Ao menos os caras atendem bem
Sempre fui um bocado ambivalente em relação ao tanto que se critica o atendimento e a prestação de serviço na cidade do Rio de Janeiro.
Ao menos os caras atendem bem

Sempre fui um bocado ambivalente em relação ao tanto que se critica o atendimento e a prestação de serviço na cidade do Rio de Janeiro.
Por um lado, a gente precisa reconhecer que, bem, é meio complicado mesmo. É o garçom que precisa ser chamado com um gestual mais agressivo do que o de manobrista de avião; o corretor de imóveis que marca quatro visitas pro mesmo horário, chega com meia hora de atraso e responde qualquer pergunta sobre o apartamento com “é o que tá lá no site”; o cara da barraca da praia que, muito antes desses conceitos se tornarem populares, já misturava preço dinâmico e tarifaço, com um combo de cadeira e guarda-sol que pode variar de 25 a 500 reais dependendo do dia, horário, sotaque, nacionalidade, forma de pagamento.
Mas pelo outro lado, temos que admitir que existem contexto e atenuantes. Uma vez vi uma senhora perguntando a sério pro cara do pastel na feira quantos camarões tinha em cada pastel e chamando ele de incompetente quando ele não soube responder; é meio pegado cobrar simpatia e bom humor de gente que tá ganhando menos que você pra trabalhar bem mais horas e num trabalho mais cansativo que o seu; o que muita gente às vezes considera “bom atendimento” acaba tendo mais a ver com uma postura mais subserviente ou um anseio maior por agradar, o que não é exatamente o perfil do carioca, como ficou claro pra mim no dia em que cheguei na padaria pra comprar um frango assado, perguntei pro cara do balcão e ele disse “vai naquele cara ali e fala frango pra ele”, e aí cheguei lá, olhei pro cara, falei “frango?” e a resposta dele foi “não é porque eu sou magrelo que já pode chegar esculachando, irmão”.
Então na questão do atendimento e da prestação de serviço no Rio de Janeiro se cruzam questões que vão desde temperamento e senso de humor, com o carioca sendo um povo bem mais informal do que o de estados vizinhos; passando por atritos sociais presentes em toda relação de interlocução comercial entre pessoas de classes sociais diferentes; e chegando até mesmo a aspectos históricos da formação da cidade do Rio de Janeiro, antiga sede da Corte, com certos idosos de classe média da zona sul carioca claramente acreditando que qualquer atendimento num padrão diferente daquele oferecido durante os 27 anos do período pombalino é falta de respeito e cadê Dom José I que não faz nada? Tudo culpa do PT.
Mas por mais que eu seja um dos maiores apologistas da prestação de serviço carioca que essa cidade já conheceu (o vendedor de praia cobrando mais caro de quem tem outro sotaque é um amante da própria regionalidade, a caixa do supermercado não é grosseira mas sim fiel aos seus sentimentos, se eu reclamar do mestre de obras que abandonou a construção no meio porque fugiu com a mulher que conheceu no forró eu tô colocando uma pilha de tijolos e argamassa como algo mais importante do que o amor, que a paixão) é necessário reconhecer que a revelação de algumas das principais padarias de São Paulo são na verdade fachada para atividades criminosas do Primeiro Comando da Capital me pegou um pouco no contrapé.
Não por qualquer comparação entre o nível de eficiência do crime paulista em comparação com o crime carioca — quem somos nós pra dizer o quão organizado o crime organizado tem o direito de ser? — mas porque não estava preparado pra não apenas já ter frequentado uma das panificadoras operadas pelo PCC como ela realmente ter maior variedade de produtos, melhor qualidade de comida e um atendimento mais eficiente do que o de grande parte das padarias que frequento no Rio de Janeiro.
Porque tudo bem regionalidade, muito justo ter questões culturais, absolutamente compreensíveis os impactos sociais decorrentes do contexto capitalista. Mas quando a gangue de bandidos tá conseguindo, no tempo livre que sobra depois de um dia todo de crime forte, manter uma padaria que funciona melhor do que a sua, pode ser sim o caso de repensar uma ou outra coisa. Zero intenção de fazer média com paulista, mas aí o Rio de Janeiro pode ter dado uma vacilada mesmo.
메타데이터
- post_id
- dbf477fcd39e
- slug
- ao-menos-os-caras-atendem-bem-dbf477fcd39e
- url
- https://medium.com/@joaoluisjr/ao-menos-os-caras-atendem-bem-dbf477fcd39e
- canonical_url
- https://medium.com/@joaoluisjr/ao-menos-os-caras-atendem-bem-dbf477fcd39e
- author_url
- https://medium.com/@joaoluisjr
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-06-27 07:40:21