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Buraco quente

Por Ney Ferraz Paiva/ Giselle Ribeiro

Ed Caliban in Revista Caliban issn_0000311 · 2025-06-11 18:39 · 161 claps · 3.6 min read
#poesia #prosa #erótico #literatura #clausura
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Buraco quente

Por Ney Ferraz Paiva/ Giselle Ribeiro

Marcel Duchamp

Marcel Duchamp

Em meio a um mundo em guerra e ao extermínio em andamento da Palestina, é lançado o selo erótico Piranha, da editora **Garoupa*, com uma coletânea de contos e poemas escritos exclusivamente por mulheres. Buraco quente* parece ser um nome apropriado para descrever este mundo em conflito, repleto de horror (sob o peso do terrorismo de estado), porém é o título da antologia organizada por Marina Ruivo, escritora e editora da Garoupa. O livro reúne trinta e três autoras, quarenta e cinco textos em torno do erotismo. Entrego aqui o nome delas para o deleite dos que já as leem ou dos que as vão desvelar: Adriana Garcia, Adriana Mondadori, Alice Queiroz, Amara Moira, Ana Dos Santos, Anna Apolinário, Beth Brait Alvim, Carolina Montone, Catia Cernov, Cibely Zenari, Cida Pires, Cíntia Colares, Fernanda Jaber, Geruza Zelnys, Giselle Ribeiro, Helena Tabatchnik, Lara Rennó, Isabella Miranda, Kah Dantas, Leila Ferraz, Lídia Codo, Lúcia Santos, Maíra Valério, Márcia Barbieri, Maria Fentz, Marina Ruivo, Monique Prada, Ná Estima, Natália Nolli Sasso, Natânia Lopes, Sílvia Caselatto, Tereza Almeida, Yolanda Serrano Meana. Este livro não deixa de enfileirar um outro exército, com seus implícitos identitários em exercício de libertação do corpo, mamilos inflamados e a verve/vulva exposta, em posições ousadas, explorando os redemoinhos do prazer. Um antimonumento da transgressão e subversão em face de um mundo “vergonhoso”, marcado pelo ódio ao corpo expatriado, estranho, de todos, mas especialmente das mulheres, ferido pelos tantos silêncios da fala. O que aparenta ser um evento de circunstância histórica é, na realidade, uma poderosa indústria de crimes especializada em diversas formas de violência que culminam em feminicídio. Na condição de estrangeiras, essas mulheres poetas e prosadoras transformam toda língua em uma língua “outra”, que engloba não só o sagrado, mas sobretudo a transgressão e a provocação de uma escrita que se expõe a quem manuseia o livro e libidinoso vislumbra, como em Duchamp, o furo do corpo, o buraco quente da arte. Como resultado, há uma sobreposição de fronteiras, espaços, lugares e territórios poéticos, onde é possível que as mulheres estabeleçam conexões e sigam suas próprias palavras, pulsões, libidos, e formem uma literatura erótica contemporânea que não se submete nem se rende.

Abaixo seguem dois textos da poeta Giselle Ribeiro presentes na antologia Buraco quente que será lançada hoje, 11 de junho, véspera do Dia dos Namorados, às 19h em São Paulo, no Sacrilégio Bar (Av. Pedroso de Morais, 52, Pinheiros). Em seguida, a editora pretende visitar outras cidades, incluindo Brasília e Porto Alegre. Espero que chegue a Belém durante a COP30.

Ney Ferraz Paiva

A leitora

Lílie é minha parceira, minha confidente indissolúvel. Quando me lê, não gosta de janelas fechadas com cortinas e blecaute. Lílie desconfia de escritas rigorosas. Tem gosto agudo por palavras que estalam da minha boca na hora do gozo. Antes de dormir exercita, em voz alta, o meu vocabulário sujo. Não me quer pra mais nada que não seja uso e abuso.

Sem a devoção das religiosas, Lílie gosta de mim assim, encarnada na mulher selvagem. De mim não espera cura. Lílie sabe que sou ternura e fúria.

Outro dia, Lílie viajou para fora de mim, queria a redenção. Voltou sem mais espantos. Nem tudo o que ouviu dizer de mim lá fora era profano, também sei ser sagrada quando amo.

De volta aos nossos cuidados ardentes, me apertou entre as pernas e no virar das páginas, encostava mais fundo o ouvido, nos meus gemidos.

Lílie é, para mim, o sistema solar. Pra ela eu sou a mosca zumbindo o nosso mais íntimo instinto.

Ela tem desejos acesos desde o nome

Maria dos Prazeres gazeta aula para se refugiar libidinosamente na biblioteca. Frequentadora dos restaurantes finos da Brás de Aguiar, ela rouba guardanapos de algodão bordados a mão com o nome do estabelecimento. Neles escreve seu crime mais bárbaro: comer as palavras escondidas nos livros proibidos.

Fora da biblioteca, é uma moça educada, rica de pudor, de uma finesse enjoativa. Nunca bebe vinho sem antes girar a taça e cheirar aquele líquido caro.

Na biblioteca, se aventura em gozos líquidos. Gosta de sentir os dedos úmidos passando página por página. Num ritual amoroso, roça o polegar com o médio e entre eles o fogo das palavras faz estalos luminosos.

Para ela, aquelas páginas são os pequenos lábios do livro que lê.

Maria dos Prazeres cabe muito bem no nome que tem.

Quando entra na biblioteca, sabe desfrutar da sua sina, executa seu dom escafandrista, nada em seus espasmos orgásticos e sempre vê nos livros os rios: Guamá, Tucunduba e Guajará escorrerem pelas suas pernas lisas, brancas e magras.

Maria dos Prazeres é, naquela biblioteca, uma refugiada.

Longe dali, escolheu viver sem a alegria das orgias, embora faça planos de um dia viver sem punho firme, tirando a casca da aprendizagem primária. Ela quer estourar a fruição naquele mundo que vive, do lado de fora da biblioteca imaginária.

Mas se quiser ser feliz, Maria dos Prazeres terá que lamber o próprio nome em praça pública, mais nada.

Giselle Ribeiro Belém, Pará, Amazônia, 12 de fevereiro de 2025.

CAPA DO LIVRO

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