Os Fumadores de Meninas
Por Isabela Rossi
Os Fumadores de Meninas
Por Isabela Rossi

@ Javier Malagón
Como era mesmo aquela frase? Primeiro a gente se rebela, depois estoura o champagne. Isso, se tiver champagne. Comecei a falar com fantasmas depois da primeira noite no trabalho. Eu fui aquele último cigarro na mão do capiau antes dele sair correndo do puteiro. “Menininha safada, deixa eu sentir o gosto desse seu melzinho”, o cuzão ficou repetindo a noite toda. O puteiro não era exatamente o lugar que conhecemos como casa de sexo hoje. Era um negócio menos arranjado, onde todas as primas tinham que fazer sua iniciação com algum cara topetudo do negócio da cana. Eu fui o último cigarro porque perder a virgindade era como deixar nossa alma sair pela boca do homem: na baforada. Eu e minhas primas, juntas, éramos um maço. Uma com dez anos, outra com treze e eu com quinze. Se houvesse denúncia como tem hoje, nós não denunciávamos também. A coisa era normal. Os fumadores de meninas não tinham identidade como a gente, eles, homens formados sem destino, nós meninas ainda aprendendo a falar o precipício do sim e o delírio do não. O puteiro era o nome dado ao banheiro químico dos funcionários que vinham da capital pra trabalhar no interior. No centro do nosso palco de bagas secas, o banheiro e na contracena, a beleza dilacerante de toda grande promessa: extensos canaviais alimentados por pequenos proprietários e proprietárias que viram na cana o negócio do momento pra sair da miséria da lavoura. Estavam todos errados, é claro. Se você é peão de lavoura, a lavoura cresce dentro de você como um boi machucado: e se ninguém ver o boi no meio do pasto, o boi morre na solidão, na solidão mordida por sabiás e andorinhas sem caráter. Mas o homem que matei naquela noite tinha um nome e tinha dois filhos e um cachorro de consolo. Disseram que ele foi obrigado a fazer o que fez, que foi induzido pelo álcool a acertar as contas com o demônio do passado. Quem me levou até lá foi a sedução, não foi outra coisa senão a sedução em saber como era aliviar o tempo num banheiro químico. Desde criança a gente faz cagada. Não tem como se livrar desse livre arbítrio humano… demasiadamente humano! Demasiado o caralho, ó caralho — dizem depois os jornais — sempre o mais humano! No meio da nossa paisagem idílica um banheiro químico era como um totem, foi posto por deus para ser adorado. Todos na cidade falavam disso porque a cana alimentava o comércio e o comércio, pra se livrar do tédio e da religião, se encharcava também da cana. Comecei a beber com cinco anos, meu pai colocava óleo e álcool na mamadeira, “pra proteger do medo do mundo”, ele dizia. Minha mãe tinha fugido no casamento, segundo meu pai, ela queria ser “ela queria ser uma coisa que não existe nesse mundo, queria ser livre”. Não tinha foto da minha mãe em casa pra saber se eu também queria ser livre. O que me despertou essa curiosidade, na época, foi o dia que instalaram o tótem químico perto do brasão da empresa que trazia os trabalhadores toda segunda de madrugada e depois levava embora no sábado a noite. Uns ficavam dormindo nas rodas da cidade, enfurnados num caminhão com o rótulo da coca-cola quase apagado. Faziam festas no domingo e dividiam frango congelado com a gente, quando passávamos por perto. Quem acertou o negócio com o vigia do banheiro foi um menino que tinha bicicleta, o único na cidade que tinha uma bicicleta Monarch. Ele empinava a bicicleta como se pilotasse uma moto lazarenta. Era difícil não sentir algo por ele — as primas tinham medo, eu sentia inveja — também queria levantar aquele motor pro céu e se pudesse, voar por cima do canavial, pra ver como a cana crescia rápido daquele jeito. Ele me colocou na roda traseira e levou no sábado no final do dia conhecer o tótem. Falou de tacada “tem um cabra aí, é só entrar agora”. Quando abri a porta tinha aquele homem manso e grande, com mãos pequenas. Ele fez tudo que eu não sabia que existia — tudo que eu sabia inexistente ele fez comigo, fez ser existente. Depois contou uma história da casa que tinha nascido, onde as mulheres viravam incenso na boca dos homens. “e depois que elas viravam incenso, o que elas se tornavam?”, ele me perguntou. “acho que osso”, respondi, “caldo de tutano”, “alguma coisa que fica boa com tempero”. O rapaz não disse mais nada, devia ter uns trinta e poucos anos, arrancou a calça e encostou a cabeça no meio das minhas pernas magrelas e começou a chorar. “depois do incenso, a mulher vira fantasma”, falou olhando pra mim quase sem abrir os olhos. “talvez você vire um, um dia também”. Lembrei da minha mãe repentinamente, tentando inventar um rosto para uma vida da qual nunca tive imagem. “você conhece minha mãe?”, perguntei pra ele. “ela é como um incenso”, “reza canhota no céu”, “um passarinho”, “eu acho que nunca vou virar incenso porque não quero ir pra sua cidade”, “quero ir pra algum lugar que tenha nome, como as pessoas que nos trazem no mundo tem um rosto”. Não entendi muito bem qual o peso do que disse a ele, mas foi aí que ele avançou pra cima de mim com um ódio sem juízo e mordeu meu pescoço. Doeu mais o sangue que saía do pescoço do que o sangue que saía do meio das minhas pernas. Minha loucura é feita de ar, mas meu desejo não. “Minha loucura é feita de ar, chama fogo”, “minha loucura chama fogo”, brilhei sem respirar como quem conhece a raiva pela primeira vez. Enfiei na boca dele o último cigarro do maço, ascendi com o calor da minha mão e disse, como meu pai me ensinou a dizer diante dos homens: pague o que me deve até o fim. Ele me tragou pela última vez, quase rosnando no meio daquela merda que fizemos juntos. Consegui me levantar como uma garça do brejo, pisando leve pra não afundar na merda, deixei o homem desacordado dentro do banheiro, chorando como um padre num cadafalso sem pecados e pela primeira vez destruí uma cidade inteira: encharquei com a gasolina do medo a cana seca em torno do totem químico e risquei o fósforo no resto do azedume da pele onde meu sangue não tinha corrido. Disseram depois que eu tinha queimado o homem vivo. Que eu era uma criança de manicômio e que minha cabeça era reino de adubo. Mas o que eu fiz mesmo arder foi a minha desilusão. Da terra onde nasci para o céu, eu também dei minha baforada: “virgem maria, não dilacerai os meus pecados, dê a eles um redemoinho no céu, onde eu possa brindar o inferno de ser livre como o pó”. Nos canaviais do american way of life, eu me tornei mulher, mamãe.
TODA MENINA PRECISA DANÇAR BLINDADA
Todos eles estão com fome
Alguns chegam pela fama
Outros tiram a camisa, querem mostrar
quanto vale, enfim, um peito aberto
Há, ainda, os que se doam pela recordação
do primeiro pecado de cristo
e querem reatar a sede sob um perdão que dura mil séculos
;
Alguns são pais, os nossos pais
Outros são meninos, os nossos meninos
da rua, da escola, do sexo carcomido por entre canaviais
;
“nos canaviais do american way of life, eu me tornei mulher, mamãe”
;
Filhos vestidos de marinheiros
Irmãos dividindo a marmitex da angústia e do desterro
Os Jovens Infelizes
Outros são, às 5:30 da manhã, prestes a tocar o relógio do trabalho
os amores impossíveis lambendo a tampa
de um creme dental para sorver
o último beijo
da noite sem sono
Todos eles chegam no ponto agudo do precipício
trazem abaixo dos pelos o rumor vago de um pássaro
e dentro do bolso da camisa
lubrificantes aromatizados
de uma náufraga indústria que alucina
“lá se fazem protetores com a melhor aderência”,
“li num jornal hoje pela manhã”,
“você sabia disso? pode-se gozar tantas vezes sem que tudo cheire mal”,
“tem um cheiro e tem um preço, o amor”
;
Há também os que chegam e se servem de duas taças
uma para abrir o apetite
outra que será vomitada — sob um jardim de pântanos
quando a festa acabar
;
sob o lodo é possível inventar a mansidão
do amor que morre sem espetáculo — lemos juntos em manuais de confeitaria
roçando a pele nos musgos da casa que virá aos pedaços
pelo instruído desamparo de nossas próprias mãos
;
Mas o que reescreveu a história das serpentes
transformando-as nos dragões
que demoliam com as patas manchadas de sangue a tristeza do mundo
Foi o que trouxe apenas o Corpo
ajustou o lençol sob a cama, mantendo secular o desenho amassado do vinco
como se mantém os rastros no mapa sem história
e deitou como se deita um ser vivo
no centro morto de um Vulcão
;
Este ficou
Foi este que Houve e ficou
E não havia náuseas no nome dele
ou um campo minado de certezas
nem flores recém colhidas postas sob a mesa
em oferta ao desesperado vazio que não encontra saídas,
foi este que Houve e ficou
Este sempre será lembrado
e o nome dele começava no Esquecimento
Fragmentos das cenas rurais da dramaturgia de Toda menina precisa dançar blindada. O projeto contém cenas e passagens de meninas crescendo nos interiores da América Latina, mulheres sem destino, trabalhadoras da cana, frentistas contra o fetiche da fantasmagoria, guerreiras épicas pejotizadas e literatas do próprio corpo. São cenas para um teatro que acontece na contra luz das horas, onde a rebeldia arde no próprio espetáculo de continuar viva.
SOBRE A AUTORA

Meu nome é Isabela Rossi, sou atriz e dramaturga, este é meu ofício, mas faço outros trabalhos para sobreviver. Tenho uma companhia chamada Companhia Balé de Pancadaria e nela desenvolvo, além das dramaturgias breves como em Toda menina precisa dançar blindada, o Miss Pânico Morning.project, no qual revisito o conceito de Spleen de Baudelaire para criar uma ópera da “trabalhadora do início de outro mundo” com o estudo de composição de personagem a partir do método de montagem no cinema, composição musical e de imagens que sonham no contratempo da espera, do tédio e do pesadelo do mundo do trabalho. O projeto pode ser acessado neste link:
https://www.isabelarossi.com/miss-pânico-morning-project-1
e também no instagram, na página @misspanicomorning.project
메타데이터
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