O Pai do mangue
A minha mãe sempre conta que ela e minha avó viviam grudadas. Ora nos canaviais, com facas tão afiadas quanto as folhas cortantes da cana…
O Pai do mangue
A minha mãe sempre conta que ela e minha avó viviam grudadas. Ora nos canaviais, com facas tão afiadas quanto as folhas cortantes da cana, ora nos mangues — enterradas na lama até a canela, recolhendo os crustáceos que depois viravam mercadoria, viravam dinheiro, viravam farinha, viravam pirão para ela, para minha avó e para os outros cinco irmãos. Numa dessas idas ao mangue, só as duas — Eliane e dona Antonia — muitas coisas aconteceram.
Normalmente, a ida era acompanhada de vizinhas. Edinaldo, irmão mais próximo da minha mãe, sempre ia, e havia uma regra que minha avó repetia como quem protege e ameaça ao mesmo tempo: “nada de cachorro”. Mas naquele dia todo mundo desistiu. Sobraram só as duas, e assim seguiram.
Sempre que lembro dessa história, lembro também da foto 3x4 da carteira de trabalho da minha mãe. Uma criança. Oito anos, talvez. Oito anos e já dentro da lógica da sobrevivência. Eu, com oito anos, só fantasiava com trabalhar. Ela, não.
Quando começaram a adentrar o mangue, perceberam que um cachorro as seguia. Tentaram espantar. Gritaram. Ameaçaram bater palmas. Nada funcionou. O bicho continuou atrás, sempre a uma distância segura, enquanto mãe e filha afundavam cada vez mais fundo na lama, buscando o sustento do dia.
Quanto mais entravam, mais o silêncio tomava conta. O único som era o chac da lama se soltando dos pés. Até que, de repente, o silêncio cessou de forma violenta.
Cipós quebrando. Madeira estalando. Barulhos de galhos se partindo por todos os lados ao mesmo tempo, mas nada se mexia diante delas. Apenas o som — estrondoso, absurdo, impossível — da mata se despedaçando sem que os olhos acompanhassem.
O cachorro, que antes apenas seguia, começou a se debater, gemer alto, como se apanhasse de algo invisível. As duas ouviam o caos, mas não viam nada.
Foi quando dona Antonia parou, respirou fundo e disse, com a certeza de quem conhece seus pactos com a mata:
— É o Pai do Mangue. Ele me avisou que eu não podia trazer cachorro. E eu trouxe. Esse é o castigo. Vamos embora. Não vamos achar nada hoje depois disso.
O cachorro desapareceu na mata. Mas minha mãe e minha avó voltaram para casa em paz — talvez por respeito, talvez por medo, talvez por fé — mas, principalmente, voltaram inteiras.
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