provavelmente não sei calcular.
Não vou fingir que entendo a história dele. Todos nós temos batalhas invisíveis — com dependências, com escolhas, com o peso acumulado de anos que não saíram como a gente planejou. O que me prendeu não foi julgamento, foi reconhecimento: Berlin tem um talento particular pra extrair algo das pessoas. A cidade atrai jovens em busca de liberdade, de contracultura, de uma vida que pareça mais real do que a que deixaram pra trás. E por um tempo funciona — a cidade pulsa de noite, os espaços respiram possibilidade, a ausência de pretensão parece, ela mesma, uma forma de sofisticação. Mas Berlin também é fria nove meses por ano, o sol some cedo, o álcool é barato, e a sensação de estar sempre num limiar — nunca chegando, nunca saindo — pode virar um estado permanente sem que você perceba.
Eu vim pra cá com quatro anos de histórias à frente de mim e uma certa dose de romantismo que eu não me envergonho de admitir. A cidade me pareceu vibrante, liberadora, cheia de pessoas que tinham fugido de algo e construído algo novo no lugar. Só que, aos poucos, comecei a notar os padrões: as mesmas roupas pretas, os mesmos cortes de cabelo, as mesmas discussões sobre qual bar abriu em Neukölln. O que parecia rebeldia era, no fundo, uma outra forma de conformidade — mais estilosa, talvez, mas conformidade ainda assim. Não culpo ninguém por isso; a gente sempre vai encontrar tribo e adotar os sinais dela. Mas há uma diferença entre pertencer e se dissolver — e Berlin, com seu charme específico, às vezes embaralha esses dois conceitos.
Quatro anos depois, a cidade continua igual. Os mesmos grafites que não mudam porque ninguém quer que mudem. O mesmo frio que surpreende quem esqueceu o inverno anterior. A mesma sensação de que algo importante está sempre prestes a acontecer numa outra festa, num outro projeto, numa outra conversa às três da manhã. O que mudou sou eu — e essa percepção, quando finalmente chega, tem um peso estranho: parte alívio, parte luto. É confortável ser deslumbrado. Exige mais de nós enxergar com clareza e ainda assim escolher ficar — ou admitir que talvez seja hora de ir.
메타데이터
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