A ascensão da extrema-direita sob a ótica dos movimentos anti-imigração no Japão
29 de outubro de 2025
A ascensão da extrema-direita sob a ótica dos movimentos anti-imigração no Japão
29 de outubro de 2025
Apoiadores do Sanseito em um evento em Tóquio, um dia antes das eleições da câmara alta • Issei Kato/Reuters via CNN Newsource
Por Natalia Costa Soares
Após uma série de protestos realizados em Tóquio e Osaka, foi anunciado o cancelamento do projeto de “cidades natais africanas” ou “JICA Africa Hometown” criado pela Agência de Cooperação Internacional (JICA) na Conferência Internacional de Tóquio sobre o Desenvolvimento da África. O projeto consistia na parceria entre quatro cidades japonesas — Imabari, Kisarazu, Sanjo e Nagai — e quatro países do continente africano — Moçambique, Nigéria, Gana e Tanzânia, respectivamente –, visando um maior intercâmbio cultural, além de eventos e programas educacionais. Contudo, espalharam-se diversas notícias falsas em redes sociais e veículos de comunicação africanos acerca da concessão de vistos especiais e da facilitação da entrada de pessoas oriundas desses países. Tais notícias levaram muitos japoneses a acreditarem que as cidades anunciadas no projeto passariam por um processo de imigração em massa, o que se tornou um combustível para disseminar os protestos em questão.
Movimentos xenofóbicos e anti-imigração como esses fazem parte de uma esteira de acontecimentos provocados pela ascensão do nacionalismo japonês, fomentado pela extrema-direita, que gradualmente ganha mais espaço em áreas determinantes na política do país. Isso se verifica principalmente nas eleições para a câmara alta, ocorridas em 20 de agosto de 2025, nas quais o Sanseito, partido de extrema-direita, conquistou 14 cadeiras de um total de 248.
O Sanseito surgiu em 2020, durante a pandemia de COVID-19, e se impulsionou através de vídeos no YouTube que se opunham às medidas sanitárias, como o uso de máscaras, obrigatoriedade de vacinas e testes de PCR. Dois anos mais tarde, a primeira cadeira na câmara alta foi conquistada pelo líder do partido, Sohei Kamiya, ex-gerente de supermercado e reservista das Forças de Autodefesa Militares do Japão. No centro de seus discursos conspiracionistas está o nacionalismo exacerbado através do lema “Japão em primeiro lugar”, muito similar ao MAGA ou “Make America Great Again”, cunhado pelo ex-presidente Ronald Reagan e reutilizado como slogan do atual presidente dos EUA, Donald Trump, em suas três campanhas eleitoriais. Portanto, apesar do número de cadeiras conquistadas pelo Sanseito ser relativamente baixo, ele representa uma tendência ao crescimento da extrema-direita nacionalista no Japão e pode determinar o tom dos discursos relativos à população imigrante em um futuro próximo.
Isso se verifica no nível das propostas feitas pelo partido e no modo em que elas influenciam outros discursos políticos. Em concreto, algumas das propostas do Sanseito incluem: uma ampla restrição do número de imigrantes no Japão, que seria então limitado a 5% da população em cada município; a limitação do número de visitantes estrangeiros ao país; um maior rigor nas regras em torno da naturalização; e a proibição da ocupação de cargos públicos por cidadãos naturalizados (FRANCE 24, 2025). Entretanto, apesar das reações efusivas, apenas 3% da população residente do Japão é imigrante, isto é, cerca de 3,77 milhões de estrangeiros dentro de um total de 120 milhões de habitantes (CNN, 2025). Mesmo assim, discursos xenofóbicos que objetivam culpar a população migrante por problemas locais se espalham com facilidade, fomentados principalmente por partidos populistas que estudam a retórica empregada por outros movimentos da extrema-direita ao redor do mundo, de modo a atrair mais simpatizantes frustrados diante do declínio econômico japonês.
Alguns dos discursos disseminados envolvem: o aumento da criminalidade no país; a compra de propriedades que, consequentemente, aumentaria o preço dos imóveis; o abuso de assistência social e do sistema de saúde pública; e a diminuição dos salários para residentes nativos. Tais questões sentidas pela população japonesa advêm principalmente da longa estagnação econômica enfrentada desde os anos 1990, somada a um nível alto de inflação — considerando que se trata de uma economia que possui um histórico de estabilidade inflacionária –, além da desvalorização do iene, da estagnação dos salários e do aumento do custo de vida (VEJA, 2025). Logo, para uma nação que possui os ideais de homogeneidade e pertencimento fortemente enraizados como o Japão, um caso de declínio da economia que outrora parecia tão próspera, fomenta o nacionalismo, que ressurgiu na década de 1990, e busca sobretudo encontrar culpados naquilo que é exógeno e não faz parte da cultura local: o estrangeiro.
Cabe destacar que a migração para o Japão começou a atingir índices significativos a partir da década de 1980 e cresceu ainda mais nos anos 1990 e 2000 com a entrada dos nikkeijin — descendentes de japoneses que provinham principalmente do Brasil e do Peru (Komine, 2014). Com a queda progressiva da taxa de natalidade, que em 2024 atingiu os 1,15% negativos, o governo se vê obrigado a aceitar a entrada de novos migrantes internacionais, ainda que com políticas migratórias mais rígidas, posto que é necessário atingir uma porcentagem de 2,1% para manter a estabilidade populacional sem o auxílio da imigração e impedir que a força de trabalho no país siga uma tendência de encolhimento, fator alarmante para uma economia que já está estagnada (CNN, 2025). Ademais, mediante o envelhecimento da população, há a necessidade de um aumento da força de trabalho jovem, a qual possa contribuir para o sistema previdenciário, evitando seu colapso pela desproporcionalidade entre trabalhadores aposentados e ativos.
Porém, mesmo com a necessidade de trabalhadores estrangeiros para impulsionar a economia, o Japão segue pouco flexível em suas políticas migratórias, principalmente em relação à naturalização, visto que os residentes estrangeiros são frequentemente classificados como habitantes — ou melhor, denizens, como aponta Komine (2014) –, isto é, pessoas que visam residir permanentemente no país, mas se encontram em um limbo entre o status de migrante temporário e cidadão naturalizado. Esses habitantes possuiriam, portanto, mais direitos que um migrante temporário, porém teriam “direitos políticos limitados, pois estes acompanham apenas a cidadania formal adquirida por naturalização” (Komine, 2014, p. 198).
Por outro lado, a flexibilização de vistos para “trabalhadores especializados” para áreas como enfermagem, hotelaria, construção civil e aviação configura um avanço na pauta migratória, ainda que efetuada apenas pela urgente necessidade de mão de obra no país (CNN, 2025).
Mesmo assim, o crescimento de partidos de extrema-direita populistas como o Sanseito influencia diretamente os discursos de outros setores e partidos da direita, como o PLD (Partido Liberal Democrático), o partido mais tradicional do Japão e que na eleição de 2025 perdeu assentos e não conseguiu formar maioria na câmara alta. O PLD, partido do primeiro-ministro Shigeru Ishiba, é também o partido do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe, assassinado em 2022 e grande defensor de políticas revisionistas e nacionalistas. Percebendo a força que o Sanseito estava angariando através de seu eleitorado majoritariamente jovem e masculino, o PLD passou a se utilizar da retórica nacionalista de forma mais acentuada para aumentar seu desempenho nas eleições. Para tanto, o primeiro-ministro Ishiba anunciou em setembro de 2025 a criação do Escritório para a Promoção de uma Sociedade de Convivência Harmoniosa com Nacionais Estrangeiros, que funcionaria como uma espécie de “centro de comando”, coordenando políticas de “imigração, aquisição de terras por estrangeiros e evasão de contribuições ao seguro social” (CNN, 2025).
Com efeito, apesar do termo “Convivência Harmoniosa” no título do escritório, sua criação não é harmônica, pois dos dois lados referidos, apenas a população japonesa tem suas preocupações levadas em consideração, enquanto a população migrante se transforma em alvo de uma caçada que busca culpados para problemas estruturais da sociedade, da política e da economia do Japão. Assim, a medida funciona como um meio de apaziguar os ânimos de uma população que se preocupa demasiadamente com a manutenção de uma raça homogênea e da hierarquia entre povos, e que encontra nos estrangeiros uma fonte para extravasar sua insatisfação com os rumos da nação.
Diante disso, a ascensão da extrema-direita e do nacionalismo exacerbado não só no Japão, mas também ao redor do globo, aponta para um caminho longo e árduo para o avanço das políticas migratórias que, após décadas de pequenos avanços, enfrentam novos retrocessos mediante às crises econômicas aproveitadas por setores da direita para a inserção de pautas conservadoras e cada vez mais distantes da promoção dos direitos humanos. No caso japonês, mediante às turbulências políticas e ao crescente revisionismo histórico que busca reavivar o “orgulho japonês”, o cenário das políticas migratórias tende a permanecer hostil enquanto a economia não retomar o tão ansiado crescimento.
Referências
FREITAS, Paula. Parceria entre Japão e países africanos sai pela culatra e gera episódios de xenofobia. Disponível em: https://veja.abril.com.br/mundo/parceria-entre-japao-e-paises-africanos-sai-pela-culatra-e-gera-episodios-de-xenofobia/. Acesso em: 25 set. 2025.
“Japão em primeiro lugar”: Entenda como um partido de extrema direita se tornou o destaque da política japonesa. Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2025/07/21/japao-em-primeiro-lugar-entenda-como-um-partido-de-extrema-direita-se-tornou-o-destaque-da-politica-japonesa.ghtml. Acesso em: 25 set. 2025.
KOMINE, Ayako. When migrants became denizens: understanding Japan as a reactive immigration country. Contemporary Japan, v. 26, n. 2, p. 197–222, 2014. Disponível em: https://www.degruyterbrill.com/document/doi/10.1515/cj-2014-0010/html. Acesso em: 25 set. 2025.
LAU, Chris; TAKIGUCHI, Mai; NISHIOKA, Soyon. Por que o Japão criou uma força-tarefa para lidar com estrangeiros? Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/por-que-o-japao-criou-uma-forca-tarefa-para-lidar-com-estrangeiros/. Acesso em: 25 set. 2025.
LUCAS, John. Reino Unido, Austrália e Japão registram protestos contra imigração. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/reino-unido-australia-e-japao-registram-protestos-contra-imigracao/. Acesso em: 25 set. 2025.
MILLAR, Paul. ‘Japanese First’: The deep roots of the rising far right. Disponível em: https://www.france24.com/en/asia-pacific/20250723-japanese-first-the-deep-roots-of-the-rising-far-right. Acesso em: 25 set. 2025.
SAAD, Caio. Política do Japão enfrenta tremores com o inesperado avanço da direita radical. Disponível em: https://veja.abril.com.br/mundo/politica-do-japao-enfrenta-tremores-com-o-inesperado-avanco-da-direita-radical/. Acesso em: 25 set. 2025.
Natalia Costa Soares é graduanda de Relações Internacionais e integrante da Rede de Apoio ao Migrante Internacional (RAMIN) — Franca.
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