Review: Jasão e os Argonautas
Numa tarde ociosa de domingo, navegando entre os títulos da Netflix (aliás, a interface dessa gigante dos streamings é a melhor — e tem que…
Review: Jasão e os Argonautas
Numa tarde ociosa de domingo, navegando entre os títulos da Netflix (aliás, a interface dessa gigante dos streamings é a melhor — e tem que ser, já que você gasta mais tempo escolhendo o que ver do que efetivamente consumindo conteúdo...), foi-me sugerido assistir a *Jasão e os Argonautas. Eu dei o play meio que para ter um ruído de fundo* enquanto mexia no smartphone. Mas fiquei surpreendentemente entretido.

Sim, vou falar de um filme de 1963. Pra você ter ideia, é o ano em que minha mãe nasceu. Mas justamente por isso existe uma boa chance de que você não o tenha visto — apesar de, provavelmente, já ter ouvido falar seja da própria película, seja de alguma cena em específico. Eu mesmo não me lembro de já tê-lo assistido antes dessa oportunidade.
A sinopse que encontrei no Google é a seguinte:
Baseado em um mito da Mitologia Grega, o filme conta a história de Jasão, que, após retornar para sua casa de uma viagem de 20 anos, deve encontrar um mágico velocino de ouro para reconquistar seu trono. Assim, ele lidera uma equipe, que inclui o heroico Hércules, para ir atrás do artefato, enfrentando perigos enormes como um gigante feito de bronze.
Pra começar, não se pode comparar esse filme com produções atuais. Na verdade, o ideal em cada obra é que você consiga se transportar para a época em que ela foi produzida, de forma a entender as influências sofridas e, claro, as restrições que as tecnologias empregadas têm em relação ao que temos hoje. Ainda assim, há coisas que são atemporais...
Algumas interpretações e o figurino, por exemplo, são bem fracos. Quando jovem, eu participei várias vezes da encenação da Via Sacra no bairro em que eu morava. Eu sempre era um soldado romano. E, bem... eu achei a produção bem parecida. Sabe aquelas roupas novíssimas, que alguém naquela época jamais usaria? As interpretações dos personsagens principais até que são boas, mas os figurantes claramente são um problema... Isso tira pontos do filme, óbvio, mas é algo que você passa a ignorar. E você terá bastante tempo para isso...

Um aspecto desse filme que é um reflexo da época: as coisas são lentas. Muuuuuuuuuuito lentas. Você tem que relevar. O filme tem cerca de 100 minutos, mas uma reedição moderna certamente diminuiria uma meia hora de duração. Outra questão bem diferente: o padrão de beleza masculina (e não, eu não tenho problemas em discutir esse assunto). A tripulação da nau Argo (daí o termo argonauta) é formada de algumas dezenas de homens. Não haveria nada notável ali se não houvesse um estranho destaque para corpos que, hoje em dia, ficariam escondidos sob numerosas camadas de roupa. É só pensar na regra "pelo menos um herói sem camisa" em todos os filmes do MCU... Não é uma questão relevante para a qualidade do filme, mas é um indicativo interessante de como o default pode mudar bastante em algumas décadas. E de como algumas coisas pouco mudam: o padrão de beleza feminino não difere substancialmente do que temos hoje.
Em toda produção audiovisual, se existe uma opção dublada em português, é essa que vou ver. E eu gostei do resultado aqui. Uma questão que existe no nosso idioma (e que a quinta série que vive em mim não pôde deixar de notar) é o uso da palavra nau (grande embarcação) para se referir ao famoso Argo. Em algum momento do filme, só pra citar um exemplo, é dito algo como "uma nau que agrada aos deuses" (talvez você precise ler em voz alta para perceber). Esse cacófato se repete ao longo da história e não sei ao certo se isso diminui ou aumenta a nota...
Outro ponto interessante a destacar é a presença do heroi Hércules na tripulação. É importante lembrar que estamos falando de uma história da Mitologia Grega, mas a Mitologia Romana adotou o mesmo panteão, apenas, de um modo geral, mudando os nomes das entidades. E, via de regra, as versões mais conhecidas são as romanas. É o que vemos, por exemplo, com os nomes dos planetas (Mercúrio no lugar de Hermes, Vênus e não Afrodite, Júpiter em vez de Zeus, etc.). Há exceções, claro, como o próprio Jasão, cujo equivalente romano é Escrûmfilo. Hércules, no entanto, é o nome romano do herói grego Héracles. Assim como aconteceu na saga God of War (em que Kratos mata Ares — e não o equivalente romano, Marte — para se tornar o Deus da Guerra), mais especificamente em GoW III, o semideus grego aparece e optaram por utilizar seu nome mais conhecido. Marketing é tudo.
Pra fechar, vale ressaltar o trabalho de Ray Harryhausen nos efeitos especiais. Sim, muita coisa vai parecer tosca com os olhos de hoje (até comparações com a produção infinitamente mais pobre de Chapolin são inevitáveis), mas tínhamos ali o melhor que poderiam entregar na época. Misturando efeitos práticos, chroma key e animação stop-motion, temos as cenas que mais valem a pena acompanhar nessa película — e que têm a ação necessária para que você não durma no meio do filme. É claro que você precisa ter uma bela suspensão de descrença para ignorar a animação brusca e com menos quadros do que desejaríamos, mas as cenas são fantásticas. As harpias e a hidra, devo confessar, foram um pouco difícil de engolir, mas o gigante de metal e a luta contra os esqueletos me deixaram de queixo caído. Essa luta final deve ter dado um trabalho absurdo. Aliás, devem ter guardado todos os recursos para essa cena, pois a animação está satisfatoriamente fluida e a interação com os atores (algo que era um problema nas cenas anteriores) está excelente. Eu fiquei convencido de que a espada dos atores estava se chocando com os escudos dos guerreiros-caveira. A história é interessante, obviamente, mas essa luta vale o "ingresso" do filme.
Dada a popularização de efeitos especiais, é comum ter um certo nível de preconceito com filmes antigos. Mas, se você tiver a preparação certa, pode ter uma experiência fantástica ao ver esse filme com a mente aberta. Vale a pena.
Nota 101/111.
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