pacto de uma donzela
pacto de uma donzela
dentro de vosso castelo, contemplei as sombras das ogivas projetadas nos vitrais, seus contornos disformes esbatidos pelo véu pesado das cortinas. vosso olhar pousava sobre mim, indecifrável, absorvendo-me como se tragasse a essência de minha alma para si. a espada que repousava em vossas costas inquietava-me — sabia eu que, a qualquer instante, poderia sentir o aço frio se embrenhar em minha carne, separando minha cabeça do corpo, tornando-a mais uma entre tantas que vos serviram no passado.
vossos olhos, tingidos por um rubro vítreo, deslizavam sobre minha forma como lâminas afiladas, e vossa língua, ao encontrar a minha, fazia-se lâmina a ser amolada no gume de um punhal. estávamos juntos, e isso era quanto bastava-me.
a terra cedeu sob nossas mãos enquanto cavávamos nossas próprias sepulturas, lado a lado. selamos nosso pacto: em dez dias, nos há de selar na eternidade. as substâncias já foram adquiridas; então, resta-nos apenas aguardar as luas que se passam.
as noites que se seguiram arrastavam-se como espectros sem rosto, cada uma mais longa e insuportável que a anterior. as chamas das velas tremulavam nas paredes de pedra úmida, projetando sombras dançantes que se assemelhavam a espectros silenciosos, testemunhas de nossa espera febril. em vossos aposentos, deitávamo-nos lado a lado sobre os lençóis de veludo escarlate, contemplando o teto abobadado como se nele se ocultassem nossos segredos. uma passagem para pensamentos que não me concedo o direito de ter.
as vossas mãos, sempre frias, percorriam-me como o vento gélido que sopra nos túmulos. eu as acolhia, temendo o momento em que se tornariam pó entre meus dedos. falávamos em sussurros, temendo despertar a própria eternidade que nos espreitava.
os dias escoavam, e nosso corpo, já embriagado pela iminência do fim, tremia em antecipação. era um êxtase amargo, um fervor febril que nos consumia como fogo brando sobre a madeira antiga. o mundo externo esmorecia, reduzindo-se às paredes deste castelo e às promessas feitas sob a luz bruxuleante dos candelabros.
na décima noite, vestimo-nos como príncipes de um funeral esquecido, adornados em tecidos escuros, com anéis que nos selavam a promessa. diante das sepulturas abertas, contemplamos o abismo negro que nos aguardava, silencioso e paciente. as ampulhetas já não nos pertenciam.
segurastes minha mão ao levar o cálice aos lábios, e eu, espelhando-vos, bebi de outra poção. o veneno, doce como uma mentira, escorreu por sua garganta, e por um instante nos fitamos, olhos rubros e ofegantes, enquanto o véu da escuridão nos descia sobre os ombros.
e naquela noite, vi-vos morrer, e uma gargalhada escapou-me dos lábios ao contemplar vosso corpo vacilar. com o punhal seguro em minhas mãos, desferi o golpe final, sentindo a lâmina rasgar vossa carne e o sangue quente manchar-me os dedos. da vossa boca, escorreu um fio carmesim, e vosso olhar, outrora imponente, desfaleceu na sombra da morte. acaso acreditastes, mesmo, que eu partiria convosco para a eternidade? beijei vossos lábios gélidos num gesto de escárnio e sussurrei-vos um último adeus. logo, vossa cabeça repousava junto às de vossas ex-amadas, completando, assim, a coleção do colecionador. não eras vós quem sempre me ameaçava? dizei-me, então, o que fazeis agora, abandonado à cova repleta de vermes que lhe consomem a carne? sois risível. jamais creiais numa mulher que escolhe a si mesma acima de todas as coisas. nunca fostes nada para mim. nada.
a eternidade não me pertencia, e o castelo, agora órfão de seu último senhor, erguia-se em silêncio, seus corredores vazios sussurrando memórias de pactos desfeitos. as paredes, adornadas por tapeçarias desbotadas e o eco das antigas risadas e gemidos, agora estavam impregnadas pela fria solidão. cada pedra, cada arco parecia carregar o peso de incontáveis promessas quebradas, de almas perdidas que haviam cruzado aqueles portões apenas para desaparecer nas sombras. o vento, que antes soava como suspiros de mistério, agora uivava sem direção, se infiltrando pelas frestas e rachaduras, trazendo consigo a sensação de que o tempo ali havia parado, estagnado, à espera de um fim que nunca chegaria.
as janelas, que um dia refletiram o brilho da opulência, agora estavam empoeiradas e cegas, sem olhar para o mundo lá fora. o eco do castelo parecia se dissolver no vazio, como se as próprias paredes, testemunhas de tantos pactos, começassem a se desfazer, absorvidas pelo esquecimento. nada restava, senão o silêncio. o castelo permanecia firme, aguardando, esperando, com um vazio insuportável a consumir seu interior. mas jamais teria eu minha cabeça a rolar pelo chão impuro, a dignidade que me coubera, mesmo nas sombras da morte, jamais permitiria que meu ser fosse reduzido àquela humilhação. nem mesmo o aço cortante ou os rostos que me observariam com indiferença haveriam de despojar-me do último vestígio de honra que ainda restava em mim.
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