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Por que a pipoca é o lanche oficial dos cinemas?

Após a Grande Depressão, o snack caiu no gosto do público e tornou-se um ícone nas salas de exibição

Pedro Augusto Ramos · 2026-01-22 19:06 · 1 claps · 4.3 min read
#cinema #oscars #pipoca #história #filmes
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Por que a pipoca é o lanche oficial dos cinemas?

Após a Grande Depressão, o snack caiu no gosto do público e tornou-se um ícone nas salas de exibição

Está oficialmente aberta a temporada de premiações do cinema. Com a entrega dos prêmios do Critics Choice e do Golden Globes e o anúncio dos nomeados do Oscar (que diga-se de passagem, o Brasil deu um show), o mundo do audiovisual volta a ocupar o centro das conversas. Os títulos ganham maior projeção, os olhares curiosos se espalham e muita gente decide sair de casa para assistir ao filme que acabou de ser premiado e/ou indicado.

Ao chegar ao cinema, o ritual (podemos chamar assim) geralmente é o mesmo: pegar os ingressos na bilheteria, dar uma passadinha rápida na bombonière e pedir um lanchinho que, quase sempre, é a pipoca.

Mas você já parou para se perguntar por que ela é sempre a escolhida?

A resposta é simples: praticidade e dinheiro. A pipoca é um lanche tradicionalmente barato, fácil de preparar, de comer no escuro e não interfere em nada na experiência do filme. Ao mesmo tempo, é altamente lucrativa.

Cinema e pipoca são sinônimos hoje, mas, até a década de 1920, a realidade era outra (Foto: Peter Stackpole/The LIFE Picture Collection/Shutterstock)

Cinema e pipoca são sinônimos hoje, mas, até a década de 1920, a realidade era outra (Foto: Peter Stackpole/The LIFE Picture Collection/Shutterstock)

**Segundo dados divulgados pela Cinemark, no primeiro trimestre de 2024, a margem bruta das concessões (os produtos vendidos nas bombonières) chegou a 80,3%**. Esse percentual supera com folga a rentabilidade dos ingressos, cuja margem gira em torno de 47%, e ajuda a explicar o porquê de a pipoca ser uma “mina de ouro” para as salas de cinema.

Em 2016, uma reportagem da Gazeta do Povo apontou que a margem de lucro da pipoca poderia chegar a 10.000%, pois o produto é adquirido por peso e comercializado por volume. Ainda assim, essa relação entre o snack e o cinema nem sempre foi tão próxima (muito menos tão lucrativa) quanto parece hoje.

O CINEMA E A PIPOCA NEM SEMPRE FORAM MELHORES AMIGOS

Nos primeiros anos do cinema, assistir a um filme era um privilégio restrito a uma pequeníssima parcela da sociedade. As produções ainda eram mudas e dependiam de intertítulos para o desenvolvimento da narrativa, exigindo do público a capacidade de leitura, fator que, de cara, tornava a ida um elemento de exclusão social em um período em que a alfabetização não era amplamente difundida.

As salas de exibição também refletiam esse caráter elitizado. Elas buscavam reproduzir a imponência dos grandes teatros dos Estados Unidos e da Europa. Em um ambiente marcado por tanto luxo e glamour, não tinha espaço para lanches como pipoca, que poderiam atrapalhar a experiência e tirar a atenção dos espectadores.

Em seus primeiros anos, o cinema era mudo e restrito às elites; muitos espaços contavam, inclusive, com acompanhamento de pianistas ao vivo (Foto: Fetiche de Cinéfilo)

Em seus primeiros anos, o cinema era mudo e restrito às elites; muitos espaços contavam, inclusive, com acompanhamento de pianistas ao vivo (Foto: Fetiche de Cinéfilo)

Os proprietários das salas argumentavam que o lanche provocava sujeira excessiva, dificultava a limpeza das poltronas de veludo e do chão acarpetado e deixava odores fortes no ambiente, já que ainda não existiam sistemas de ventilação adequados.

Mesmo após se tornar mais acessível ao grande público, com a chegada do som e registrando mais de 90 milhões de espectadores semanalmente, a resistência aos quitutes permaneceu. O que mudou, no entanto, esse cenário foi a Grande Depressão.

QUANDO A PIPOCA E O CINEMA SE TORNARAM UMA COISA SÓ

Enquanto era rejeitada nas chiques salas, a pipoca já tinha seu público fiel em outro lugar: nos parques, nos circos e nas feiras. No final do século XIX, com a invenção da primeira máquina comercial de pipoca por Charles Cretors, o lanche se mostrou ideal para eventos ao ar livre, podendo ser produzido em grande escala, sem a necessidade de uma cozinha, algo inviável, até então, para alimentos como a batata frita.

Em 1929, a quebra da Bolsa de Valores de Nova York marcou o início de um dos períodos mais críticos da história econômica dos Estados Unidos: a Grande Depressão. Com a crise, o consumo despencou e muitos negócios faliram. Ainda assim, o cinema se manteve como uma das formas de entretenimento mais acessíveis da época.

Foi nesse contexto que os proprietários das salas passaram a observar o sucesso dos vendedores de pipoca que ficavam próximos às portas dos cinemas. Por causa do valor acessível do milho e do fácil preparo, o petisco acabou sendo incorporado oficialmente às salas de exibição.

Com a popularização dessas máquinas, passou a ser possível produzir mais lanches em menos tempo (Foto: Arthur Rothstein/Farm Security Administration/Shorpy)

Com a popularização dessas máquinas, passou a ser possível produzir mais lanches em menos tempo (Foto: Arthur Rothstein/Farm Security Administration/Shorpy)

Conforme explica a CNN Portugal, **em alguns pontos de venda o saco de pipoca custava entre 5 e 10 centavos de dólar**, o que tornava o lanche ainda mais convidativo para o grande público.

Na ocasião, um gerente de uma franquia de cinemas dos EUA decidiu reduzir o preço dos ingressos e passou ele próprio a vender os lanches na entrada das salas, e o resultado foi surpreendente para o mercado da época. Mesmo perdendo dinheiro com os bilhetes, conseguiu faturar mais de 20 mil dólares com a venda de pipoca, o equivalente a mais de 300 mil dólares na cotação atual.

Não por acaso, já na década de 1940, a pipoca e o cinema eram "melhores amigos", com mais da metade dos snacks vendidos nos EUA vindo das salas de exibição.

Anos depois, com a popularização da TV e, posteriormente, do VHS e do DVD, o público passou a consumir filmes dentro de casa. Em resposta, a indústria alimentícia desenvolveu versões de pipoca que imitavam as vendidas nas bombonières, com bastante manteiga e sal na medida certa, levando para o ambiente doméstico o cheirinho característico das salas de cinema.

PIPOCA NÃO É SÓ PARA ENCHER A BARRIGA

O lanche mais emblemático das bombonières ultrapassa o simples ato de se alimentar. A crocância, o sabor e o cheiro característico das salas de cinema ajudam a construir uma experiência sensorial que se soma à própria fruição do filme.

Hoje, a pipoca aparece em versões que vão além da tradicional combinação de sal e manteiga. O cardápio das salas aposta em sabores como chocolate, caramelo, queijo, bacon e outras tantas variações, numa tentativa de atualizar o petisco sem romper com a tradição.

Seja na poltrona do cinema ou no sofá de casa, assistir a um filme continua pedindo uma pipoquinha, com sal e bastante manteiga ou coberta de chocolate. O fato é que, sem ela, o ritual de ir ao cinema parece incompleto.


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