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O Agente Secreto e o “guarda da esquina”

Ainda durante a sessão de cinema uma questão me chamou a atenção no filme e que me motivou estes registros : um filme sobre o período da…

Luiz Denis Graça Soares · 2025-12-29 01:53 · 1 claps · 2.4 min read
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O Agente Secreto e o “guarda da esquina”

Ainda durante a sessão de cinema uma questão me chamou a atenção no filme e que me motivou estes registros : um filme sobre o período da ditadura militar consequência do golpe de 64 que não centra a sua narrativa no embate direto entre o aparelho de Estado e as organizações de esquerda armada, como é comum em filmes sobre o período. Pelo menos nos filmes que assisti e a memória me remete.

Enquanto não me decidia pela empreitada de escrever sobre o filme fiz algumas leituras que me apareciam na time line das redes sociais e nas newsletters que assino. Numa delas um crítico especulou sobre a presença recorrente de tubarões no filme (desejos do filho do protagonista, desenhos animados, referências visuais em Recife), sugerindo até o uso da mesma lente de gravação do filme “Tubarão”. Fico a me indagar sobre o que passa na cabeça do diretor e roteirista quando da elaboração da história.

“Pernambuquismo”: em um debate num podcast, o filme foi descrito como uma “declaração de amor a Recife”, com muitas referências locais que dificultam a compreensão de espectadores de outras regiões. Vejo isso como um aspecto positivo, afinal num pais dispar como o Brasil a criação de uma narrativa desprovida dos aspectos regionais é um desserviço à nossa diversidade cultural. Aliás os membros do podcast entendiam como positivo lembrando que já fomos obrigados a ouvir muita “piada interna” de Nova York nos filmes de Woody Allen sem sequer percebermos ou entendermos.

A Relação Predatória entre Capital e Estado Autoritário:

Mas vamos ao que interessa, do meu ponto de vista. O filme traz outras dimensões perversas possibilitadas por estados ditatoriais. À sombra do estado autoritário setores do capital de aproveitam das suas relações políticas e econômicas com o centro do poder e começam a agir com autonomia cuidando dos seus interesses imediatos quase sempre vinculados à acumulação financeira.

É o caso do empresário do setor elétrico que captura a então Eletrobrás alinhando os interesses da estatal ao interesse apenas empresarial. E mais, tentando vincular a pesquisa acadêmica a estes mesmo interesses tentando reprimir qualquer possibilidade desta pesquisa servir à autonomia nacional. Daí a perseguição ao personagem principal, não porque este tivesse qualquer militância política.

Corrupção na Segurança Pública e o “guarda da esquina”:

O filme expõe como a “banda podre” do aparato de segurança pública (polícia militar e civil) se aproveitava do autoritarismo e da impunidade para fazer negócios.

Esquadrões da morte não agiam apenas por sadismo, mas também associados a esses setores do empresariado e dos serviços de segurança pública para perseguir aqueles que se opunham ao “canibalismo” do Estado nas suas várias dimensões. A morte de um matador de aluguel no desenrolar do filme, a serviço de um empresário e contratado através da mediação de agentes públicos é um exemplo de como essas relações promíscuas eram “apagadas” quando algo dava errado.

A Rede de Solidariedade Além da Militância Política:

Por fim o filme revela também a existência de uma rede de solidariedade que não apenas protegia ativistas políticos, mas também indivíduos perseguidos por questões comportamentais (homossexuais, mulheres emancipadas).

Essas pessoas, embora não tivessem militância política formal, possuíam ideais libertários que conflitavam com o autoritarismo vigente, como até hoje. A rede funcionava como um refúgio contra a perseguição e a “justiça” arbitrária e pessoal dos agentes de segurança.

A ditadura criou um ambiente onde a violência individual, por vingança ou julgamento moral, era facilitada, e os comandantes do regime eram cúmplices ao fazer vista grossa, temendo que atitudes libertárias se transformassem em ações políticas contestadoras.

Aí reside, no meu olhar, uma das grandezas deste filme : mostrar que a violência dos regimes de excessão se manifesta para além das pessoas que o contestam ideologicamente mas atingindo aqueles que desobedecem regras morais ou apenas são desafetos pessoais do “guarda da esquina”.

29.dez.2025


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