O dilema moral de Tempo de Matar
Atenção: O texto a seguir contém spoiler sobre o filme
O dilema moral de Tempo de Matar

Matthew McConaughey e Samuel L. Jackson em Tempo de Matar (Imagem: Reprodução)
Atenção: O texto a seguir contém spoiler sobre o filme
Em 1996, Joel Schumacher uniu grandes estrelas de Hollywood em um longa-metragem que não poupa a audiência quando o assunto é escancarar temas sensíveis para a comunidade norte-americana — mas que cabem em discussões de qualquer um com o mínimo de letramento racial.
Em Tempo de Matar (1996), a pequena Tonya, uma garota negra, é violentada por dois supremacistas brancos que são posteriormente presos. No dia em que passariam por uma audiência de custódia, Carl Lee Hailey, pai da menina, decide fazer justiça com as próprias mãos, assassinando os dois homens.
A partir disso, então, o filme nos leva pela defesa do homem, feita pelo jovem advogado Jake Tyler Brigance, respectivamente interpretados pelos brilhantes Samuel L. Jackson e Matthew McConaughey — que aqui, na minha opinião, desempenha a melhor performance de sua carreira.
Quem é mais culpado? Os homens que não pouparam de sua maldade uma menina que levava para casa as compras da mercearia, ou um pai que cego pela violência a qual a filha foi submetida resolve ser juiz e algoz dos executores do primeiro crime?
Tudo ganha novas camadas quando adicionamos à trama as cicatrizes de uma sociedade ainda marcada pela segregação racial. A menina e o pai, são negros. Os dois homens, supremacistas brancos que ostentavam sem pudor a bandeira dos Estados Confederados da América. Tudo se passa em Canton, no Mississipi e o júri é completamente formado por pessoas brancas.
Soma-se a isso a atuação de uma célula local da Ku Klux Klan, que se vê no direito de agir para amedrontar o advogado, atacando todos aqueles ao seu redor, desde a secretária do escritório até a própria família — passando pela aspirante a advogada Ellen Roark, interpretada por Sandra Bullock, e que desempenha também um papel de interesse sexual de Brigance que quando flerta com o clichê se mostra como um arco interessante no que diz respeito à tensão entre os personagens.
O elenco também traz Donald e Kiefer Sutherland em lados opostos do embate. O pai é um advogado aposentado que perdeu a licença para atuar após perder o controle e agredir policiais, o filho é o irmão de um dos agressores que busca a Klan com o objetivo de vingar o irmão.
Em um papel que é no mínimo irônico, Kevin Spacey interpreta Rufus Buckley, o promotor que quer a todo custo a condenação de Hailey e busca de alguma forma, defender a honra dos primeiros criminosos — se é que há alguma.
Não há, no entanto, como assistir ao filme sem perceber como a todo momento, toda a situação serve como uma maneira de engrandecer o advogado que, ao defender o homem negro, passa entender as diferenças entre o peso da lei para pessoas de diferentes raças.
Pode ser anacrônico classificar o personagem como um exemplo perfeito do arquétipo do branco salvador e seria impossível que uma produção como essas fosse feita hoje sem que no mínimo a construção dessa relação fosse questionada.
메타데이터
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