A sensibilidade como força: (re)existindo apesar da repressão do patriarcado
A sensibilidade como força: (re)existindo apesar da repressão do patriarcado, exploro a relação entre minha sensibilidade e a resistência…
A sensibilidade como força: (re)existindo apesar da repressão do patriarcado
A sensibilidade como força: (re)existindo apesar da repressão do patriarcado, exploro a relação entre minha sensibilidade e a resistência ao autoritarismo patriarcal e às narrativas da extrema-direita. Para mim, ser sensível não é fraqueza, mas uma força que enriquece minha percepção do mundo e da minha própria existência. Destaco a importância de reconhecer e valorizar a sensibilidade em todos, independentemente do gênero. Proponho uma reflexão sobre como a autenticidade e a conexão com a ancestralidade podem desafiar estruturas opressoras, promovendo uma vida mais autêntica e corajosa.

imagem gerada com a fotografia de Gabriel Ribeiro e design da IA
Querem me dizer que ser sensível é sinônimo de “fraqueza” ou como alguns bolsonaristas-protofascistas falam: é mimimi. Eu respiro profundamente, inspiro o ar para limpar os meus pulmões e depois libero-o para seguir o seu fluxo normal. Faço isso para que o meu corpo possa se manter em equilíbrio. O discurso da extrema-direita, assim como fazia qualquer colono há muito tempo, é o de desestabilizar a estrutura emocional daquele outro, que o colonizador-fascista considera um “marginal”, sem o “direito” de viver. Esse que vos escreve busca navegar dentro de sua própria sensibilidade, reconhecendo assim, por uma extensão de percepção, a mediunidade que carrega consigo, e quando isso toma um nível de consciência (aqui entendido como ponto luminoso que surge na psique humana, cuja intensidade e energia dos pensamentos, compreendem uma realidade), ocorre uma força e uma potência, que estimulam o fator intransponível que a minha percepção existencial possa captar que a vida lhe oferece.
Um anarquista ou melhor dizendo, a concepção anarquista que habita em mim, com base na referência prática e teórica do que pode ser o anarquismo, penso que a transparência para elucidar os fatos, tanto abstratos quanto concretos, exige do anarco muita disposição para puxar de seu coração, a coragem que lhe cabe. E aqui, sem pretensão alguma de se colocar como o “puritano”, sinto que até no meio anarquista, a compreensão da “sensibilidade”, sobretudo masculina, é também tratada com muito desdém e pouca responsabilidade. Se for falar de uma visão mais ampla das “esquerdas”, o moralismo é enorme com aquele que tem traços (sensíveis) marcantes em suas características — com relação a uma determinada situação. Então, camaradas leitores, a proposta aqui não é falar apenas da hipocrisia da extrema-direita e de seus semelhantes, mas abordar esta questão amplamente e com direcionamentos demarcados: o quanto o patriarcado é prejudicial para a sensibilidade alheia, não só para as mulheres, mas também para os homens que buscam lidar com aspectos internos sensíveis de seus corpos.
O efeito do medo de uma tirania
Talvez Freud seja útil de alguma forma, nesse instante, para mencionarmos como a sexualidade reprimida que a figura masculina “machista” produz para si mesmo por conta de um fetiche pela imagem da autoridade patriarcal — aquele que tudo pode e exige obediência das mulheres — e a partir desse recorte, pensarmos o quanto a repressão sexual contaminou significativamente todo um período de nossa história, do ponto de vista ocidental, digamos assim. Em um artigo recente meu, onde falo da importância daqueles que lutam por um mundo que supere o capitalismo, possa preservar o “aroma da alegria” em si, para não adoecer, e tecendo a conexão com o que proponho agora, creio ser preponderante compreendermos que a toxicidade patriarcal tem, entre outras tantas premissas, a aniquilação da capacidade das mulheres de pensarem os espaços e a relação com os seus semelhantes. Na visão matriarcal, a sensibilidade de envolver todos os membros de seu grupo, nas decisões sobre como administrar espaço-tempo presentes naquela realidade. O patriarcado percebe o quanto terá de aterrar as águas nascentes sensíveis de nossa psique, para alavancar o seu grande projeto expansionista, não só de terra e território, mas o de ocupar-se sorrateiramente, no imaginário social, o discurso de que para se tornar um indivíduo “respeitado” e “vencedor”, é preciso abandonar qualquer resquício de sensibilidade existente nas emoções de qualquer pessoa.
A potência do sensível
Muitas mulheres que coadunam com a lógica machista, por uma influência ideológica (ou não), evidentemente, irão reproduzir esse mesmo discurso autoritário e extremamente ilusório. Sem dúvida é uma das retóricas que a sociedade patriarcal se utiliza para impor um modo padrão de organização social, e para pressionar os rebeldes-sensíveis, que ousam permitir a existência de suas respectivas sensibilidades diante de diversas situações, sobretudo aquelas que pedem compaixão diante da dor do outro, por exemplo. Cansei de observar pessoas próximas, seja de âmbito íntimo ou por proximidade sociopolítica, e detectar o peso moralista desses ambientes, com aquele (homem) que concebe a sua sensibilidade como um instrumento de não só conhecer a si próprio, mas também de perceber como se relacionar com os fatores externos que circundam a sua existência.
A sensibilidade é mais do que um sentimento que o corpo humano possa produzir, ela é como uma ferramenta que a espiritualidade (uma invenção do humano) que nos fornece, para que ela possa ser desenvolvida ao longo das relações interpessoais e com os aspectos naturais da Terra, para que a partir desse ponto de partida ela consiga nos orientar para além daquilo que a razão humana pode compreender. Muitas vezes, pode-se dizer que a percepção sensível de um corpo, antecede a nossa consciência. Vale ressaltar que o foco aqui neste artigo não é trazer um levantamento histórico ou cronológico do que é a sensibilidade, mas de pontuar esse aspecto tão importante e presente, que opera em qualquer corpo humano. Para alguns, mais, para outros, a sensibilidade foi soterrada por ilusões políticas e tecnológicas (relações de poder). Max Stirner, em O Único e a Propriedade, apresenta o espírito como produtor de qualquer pensamento. Cada espírito, logo, terá a sua própria singularidade. Na visão holística e oriental, a energia é a base de tudo. Pegando esta última referência, podemos pensar a sensibilidade por uma perspectiva da energia.
Conectando tais referências citadas acima, é prudente expor que, se o que penso é fruto de um espírito, e se a energia é a base para toda a existência material e espiritual, a sensibilidade pode ser uma ferramenta energética que habita em nossos corpos. Ela está atrelada evidentemente com a percepção sensorial do corpo humano. A sensibilidade pode ser explicada metaforicamente como um mergulhador, que está em águas profundas, navegando e conhecendo no espaço-tempo, um recorte de sua realidade, e para que ele possa permanecer protegido de possíveis ataques de predadores, quanto mais profundo o mergulhador estiver, mais detalhes e mais riquezas ele conhecerá sobre si mesmo e como se desvencilhar de uma figura predatória que ronda procurando se alimentar.
A domesticações feitas por dogmas
Trazendo um recorte do Império Romano, passando pelo clero da Igreja Católica, estendendo-se para regimes feudais, monarquistas, ditaduras, capitalismo, poderio bélico, poder judiciário, oligarquias, neoliberalismo, religiões (absolutistas), como tantas outras formas, a sensibilidade do indivíduo foi aterrada por manipulações, pressões autoritárias, gerando assim verdades absolutas que ecoaram por boa parte da sociedade ocidental (entendido aqui, como Europa e EUA, principalmente), a quem estiver disposto a captar a minha mensagem por uma via empírica, entenderá que ter sensibilidade não requer anular outros polos, como a força, a coragem, a inteligência e a sagacidade. Compreender a própria sensibilidade não significa, necessariamente, pensar as dialéticas da sociedade, por uma ótica do pacifismo. Ser ou estar percebendo a sua sensibilidade, nada tem a ver com inércia diante das injustiças sociais. A sensibilidade consegue através de uma “pulsão” do coração, detectar aquilo que de fato irá ressoar com a própria existência daquele que pensa, escreve, fala, dança, cria, questiona, dentre outras ações. Tais movimentos corpóreos percorreram um caminho até chegar às suas respectivas obras, que tinham a sensibilidade-alquímica como um transporte importante para atingir o auge da imaginação-criativa de uma arte, de um fazer-cotidiano diferente do que é imposto pelo status quo, etc.
As razões dessas opressões
A quem interessa a estratégia de aniquilar as sensibilidades alheias, sobretudo dos oprimidos? Por que o projeto colonial invadiu terras de nativos e ainda tem como um de seus objetivos, efetivar um apagamento histórico das culturas e simbologias dos colonizados? O europeu quando percebeu que ali na região sul do continente africano, a relação da comunidade para com a terra e o território, era de partilha, de uma administração íntegra com o meio ambiente em que estavam, iniciou-se naquele momento o extenso brutal projeto escravagista. A política europeia à época precisava de um “motivo” para marginalizar toda uma cosmovisão africana. A superioridade de raça foi só uma retórica covarde para maquiar o real interesse dos europeus que, na verdade, queriam destruir toda a estrutura sociocultural de um povo, abrir passagem para um único modo permitido: o expansionismo mercadológico. Talvez seja um momento adequado para mencionar, mais uma vez, a provocativa indagação que o professor Clayton Rodrigues, realiza em sua tese “Tecnologias de poder e a transformação do Eu”, no qual o autor nos chama para refletirmos sobre essa noção do “eu-natural”, diante das relações exteriores a ela: comunidades, sociedade, discursos, verdades absolutas, morais preestabelecidas, etc. A tese vai fazendo uma provocação minuciosa e honesta de como estamos sendo moldados há muito tempo na humanidade, e aqueles temperos que forjam uma singularidade humana: uma ideia-percepção espontânea do que observa-se do externo, o “espírito próprio” de cada um, vai sendo soterrado por uma armadilha do pertencimento: o tal “eu-social”. Ou seja, fomos deixando ao longo do tempo, a lógica societária, a propaganda patriarcal-feudal-capitalista, de explorar aspectos sensíveis de nossa sensibilidade, para que fosse mais fácil a obediência de toda uma população.
Pela não captura eurocêntrica
Eu adoro sentir o cheiro daquilo que me dê prazer, daquilo que me remeta a algo agradável, sentir o “aroma da alegria” (tema de um artigo meu) e seguir adiante — com cautela, é verdade — mas sem perder a calibragem do faro, de avançar com coragem sobre aquilo que a minha psique possa perceber das realidades que me envolvem. E a partir desse ponto de vista, as anarquias que escorrem por minhas células orgânicas, sentem-percebem, o quão uma vida anarquista ou, uma vida cujas faculdades “psico-corporais” sejam abastecidas de muita autonomia (não no sentindo de autossuficiência), acredito que, tratando-se do Brasil, essa grande jornada chamada de vida, encontre as pontes sofisticadas tão bem cultuadas e preservadas por saberes e cosmovisões indígenas e pela matriz africana.
O samba diz “nem tudo que é bom vem de fora”, é uma bela verdade, e não se contradiz dizer: nem tudo que vem de fora deve ser acatado, entretanto, tem coisa que vem de fora que podemos agregar àquilo que as profundezas de nosso ser indicam fazer. O espírito de um guerreiro e de uma guerreira, em nossa contemporaneidade, se abrir mão de suas sensibilidades, perderá a conexão e as raízes com toda uma ancestralidade. Não falo somente pelo olhar de um macumbeiro. Falo por uma perspectiva bem ampla, inclusive daqueles que lutaram sem perder a ternura.
Me permitam dizer o sopro que recebo nesse instante, que vem da “moça da rua” (laroyê!): a estrutura patriarcal precisa sentir a doce língua na orelha, para que a mão autoritária do machismo veja a cor vermelha do sangue pingando de sua orelha, pois como um corpo rebelde, há de fazer e ser: sensível como uma navalha. A tirania colonial ficará com medo. Pensarão que é um ato pela violência. Estão enganados. Porque, através de nossa percepção sensível de mundo, podemos criar o que quisermos. Propor os debates que considerarmos relevantes. Fazer associações como numa encruzilhada: em que um capoeirista estende uma mão para um devir deleuziano e, com a outra, acena para um anarquismo corajoso e pela ruptura de toda autoridade absolutista.
Que ninguém meta a mão em nossa sensibilidade, sem sentir o contragolpe que toda tirania precisa receber.
Gabriel Ribeiro, À Margem
*texto retirado do antigo blog do À Margem
Este texto foi escrito à margem, onde as trincheiras da história não cabem nas capturas. Se essa mensagem te fez pensar, tocar, que a liberdade não nasce no Estado, considere apoiar este projeto independente: Pix: amargem.canal@gmail.com
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