A transformação do perfil do profissional de saúde em relação a implementação de Processos de…
Transformar conceitos, construir novos pensamentos, apagar antigas idealizações e as substituir por algo novo, são verdadeiras ferramentas…
A transformação do perfil do profissional de saúde em relação a implementação de Processos de Qualidade e Segurança do Paciente na Atenção Primária à Saúde

Transformar conceitos, construir novos pensamentos, apagar antigas idealizações e as substituir por algo novo, são verdadeiras ferramentas de transformação social, pessoal e profissional, além de ser um grande desafio para se colocar em prática.
Muitos profissionais da área da saúde pública, trazem em seu escopo de vivências, uma grande bagagem teórica e de conhecimento do processo de trabalho local e de práticas de atuação em saúde nos territórios da área de abrangência das Unidades Básicas de Saúde (UBS).
Por muito anos, esses processos territoriais são regidos por Protocolos de Saúde, Cadernos Técnicos por linhas de Cuidado, Programa de Vacinação entre outros programas e Políticas Públicas no Município de São Paulo, com regras, métricas e metas que direcionam para melhoria da qualidade de saúde do SUS, onde o não atingimento das metas, resultam na perda de qualidade no seguimento de cuidado desses usuários, cascateando em muitas vezes para desfechos clínicos não favoráveis.
Quando saímos do olhar territorial de práticas, atrelados aos documentos técnicos municipais em saúde e miramos o nosso olhar para os processos internos de uma UBS, questiono se existe algum arranjo interno que rege uma organização local e que norteiam as rotinas para além de nomear profissionais para tarefas específicas, de acordo com as suas atribuições, dentro de uma escala mensal, rotativa e muitas vezes imutáveis para o processo “não se perder”.
Será que esses arranjos geram reflexões críticas dos profissionais sobre a tarefa que executam?
Quando os processos internos são baseados apenas em tarefas e cargos, pouco discutidos, pouco revisados e pouco integrados entre as áreas, tornam-se frequentes a perda de informação nas transições entre setores, o retrabalho, os atrasos, as falhas de comunicação e as decisões clínicas desconectadas do fluxo real do paciente.
Seguindo a linha do tempo da implantação dos processos de qualidade no Município de São Paulo tivemos a normatização da Portaria SMS nº 237/2024 e que foi desenvolvida num cenário de implementação em larga escala da acreditação ONA nas UBS, iniciado em 2023, integrando um contexto de avanço institucional das Organizações Sociais de Saúde (OSS) na gestão da qualidade e segurança na Atenção Básica em São Paulo, sendo essa trajetória técnica e programática um elemento de base para a organização, interações entre áreas (farmácia, enfermagem, saúde bucal e área médica) e fortalecendo as áreas de Educação Permanente e a implementação do setor de gestão da qualidade e segurança nas OSS e se disseminando em toda a rede.
Neste contexto, temos o grande desafio de quebrar antigos conceitos e minimizar a resistência de alguns profissionais de saúde frente às mudanças.
Muitos deles trazem no escopo de fala inicial a seguinte frase:
“Eu sempre fiz esse processo assim”
Contudo, o “sempre” não é absoluto. Até o instante que antecedeu as alterações e as novas implantações, tais processos vinham sendo conduzidos sem as análises necessárias, sem o devido mapeamento do processo e sem o mapeamento de riscos.
A implantação de processos de Qualidade e Segurança do Paciente exige uma transformação no perfil do profissional de saúde, que precisa deixar de atuar apenas de forma fragmentada, baseada em tarefas e rotinas fixas, e passar a se enxergar como parte de processos integrados, reflexivos e orientados ao percurso real do paciente, sob pena de manter um modelo que produz falhas, retrabalho, perdas de informação e piores desfechos clínicos.
Vale ressaltar que um dos pontos chaves para se chegar ao objetivo é a atuação articulada pelo corpo gerencial, das lideranças locais e seus liderados de forma setorial e que precisa colocar em prática a comunicação efetiva e monitoramento dos processos.
Alguns estudos demonstram as mudanças de leitura sobre o processo e na postura frente acreditação:
“ Promover satisfação e reconhecimento profissional, padronização de processos, consolidação de programas de educação continuada e fortalecimento da segurança do paciente” (1)
“Processos de acreditação beneficiam explicitamente a equipe de enfermagem, elevando autoestima profissional, fortalecendo trabalho em equipe, promovendo crescimento profissional e aperfeiçoamento de funções de gestão” (2)
“Profissionais percebem que acreditação influencia positivamente a cultura organizacional, promovendo cooperação, desenvolvimento de habilidades e enfoque em qualidade e satisfação do paciente” (3)
Ter otimismo e acreditar na mudança das pessoas frente a desafios são a força motriz deste processo. Como afirma Eugênio Vilaça Mendes (4), o SUS não é um problema sem solução, mas uma solução com problemas. Mas a superação de seus problemas não será fácil, nem rápida, nem barata.
Da mesma forma, Ricardo Arcêncio (5) não tem dúvidas de que a APS é a solução das crises dos sistemas de serviços de saúde. Quando ela é implementada com qualidade, profissionais qualificados, motivados e com todos os recursos necessários, traz grande impacto sanitário pelo investimento que se faz na promoção da saúde e prevenção, e reduz substancialmente o número de internações, o que tem impacto financeiro positivo no sistema de saúde.
Passo a passo, fase a fase, de POP a POP, mais uma Certificação conquistada em equipe.
Como eu sempre digo, após um desafio superado:
Seguimos.
Julio Eduardo Pereira de Souza
(Mestre em Ciências da Saúde e Supervisor Técnico de Saúde- Associação Saúde da Família -Coordenação Regional Sul- São Paulo/SP- Brasil)
Fontes:
(1) Nascimento, J. C. M., Gravena, A. A. F., & Machinski Júnior, M. (2021). Acreditação hospitalar como ferramenta para a gestão da qualidade no Brasil: características, avanços e desafios. Revista de Administração Hospitalar e Inovação em Saúde, 17(4). DOI:10.21450/rahis.v17i4.6347
(2) Souza, I. G. et al. (2015). Os benefícios do processo de acreditação hospitalar para o trabalho da equipe de enfermagem. Revista Brasileira de Saúde Funcional, 4(1). DOI:10.25194/rebrasf.v4i1.700
(3) Babakkor, M. A. (2023). Accreditation impact on quality of healthcare organization services and culture in a tertiary hospital. Saudi Journal of Health Systems Research, 3(1–4).
(4) MENDES, Eugênio Vilaça. As redes de atenção à saúde. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde, 2011.
(5) ARCÊNCIO, Ricardo Alexandre et al. Avaliação da atenção primária à saúde e seus impactos nos sistemas de serviços de saúde. Revista Latino-Americana de Enfermagem, Ribeirão Preto, v. 20, n. 4, p. 1–9, 2012.
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