A grande enchente de 1939: um relato de quem ouviu dizer
Essa história foi contada pela minha avó e confirmada pelas suas irmãs em diferentes momentos. Logo, há que se crer que algo de muito…
A grande enchente de 1939: um relato de quem ouviu dizer
Essa história foi contada pela minha avó e confirmada pelas suas irmãs em diferentes momentos. Logo, há que se crer que algo de muito estranho aconteceu e deixou marcas profundas nas memórias delas quando ainda eram crianças. E por mais que os relatos de cada uma delas diferissem em pontos específicos, todas aparentavam estar demasiadamente sensíveis quando remetiam àquele fato ocorrido no passado.
Elas diziam que a chuva começou sem qualquer aviso, numa tarde qualquer do ano de 1939, em uma estação que não prometia nuvem capaz de derramar um pingo se quer sobre a poeirenta e quase sempre ensolarada Itajobi. Era tempo de estiagem, de chão rachado e vento seco levantando folhas mortas nas ruas e estradas de terra. Por isso ninguém levou a sério as primeiras nuvens altas, escuras, imóveis e longínquas naquele céu azulado. Mas no final daquele dia, ocorreria a primeira pancada de chuva. Grossa, densa, violenta e breve. Parou logo fazendo vir das bordas da cidade um cheiro adocicado de pasto molhado.
A chuva voltou à noite. Depois, na alta madrugada. Voltou no início do dia seguinte e novamente no final da tarde; para repetir todo o ciclo desde o início da madrugada até o fim do dia seguinte.
Os mais velhos reclamavam que aquela chuva fora de época talvez pudesse carregar consigo coisas que não pertenciam àquela terra. Coisas que a língua humana seria incapaz de nomear. Foram desacreditados pelos mais jovens de então. Era apenas uma chuvarada inesperada e ponto final.
O Ribeirão Três Pontes, que costumava correr silencioso e tímido durante a estação da estiagem, começou a engrossar. Primeiro ficou barrento, depois barulhento. Corria lento, depois com velocidade e fúria. Na manhã do terceiro dia, já não se reconhecia o leito. A água engolfava a cidade e alguns vilarejos. Em poucas horas, atravessou pontes, invadiu quintais, entrou em currais. A cidade foi logo agitada pelo barulho da água batendo em madeira, levando galinheiros, derrubando cercas. Sítios inteiros ficaram ilhados. Fazendas viraram ilhas de barro cercadas por algo como um mar inquieto.
Não houve cenas de tragédia e desespero, como as dos jornais da capital. Foi uma enchente interiorana: silenciosa, teimosa, insistente. As pessoas subiram para o alto das casas, levaram o que podiam e esperaram pacientemente. Ao final daquele dia, as águas baixaram, mas a cidade carregou algo além das marcas de água nas paredes de casas e comércio.
Nos dias que vieram depois, começaram os relatos. Primeiro, foram os italianos. Famílias que tinham chegado décadas antes, trazendo santos de madeira e a mania de plantar parreiras onde o solo mal aceitava feijão. Um deles, sujeito de idade bastante avançada, contou na venda que pertencia ao pai de minha avó e suas irmãs o seguinte: Depois que as águas recuaram para o verdadeiro leito do rio, ele foi até seu sítio ver o estrago. Disse que encontrou a terra lisa demais, como se algo tivesse sido passado por cima e apagado as marcas naturais da passagem e recuo das águas. Seu compadre disse a ele ter ouvido um som cavernoso vindo do chão. Ele prestara a atenção e sentira que seus ouvidos percebiam uma vibração estranha, como se a água tivesse deixado um pulmão enterrado ali.
O relato do velho homem era tortuoso. Uma mistura de um dialeto do norte da Itália com tupi e português que era usado para nomear as coisas específicas daquela região. Mas era um homem inteligente, lúcido e refratário a delírios ou devaneios. Contudo, histórias estranhas vieram de outras fontes.
Os descendentes de africanos escravizados, que viviam em pequenos agrupamentos próximos ao ribeirão, foram mais diretos. Sempre que iam à venda, falavam sobre coisas diferentes que continuavam acontecendo por entre as casas de seus vilarejos depois que as águas foram embora. Diziam que a água tinha trazido alguma coisa. Não um bicho, não um espírito de cemitério. Algo mais antigo, que não morava ali antes. Aquelas pessoas tão acostumadas com a precariedade e a escuridão não inventariam novos medos, apenas para ter algo a mais com o que se preocupar. Por isso, quando falavam, falavam com certeza. Uma mulher preta jovem e astuta contou à minha bisavó que, três noites depois da enchente, acordou com os cachorros imóveis olhando para o terreiro. Todos olhavam para o mesmo ponto, perto da cerca que antes dividia o quintal do curso antigo da água. Disse que tentou chamar a atenção deles, mas a voz saiu baixa, como se o ar tivesse engrossado em sua glote. Além da minha bisavó, havia outras pessoas na venda ouvindo com atenção o relato. Ninguém riu.
Já os caboclos, muito acostumados a ler sinal em todo tipo de coisa — vento, bicho, cor do céu — foram os que mais hesitaram em interpretar aqueles fenômenos. Eram evasivos e tentavam ficar distantes. Diziam apenas que a mata tinha mudado de jeito e que o rio começou a fazer novas curvas. Um dia, um deixou escapar que sentia um silêncio diferente vindo das árvores e das plantações. Não era calma, mas um silêncio de algo que espreita, observa e espera. Ele disse ter sentido isso ao cortar lenha na beira do barranco do rio. Golpeava o mourão com machado e o som não voltava. O eco havia sumido.
Mas foram os três viajantes que deixaram os relatos mais estranhos. Eles estavam hospedados em um local na parte mais alta da cidade, onde as águas não alcançaram. Eram homens práticos, conhecidos por medir pesos e estabelecer valores. Pensavam tudo em termos de cálculo e matemática; e tinham o aspecto e hábitos dos estrangeiros provenientes das regiões mais extremas da Europa. Sendo, portanto, pouquíssimo susceptíveis às crendices daquele povo. Talvez por isso que os seus relatos tenham servido para que a história ganhasse solidez e atravessasse o tempo.
Os três sentaram-se em uma pequena mesa na venda do meu bisavô e contaram o seguinte enquanto bebiam:
Um deles disse que na madrugada em que a chuva cessou de vez, acordou com a impressão de que alguém passava pelo corredor da casa. Não eram sons de passos. Era um arrastar leve, contínuo, como tecido molhado sendo puxado. Levantou, acendeu a lamparina, não encontrou nada. Mas na soleira da porta havia uma marca úmida, fina, que desapareceu antes do sol subir. O segundo contou que foi até o ribeirão, mais por curiosidade que por necessidade. Disse que a água, já baixa, corria limpa demais. Sem folhas, sem galhos, sem espuma. E que, ao olhar para o reflexo, teve a sensação de que o rosto demorava um segundo a acompanhar o movimento. Como se a imagem hesitasse em acompanhá-lo. O terceiro, o mais jovem, falou pouco na época. Só anos depois, ao retornar à cidade para fazer negócios, comentou numa conversa de porta de loja que na tarde seguinte à enchente caminhou pela cidade e notou vários pedaços de corda de caroá. Ao pegar e analisar um daqueles pedaços, não pode notar sinais de cortes ou de raspagem que geralmente são as causas do rompimento de cordames sob efeito da ação da natureza. O formato da corda rasgada dava a impressão de que ela fora intencionalmente esticada até ceder sob efeito de uma força desconhecida. Quando lhe foi perguntado se ele acreditava que havia uma entidade, respondeu que não sabia se aquilo tinha forma suficiente para ser chamado assim. “O pior não foi o que vi, mas o que deixei de ver”, foi o que ele disse. Um ou dois pedaços de cordame rasgados é uma coincidência. Dezenas é causa e efeito.
— Mas, vó, e se eles fossem três loucos que contavam histórias para assustar crianças? — eu perguntei em tom de descrédito.
— Nunca vi loucos que rasgam dinheiro, certo? E mesmo que estivessem os três completamente fora de si, teriam de ter concordado em entrar no mesmo delírio, né? — Respondeu a minha vó em tom de afronta.
“Loucos só acreditam em si mesmos e nunca concordam com a loucura dos outros” — dizia ela dando as costas e indo cuidar de seus afazeres. Quanto a mim, ficava observando seu caminhar pela casa por alguns minutos pensando no que ela tinha visto naqueles dias.
Minha avó nunca disse ter visto nada além das águas subindo e indo embora. Mas, defendia incansavelmente todos aqueles que reportaram o que viram e o que não viram. Nada do que eu ou qualquer outra pessoa da familia dissesse fazia com que ela mudasse de ideia. Mesmo porque vi essa história ressurgir todas as vezes que ela e as irmãs se reuniam.
Tempos após a enchente, aparentemente a cidade retomou o ritmo. As cercas foram refeitas, as casas secaram, o ribeirão retomou seu tamanho antigo, e as chuvas fingiram inocência. A enchente entrou para os registros como um episódio de um ano estranho. Uma chuva fora de hora que se transmutou em uma lembrança contada e recontada através das épocas. Mas certas coisas não voltaram ao normal. E mesmo tendo crescido em tamanho e população e colocado asfalto e concreto onde antes havia chão de terra, madeira e palha; a cidade parece sentir como quem olha para marcas de água pelas ruas e paredes.
Alguns dizem que, por décadas, o Ribeirão Três Pontes nunca mais fez o mesmo som nas madrugadas de estiagem. Que a água corria com uma cadência irregular, como se esbarrasse em algo sólido e invisível. Outros garantem que quando o ar fica mais pesado e parado, os animais fogem desvairados daquelas margens, mesmo sem motivo aparente. Em todo o caso, quem contava a história parecia estar agindo como o ribeirão que revolve as camadas de sedimentos em seu leito a cada estação das chuvas.
Nos dias de hoje, a história da enchente do Ribeirão Três Pontes é tratada como uma antiga crença da cidade, porque nenhum acontecimento verdadeiramente lúgubre podia ser diretamente relacionado àquele fato em si. Mas, ninguém que teve contato com os antigos que viveram no tempo da grande enchente é capaz de negar que aquele ano de 1939, que trouxe água e barro, também trouxe uma mudança. Algo que não ficou visível para que pudesse virar uma lenda completa, nem ausente o bastante para ser apagado da memória coletiva dos viventes. Mas algo chegou com aquela enchente e permaneceu diluído no solo, nas árvores e no novo silêncio que, desde então, parece morar um pouco mais fundo nas cercanias do ribeirão e arredores da cidade. É o que todos parecem sentir quando estão lá.
메타데이터
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