a dança do corpo entre estações: do verão ao equinócio de outono
as chuvas de verão vão se intensificando para dar indícios de que todo verão tem que ter seu fim: tem dia que ela vem branda e passageira e…
a dança do corpo entre estações: do verão ao equinócio de outono

as chuvas de verão vão se intensificando para dar indícios de que todo verão tem que ter seu fim: tem dia que ela vem branda e passageira e tem dia que ela permanece intensamente. Noutros dias faz um sol belíssimo, bem veranino, com aquele calor bom de colocar o corpo na rua até plena noite de lua cheia. No outro dia vem um vento e um céu de fim de tarde com cara daquele azul mais fresco de outono.
Nesses dias, entre o final do verão e o início do outono (em torno de 18 dias antes do equinócio, como diz a Medicina Chinesa) poderíamos falar que estamos numa entre-estação, que mistura as características tanto do verão quanto do outono. São dias mais confusos e movediços, de não saber bem o que comer, como se vestir e quando acordar. Na feira orgânica tem poucas opções de alimentos, porque no meio de tanta chuva e de tanto sol, até as plantas estão confusas e com sua energia recolhida.
Há uma acidez insistente no ar, entre a umidade e o calor, onde tudo prolifera e fermenta.
O dia não chega mais tão rápido, e quando dá seis da manhã ainda está levemente escurinho. Aquela energia efusiva que é movida com os primeiros raios de sol que chegam mais cedo e vão embora mais tarde, deixando tudo com um ar faiscante e movediço, começa a se despedir. A força do verão é explosiva, é brotamento em tudo quanto é canto e a gente quer botar mais lenha na fogueira de qualquer fagulha. Entretanto, a consistência e o aprofundamento é pequeno. De acordo com o Ayurveda, o sabor predominante no ar é justamente a picância, há quentura e secura em tudo.
E aí vem chegando o outono, com sua luminosidade mais branda, pedindo um acordo mais firmado entre os dias e as noites, nos convidando a equilibrar mais nosso Sol com nossa Lua interna, para que possamos colocar mais energia no mundo interno depois dela ter se dispersado entre todas as festividades, noites pouco dormidas, viagens intermináveis, bloquinhos carnavalescos e afters sem fim.
Aqui as coisas ganham um sabor mais azedinho, com a entrada de um pouco de terra no meio do fogo. A energia da terra é de mais consistência e densidade. Saímos do auge do verão (nomeado como grisma para o Ayurveda) e entramos na entre-estação chamada varsa, que antecede ao outono, que será sarad).
O verão é para inimigos do fim, mesmo que virar a noite custe muito da nossa vitalidade — principalmente por causa da característica mais quente e seca do verão — a leveza do corpo sempre faz a gente acreditar que dá pra colocar mais energia nas coisas. Já a entre-estação faz pesar o corpo. A chegada do elemento terra nos convida a voltar para casa mais cedo, definir melhor o roteiro, fazer escolhas entre um rolê e outro, e colocar energia mais intensiva onde você decide que é gostoso e cuidadoso para se permanecer: um projeto, um relacionamento, uma pesquisa, etc.
Se no verão é possível dispersar energia entre coisas incertas e outras muito desejadas, a proximidade do outono e seu firmamento trazem coragem para delimitar, estruturar e principalmente, confiança para finalizar. Por que o final do ciclo, inevitavelmente, virá com o inverno.
Se o verão quem reina é Deméter, com as festividades da fertilidade, o outono é dos mistérios dionisíacos.
Dentro da ciclicidade do corpo que sangra, verão traz a energia representada por nossa fase fértil, materna e geradora. É quando nosso corpo está em pura potência e tudo fervilha. Já o outono é o pré-mestrual da jovem feiticeira, que conduz à maturidade e introspecção. Por aqui a criação ainda fervilha, mas há o aparecimento de uma energia mais intensiva, seletiva e silenciosa no corpo que acolhe -muito mais a partir da intuição do que da sensorialidade — aquilo que se faz necessário e que realmente alimenta corpo e alma.
A tendência é que essa energia intensiva, de aprofundamento, só se expanda do outono ao inverno, ou seja, até que nossa anciã apareça, trazendo a metáfora da morte e do renascimento através da menstruação.
Observe as mudanças que cada estação faz firmar em seu corpo. Observe que vivemos muitos ciclos dentro de ciclos. Para pessoas que sangram, há o ciclo menstrual mensal, há os ciclos das estações e há os ciclos da lua. Uma dança infinita, que nos convoca ao estado de presença para mantermos a saúde e a conexão com o cosmos. Observe nessas passagens do tempo, das mutações do sol e da lua, das águas internas, como oscilam as funções da mente, dos afetos e da capacidade digestiva. Apartir dessas observações seu corpo vai te ensinando a firmar ajustes: o que comer, como firmar um rotina, como cuidar do corpo, como manter a imunidade, etc.
para ouvir,
caetano veloso cantando "chuvas de verão".
Imagem retirada do livro Símbolos y alegorias de Matilde Battistini (2002).
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