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Num bus

Cheguei na rodoviária pra pegar o bus da uma. Descobri que não saía direto de Guaxupé. Vinha de ooooutro lugar. Com costume de atrasar. “O…

Fogueira LF · 2020-02-21 11:48 · 3 claps · 2.3 min read
#onibus #casal #tédio #gente-folgada
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Num bus

Cheguei na rodoviária pra pegar o bus da uma. Descobri que não saía direto de Guaxupé. Vinha de ooooutro lugar. Com costume de atrasar. “O da semana passada saiu daqui era quase duas” diz o guardinha do terminal. Ótimo. Dá até um ânimo. Ainda mais sóbrio.

Com quinze de atraso, o bus chega. Poltrona nove. Lado esquerdo. Tem uma pessoa lá. Uma mulher, com uma criança de uns cinco anos dormindo no colo. Do lado dela um cara. Claramente estranhos. Estavam conversando.

  • acho que está no meu lugar.

  • ai moço desculpa, você não pode ir pro meu? é o onze, bem ali.

  • ‎ou pode ir pro meu. é o trinta e dois. eu te mostro onde é.

  • não gosto de ficar perto do banheiro, cara. e não vou ficar no corredor.

Fico ali parado. Nenhum dos dois faz menção que vai sair. Nenhum dos dois se mexe.

Ponho minha mala numa poltrona vazia, do outro lado do corredor escuro. A mala se mexe.

  • opa! desculpa, senhor! não vi…

Debaixo de uma coberta, um senhorzinho sonolento.

  • bem.

De volta ao casal que não é casal.

  • ai moço…

Puta merda. Filha da puta do caralho.

  • onde é mesmo seu lugar?

  • ‎ali. no onze.

  • tá.

Vou pro onze. No dez, tem tem uma mulher dormindo. Com almofada e tudo. No onze tem uma bolsa. Volto pra folgada.

  • tem que tirar a bolsa…

Ela meio que levanta e chacoalha a dormente.

  • moça, dá pra tirar a bolsa? esse é meu lugar e ele vai sentar.

Sem dúvida, muito educada. A ex dormente põe a bolsa no colo.

  • licença.

Desvio e sento no onze. Folgados. Puta que pariu. Tenho a sensação que que o lugar está molhado. Será que a criança mijou? Ponho a mão no estofado. Ponho a mão na minha bunda. Faço isso umas três vezes. Acho que não está molhado. Dou uma cheirada. Se estivesse no nove, isso não acontecia. Aí me vem o calor. Sono foi embora. Saco. Agora, a temporada de pensamentos imbecis. Se a porra do ônibus se acidenta, pelo menos eu teria escolhido meu lugar. E se eu me foder nesse lugar que eu não escolhi? O que acontece? Vou virar um espírito que não vai embora. Vou ficar grudado nesses porras. Talvez na criança também. Assombrar e possuir, pra me vingar ou coisa do tipo. Pela raiva. Pela saudade dos que amo e não verei mais. Por causa de uns folgados que não se aguentam e blablablá. Mas e se der merda e eu me salvar? Eles é que vão vagar atrás de mim? Terei que ser grato a eles? Não quero ter esse vínculo com essa gente. Em algum momento, passou. De volta à mesma batida indiferente. Estrada escura. De rabo de olho percebo mãos e corpos se movendo no oito e no nove. Viro a cabeça pra minha esquerda. Não. Não! Puta merda. Estão se pegando. E a criança tá no colo dela. Não estão bêbados, nem nada. Caralho. Então, um senhor vai até uma poltrona pra frente da minha e fala com alguém que está lá. Ele volta pro fundo do bus. Pouco depois, uma senhora levanta. Uma carinha animada. Vai pro fundo do bus, também. Não aguento e acompanho girando a cabeça enquanto ela vai. Volto pra minha posição. Pelo reflexo do espelho percebo a porta do banheiro abrindo, e a dupla entrando. Viro pra conferir com meus próprios olhos. a tempo de pegar a porta fechando. Ainda bem que a essa altura já estou com fone de ouvido. Estou num ônibus erótico. Pego o celular e começo a digitar essas palavras. Pelo menos mais três horas pra chegar. Uma dessas histórias não é real. Talvez o sono esteja a caminho.


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