Produtividade: em nome de quê (e/ou de quem)?
“Se eu pudesse recomeçar, teria mais pressa de viver do que de ser produtivo.”Rubem Alves, em “Se eu pudesse viver minha vida novamente”
Produtividade: em nome de quê (e/ou de quem)?

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“Se eu pudesse recomeçar, teria mais pressa de viver do que de ser produtivo.”Rubem Alves, em “Se eu pudesse viver minha vida novamente”
Byung-Chul Han, em “Sociedade do Cansaço”, afirma que “a sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho.”[1] Nesse contexto, nos fala do ‘sujeito de desempenho’, que se entrega “à livre coerção de maximizar o desempenho.”[2]
Trabalhar é ato essencial à vida — mas não a resume.
Em um vídeo que se tornou bastante popular, na Internet, reproduzido e compartilhado em diversas plataformas[3], o ex-Presidente uruguaio Pepe Mujica nos lembra de que “A vida não é só trabalhar”, destacando a importância de que cada um de nós reserve ‘um bom capítulo’ para as ‘loucuras’ que tivermos em nós.
Equilíbrio. A história mostra o quanto somos bons em nos distanciar dele, alternando entre extremos, em movimentos pendulares.
Chiaroscuro. Luz e sombra. Sons e silêncios. Sim e não. Contrastes. Yin e Yang. Dualidade.
De repente, vemo-nos imersos em um mundo mais e mais controlado por visões que refutam as diferenças, a pluralidade, a complexidade intrínseca à existência humana — e adoecemos.
Burnout. Depressão. Saúde mental (ou os danos causados a ela). Pautas cada dia mais recorrentes em nosso tempo.
A correlação entre essas pautas e o cenário descrito por Han é evidente. Por isso mesmo, ele caminha, no final dessa obra, no sentido de reconhecer a necessidade de revitalização da ‘vida contemplativa’ para que possamos reencontrar equilíbrio.
Em “O ato criativo”, Rick Rubin, ao falar da produção artística, observa que “Viver como artista é um modo de estar no mundo. Um modo de interpretar. Uma prática de atenção.”[4]
Estar no mundo. Uma prática de atenção. Ideias que traduzimos, aqui, em presença.
A velocidade com que tudo nos atravessa e nos atropela, nas mais diversas frentes do nosso cotidiano, atua como inimiga poderosa do ‘contemplar’, do ‘prestar atenção’.
Contemplar, prestar atenção; ações que só se pode desenvolver estando presente. Outra dessas ações? Questionar.
Por exemplo: A quem interessa, de fato, uma ‘evolução’ que vem adoecendo as pessoas e, a passos largos, tornando-as mais e mais ‘supérfluas’ para o propósito primordial de aumentar a produtividade? Em nome de que (e/ou de quem) isso vem sendo ‘normalizado’?
Não podemos abrir mão de fazer perguntas como essa; em sentido mais amplo, não podemos abrir mão de questionar um sem número de ‘verdades’ e de ‘fatos consumados’ que nos são vendidos diariamente — ainda que bem poucos deles nos pareçam razoáveis.
Objetivamente, precisamos reaprender a conversar, a nos conectar, sem a mediação de telas, redes e algoritmos. Ninguém disse que seria fácil. Nunca foi.
[1] HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Trad. Ênio Paulo Gianchini. Petrópolis, RJ: Vozes, 2024, p. 21.
[2] HAN, Byung-Chul. Op. cit., pp. 27–28.
[3] V. https://www.instagram.com/reel/DXyynBgje_H/
[4] RUBIN, Rick. O ato criativo. Trad. Beatriz Medina. Rio de Janeiro: Sextante, 2023, p. 11.
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