A anatomia de um meme há dez anos atrás
Do que se alimentava? Onde vivia? Como se reproduzia?
A anatomia de um meme há dez anos atrás
Do que se alimentava? Onde vivia? Como se reproduzia?
Se lotar sua caixa de e-mail traz alguma vantagem, deve ser a de deixar de lado aquela esquizofrenia de abas abertas e investir um pouco de tempo deletando algumas mensagens mais antigas.
E lá fui eu me aventurar nos primórdios do meu Gmail imersa na maior ingenuidade de que, tudo aquilo que estava lá era apenas uma década de contatos, documentos e imagens da juventude.
Mas não, chafurdar em como você se comunicava dez anos atrás me trouxe muito mais que umas boas risadas, fotos bizarras e um pouco de vergonha alheia.
Pesquisa rápida: quantos e-mails excluindo trabalho, propaganda e spam você recebe por dia?
Eu levei 9 anos e 11 meses pra lotar minha caixa pessoal e tudo isso me trouxe uma epifania engraçada quando me deparei com uma sequência de e-mails que hoje não se reproduziriam fora do ambiente dominado pela ~zoeira~.
Volta pra 2006
Eu era bixo de Relações Públicas na federal de Porto Alegre. No currículo, sequer uma matéria que abordava qualquer tema ligado ao universo digital. Estava a alguns anos de ter internet no celular e de sentar em uma mesa e estar todo mundo olhando para uma tela fazendo qualquer coisa que seja não verbalizar.
Dois anos depois, em 2008, comecei a trabalhar com conteúdo para sites, blogs e redes sociais (a.k.a Orkut) e desde então, pelo meu trabalho, sempre estive muito ligada no que acontece deste lado da força.
A gente sabe muito bem como as redes sociais deram o impulso pra coisa toda. Acompanhamos essas start ups crescerem, escalarem e faturarem bilhões. Mas é o tipo de coisa que a gente vê acontecendo e entra junto. Meio que um zeitgeist de quem produz conteúdo: está lá, tem vida própria, se traduz por si só e uma grande massa compreende.
E achei este o meu grande problema, porque percebi que nunca me dei ao trabalho de pensar, por exemplo, como isso acontecia na era da internet discada e bem antes de estarmos conectados 24 horas por dia.
Onde era a sala da zueira? Ela existia? Ou morria após o primeiro compartilhamento? Sequer tinha share de bobagens? Ou mais: será que a gente passava todo nosso tempo lendo, pesquisando, estudando, vendo TV e interagindo uns com os outros?
E a narração dos maiores eventos? Os comentaristas ao vivo? Essa grande rede opinativa que mistura piada com conversa séria — e, infelizmente, o preconceito nosso de cada dia.
Tudo bem que sempre fui mais da prática que da teoria e que isso poderia mudar minha vida em nada; mas porra; o que vamos contar para nossos filhos quando essa pergunta surgir? (risos)
A anatomia de um meme de acordo com minha caixa de e-mails
Primeiro meme recebido na vida:
Assunto: Olha que engraçado: centroavante da Inglaterra (parte 1)






Segundo meme recebido na vida:
Subject: FW: Centroavante da inglaterra (parte 2)







Apenas isso.
O amigo do amigo do fulano recebeu por e-mail e repassou até chegar na minha irmã que me repassou (eu, neste caso específico, não mandei pra ninguém… não lembro o por quê). Que conclusão eu cheguei? Que era assim:
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Vinha em anexo em diferentes fragmentos. (destaque para a parte 1; tipo, a mensagem ficava PESADA demais e precisava ser dividida).
-
Alguém também perdia horas pensando e criando.
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Carecia de frases de efeito como “Percebe Ivair, a Petulância do Cavalo”.
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Mas tinha tanto potencial quanto.
Não sei vocês, mas hoje eu só consigo fazer três leituras mentais com estas imagens:
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Ler imaginando uma série de tuites zueiros com chamadas afiadíssimas que me levam a pensar que não tenho criatividade de reproduzir.
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Ler imaginando uma sequência de frases do BuzzFeed.
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Ler imaginando um post no Buzzfeed com uma curadoria fodástica com a melhor série de tuites sobre o assunto.
O quanto se difere do que a gente consome hoje? A piada é a mesma, sempre existiu, só não tinha tanto ferramental nem tantos canais para se disseminar e distribuir. Estava escondida nas caixas de e-mails.
Você lembra de como era há dez anos atrás? Na época, pelo menos entre meus amigos, não se compartilhava imagem via MSN e a estrela do Orkut eram as comunidades. Alguém se lembra de consumir algum meme em outros canais?
Tá, e o que muda?
Nada. Saber que a piada era (quase) tão boa quanto e, com certeza, deixamos de ganhar vários influenciadores que não tiveram seu talento explorado e revelado por aí. :p
Por fim,
Minha mãe tentava me explicar como era empolgante namorar por cartas. Será que meus filhos vão ter o mesmo sentimento quando falar que, no início, se zoava via e-mail?
Agora sim, dando tchau:
Quero fazer uma menção honrosa ao terceiro meme que recebi, o jogo das marcas no Excel. Quem aí lembra?
메타데이터
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