A plenitude da vida numa caminhada de domingo
Fiz esse texto ouvindo esta música aqui
A plenitude da vida numa caminhada de domingo

Foto tirada daqui
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Era um domingo de manhã. Coloquei a meia, calcei o tênis. Era preciso me movimentar. Máscara ajustada, álcool no bolso. Segui meu rumo. Fui caminhar no parque perto de casa, conhecido pelas suas belas e robustas jaqueiras. Fiz meu alongamento e entrei na pista.
Contemplei o céu. Havia um prenúncio. Estava azul, mas cheio de nuvens amigas, querendo dar as mãos para molhar o mundo. Era o mês dos ventos, as árvores pareciam me dar as boas-vindas. Senti a plenitude tomando conta de mim.
Para muitos, poderia ser só mais um espaço para se exercitar, mas era meu universo particular, onde eu me encontro, me escuto e percebo o divino em cada pedaço de terra, flores, galhos e pássaros. A cada curva, observava todo aquele oásis, em meio ao caos urbano. Mentalmente, dizia olá para cada arbusto ou árvore, que eu já conhecia, e muito prazer para as que nunca tinha visto. Fui apreciando cada tronco desgastado e retorcido, e até as folhas secas caídas no chão.
Os caminhantes e corredores iam passando à minha volta. Eu apenas acompanhava. Anos atrás, quando eu era uma frequentadora mais assídua, podia ver seus rostos. Agora, com as máscaras, eram indivíduos sem identidade. Já não era possível reconhecer ninguém. Era surreal. Parecia cena de um blockbuster catástrofe.
Olhei cada detalhe. Era a vida acontecendo. Acelerei o passo. Pessoas caminhando, outras correndo. Homens, mulheres, jovens, moços, magros, gordos e atléticos. Uns com proteção, outros sem. O que haveria por trás daquelas máscaras? Qual a história que cada um teria para contar? O que estariam pensando enquanto davam seus passos curtos ou acelerados?
Na pista paralela, uma jovem mãe passeando com seu bebê. Tinha o ar de cansada e o olhar longe. Do lado oposto, um casal sentando numa toalha vermelha, na grama. Entreolhavam-se apaixonadamente. Respirei fundo. Passei pelo parquinho. Os pequenos corriam, gritavam e brincavam livres e soltos. Próximo a um canteiro de flores, uma gestante fazendo sua sessão de fotos em um cenário montado. À minha frente, quatro senhores idosos juntos. Pareciam ser amigos de longa data.
Pela segunda vez, um jovem rapaz passou por mim, no contrafluxo. Correndo sem proteção, deixava à mostra sua beleza e sua imprudência. Alguns metros depois, um grupo de corrida com suas camisetas iguais. Alguns com fone de ouvido. Mal sabiam o que perdiam. Deixavam de escutar o som da vida, das folhas esvoaçando, das crianças, dos passos, das respirações ofegantes e as conversas paralelas. Das vozes que se aproximavam e iam se perdendo ao longe. Histórias partidas.
Passei pelo meu canteiro preferido, o dos jasmins. Impulsivamente, respirei fundo na tentativa de sentir o perfume. E me dei conta que não era possível. A máscara não permitia. Logo fui tomada por uma certa emoção. Agora, não era possível perceber seu sublime aroma.
Uma brisa bateu forte nos meus cabelos… Os galhos pareciam bailar e se abraçar ao sabor do vento, como uma ciranda. Os primeiros pingos desceram repentinamente e a chuva caiu para lavar nossas almas. Fechei os olhos, sorri e continuei. Apenas agradeci. Era um privilegio estar ali contemplando toda aquela beleza.
Desafio #001ago #simplicidade
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