Luto e limite
O envolvimento emocional — seja ele qual for — exige um trabalho de luto.
Luto e limite
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O envolvimento emocional — seja ele qual for — exige um trabalho de luto. Quem nunca sofreu ao brigar com uma amizade querida e enfrentar a sua perda, por exemplo? Ao analisar como a psiquê humana interage consigo e com o outro, percebi que o luto e o limite são certezas em toda relação. Talvez por isso há quem os tema profundamente.
Hoje a tarde, dirigindo pela cidade, comecei a me questionar sobre como cuidar e proteger meu corpo e emocional. O trânsito estava movimentado e eu andava devagar. Lá adiante no cruzamento, vi que estava passando o trem. Parei, olhei, escutei. Segurando o carro na embreagem, me perguntei "como é possível se relacionar com alguém sem passar por algum tipo de sofrimento?" e, anos de psicanálise me devolveram o que me deixou matutando o caminho de volta pra casa inteiro:
Não é possível.
Toda relação humana exige um trabalho de luto psíquico, por que tudo acaba. A pergunta não é "como não sofrer", mas sim, "como aprender a elaborar o luto psíquico sem deixar de experienciar as partes boas da vida".
O trem passou, a fila de carros andou. Eu ia pra casa depois de uma conversa profunda com minha melhor amiga. Quando pude, fiz uma curva para a esquerda e, sem aviso, ocorreu-me que a vida acaba. Não há como escapar da entropia, e esse princípio se estende para várias esferas da vida humana. O luto é a dor do limite. Do “não”. Do fim. Mas o limite também nos lembra que a vivência da vida precisa de cuidado e proteção. O tão temido “não” é o que nos permite viver. O limite é uma expressão do cuidado.
E ali estava eu, depois de tantos anos e livros e estudos sobre como tudo isso funciona, desde da concepção filosófica até psicanalítica, negociando comigo mesma a necessidade de encarar o sofrimento e o fim. E não é um fim específico, não falo de romances, falo de qualquer fim. Hoje eu vejo que qualquer limite requer a elaboração da perda e a crença de que o que se tem em troca é valioso. Quando eu decido parar de fumar o prazer do vício me é retirado, mas a fé em um corpo mais saudável me alimenta.
Epicuro já dizia que há prazer no limite. Há prazer na moderação. E talvez a chave para atravessar o luto seja a moderação. Pouco nessa experiência humana se controla, mas muito se aprende consigo e com os outros. Há paz em compreender em um nível psíquico, quase que visceral, que o luto existe independente da minha vontade e que o limite me cobra mais cedo ou mais tarde. E pensar que eu poderia passar a vida toda sem me dar conta disso.
Estacionei o carro em frente a minha casa. O dia está nublado, fechado, mas a temperatura está agradável e eventualmente aparecem alguns raios de sol. Tranco a porta do meu carro e penso, enquanto cruzo a rua: "pois, não tem como contornar, o luto a gente atravessa". O sofrimento corta, mas passa. Se tudo que é bom termina, a certeza é que também há limite para a dor. Suspiro e derrubo minha chave, "eita, do chão não passa!" penso. Encaro ela caída por alguns instantes. Apanho-a e abro o portão.
Ser humano é bom demais.
메타데이터
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