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Caranguejo, cuscuz e bolo de rolo: a linha tênue entre abraçar a regionalidade e reforçar…

Atenção, caro leitor! O texto a seguir não é uma crítica ou um artigo de opinião, mas sim um artigo de reflexão. Dito isso, boa leitura!

Hannah Aragão · 2024-03-24 22:38 · 0 claps · 4.0 min read
#música #trap #nordeste #regionalismo #recife
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Caranguejo, cuscuz e bolo de rolo: a linha tênue entre abraçar a regionalidade e reforçar estereótipos

Crédito: Juao Takeda/ Divulgação

Crédito: Juao Takeda/ Divulgação

Atenção, caro leitor! O texto a seguir não é uma crítica ou um artigo de opinião, mas sim um artigo de reflexão. Dito isso, boa leitura!

Durante o fim de semana me deparei com uma discussão na internet. O centro do debate era se “Caranguejo do Trap”, obra do artista pernambucano Mago de Tarso, é apenas um reforço de estereótipos ou se na realidade é um abraço ao que é nosso. E apesar de certas discussões existirem somente no Twitter, segui (mesmo após fechar o aplicativo) refletindo sobre as muitas opiniões que vi ali. O assunto foi para além da timeline, pelo menos para mim, e talvez faça sentido compartilhar meus achismos.

A obra em questão, que traz referências ao dialeto, culinária, movimentos musicais e outras tantas coisas que compõem a cultura pernambucana e nordestina, vem ganhando popularidade na internet e conta (no momento em que o presente material está sendo redigido) com mais de 826 mil visualizações no Youtube e pouco mais de 532 mil streams no Spotify.

Todo esse tópico me fez rememorar outros debates das redes e trazer outros personagens para comparação. O sotaque de Duda Beat e a polêmica do “mangue money”, o preconceito com farinha engolido por Juliette que veio lá do sertão, ou o trap sem regionalismos aparentes de Matuê, que timidamente já citou o DDD do Ceará em canção. Qual é o caminho certo da representatividade regional na arte?

Como anteriormente citado, o objetivo deste texto não é emitir verdades ou encontrar respostas, mas sim incentivar reflexões. Não é sobre chegar em conclusões, mas pensar sobre o que está por trás das nossas impressões e opiniões. Não sou uma especialista do trap, nem mesmo entendedora ou ouvinte do gênero. Também não acredito que seja preciso algum tipo de letramento para opinar, afinal, o produto está disponível para todos consumirmos e consequentemente gostar ou não gostar, elogiar ou criticar, colocar no repeat ou passar para a próxima faixa.

A possibilidade da emitirmos opinião é algo lindo e que eu sempre irei encorajar. Fazer leituras mais rasas sobre obras é inerente a todos, e nem sempre postamos nas redes, por vezes só falamos em conversas, e em outros casos elas apenas surgem em pensamento. Mas assim como opinar, também defendo como válido o contraponto, a discordância e por essa razão decidi trazer minha reflexão acerca do resumo de uma obra como ‘Caranguejo do Trap’ ao estereotipado e ao medo de sermos caricatura para apreciação de sudestino.

Pode o atual rememorar o passado e não ser caricato? Ou se tem regionalidade se torna apenas mais um reforço da ideia que o “Centro” tem de nós? E por “nós” digo pernambucanos, paraibanos, baianos e tantas outras naturalidades que formam o grande e complexo Nordeste. O Nordeste, que é uma região de 9 estados e que tem sim suas particularidades em cada um deles, mesmo se unindo em muitos aspectos.

Às vezes reflito sobre como a identificação como nordestino perdeu o encanto diante da nossa necessidade de gritarmos para o resto do Brasil que somos múltiplos. Apreciaria ver admirarmos a nossa identidade nordestina como nos orgulhamos de nossa identidade latina, por exemplo. Antes somos brasileiros e diferentes dos hermanos aqui do lado, ou dos mexicanos lá na América do Norte, mas nos reconhecemos como semelhantes e nos conectamos dentro da identidade latina. Enquanto por muitos motivos a “nordestinidade” perdeu o prestígio.

“Modernizar o passado é uma evolução musical” — Monólogo Ao Pé Do Ouvido, Chico Science e Nação Zumbi.

Sendo assim, novos artistas falando de caranguejo, cuscuz e bolo de rolo sempre será sempre caricato? E o chapéu de vaqueiro e triângulo? São apenas uma forma de vender a performance do “exótico” para as outras regiões? A minha interpretação para tais indagações é: depende. E com esse “depende” quero dizer que vai de quem faz, de quem consome, das muitas intenções por trás da obra e de quais dessas intenções se destacam.

Fora tudo isso, acredito que a situação ainda vai depender de quem ganha com o produto e do que se ganha com o produto. Afinal, obras e artistas que são meras criações da indústria (com o claro objetivo de lucro) também existem e “sempre” existiram. São menos arte por isso? O que vai ser ou não arte?

E a magia das perguntas está na subjetividade das respostas.

A exemplo das canções “Tengo” ou “Bença” interpretadas por Juliette. Essas podem imprimir algo grotesco e forçado para muitos em suas referências ao Nordeste, enquanto pode tocar profundamente outros. Mas qual dessas leituras é a certa? É possível saber? Talvez. Alguma delas é uma verdade absoluta? Dificilmente. É tudo sobre a experiência. Sobre as obras da Ju, em meu entendimento e minha experiência chego na interpretação de que soa caricato e bastante mercadológico por inúmeras razões, mas não é possível se ter controle sobre algo que é tão individual quanto a experiência do ouvinte.

Então deveríamos deixar tudo como era no passado e somente validar os veteranos das cenas?

Fato é, que as novas gerações parecem acreditar que para saudar nossas raízes, precisamos ir ao passado consumindo obras que datam pelo menos uns 30 anos, se o artista não estiver mais em atividade, o ouvinte se torna ainda mais “cool”. Aquele famoso “aquilo sim que era cultura” e a completa banalização e diminuição do contemporâneo. A tosca e superficial leitura de que música precisa ser como vinho (os mais antigos e mais caros são os melhores) e assim vemos tudo o que não vem do erudito ser colocado também às margens do que é arte ou do que é bom.

Recife ainda é o mangue (mesmo com a destruição do bioma), cuscuz ainda é um prato representativo (mesmo que eu particularmente não goste ou que não faça parte da sua dieta) e bolo de rolo é patrimônio imaterial de Pernambuco. Não somos só isso, mas me agrada ser representada por tais.


메타데이터
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