O QUE SÃO INVASORAS?
E QUEM INVADIU O QUÊ?
A CAÇA ÀS ESPÉCIES INVASORAS
E quem afinal invadiu o quê?
Quando se conversa em Portugal sobre fogos florestais, os mais antigos lembram o tempo em que todos os montes estavam “limpos” e quase não havia incêndios. Motivo: era preciso cortar e trazer o mato ou a vegetação rasteira, que serviria de cama ao gado nas cortes. Mais tarde, toda essa biomassa misturada com os excrementos animais já curtidos seria utilizada como adubação natural para as culturas anuais. Com o abandono da agricultura tradicional quebrou-se esse ciclo que parecia perfeito. Essa vegetação deixa de ser necessária e acumula-se nos montes, servindo de combustível aos fogos de Verão.
O que passa despercebido a quem dispersa esta teoria é que esse movimento de “limpeza” constante da mata durante séculos provocou uma degradação do solo através da erosão e evaporação, impedindo essa matéria verde de cumprir a sua função na linha de sucessão ecológica. A cada corte, o sistema era levado “ao osso” e teria de recomeçar o trabalho de cobrir novamente o solo para o manter húmido e protegido. Mais tarde, quando já estaria tudo pronto para dar o próximo passo na sucessão e abrir caminho à vegetação mais exigente , era feito novo corte e tudo voltava à estaca zero.
Foi neste ambiente de “sabotagem” permanente (e inconsciente) do agente invasor ser humano à tecnologia florestal que as espécies autóctones foram perdendo terreno, dando lugar a outras mais resilientes. A esse fenómeno juntou-se o corte descontrolado de árvores desde que se lhe atribuiu um valor comercial, impedindo a floresta de se regenerar, evoluir até ao seu auge e criar um solo fértil e estruturado.
Hoje, quando falamos de invasoras como o eucalipto, as mimosas, ou as austrálias, partimos do princípio de que as mesmas chegaram, dominaram o terreno e através da competição expulsaram as espécies autóctones . Mas, analisando melhor a história, antes de elas aparecerem, outra espécie invasora chamada Homem por ali passou e criou as condições de degradação de solo com essas e outras práticas.
Com míseros centímetros de solo vivo e saudável que esses métodos ancestrais deixaram de herança, não será o carvalho, o sobreiro, ou outras espécies autóctones que conseguirão regenerar a terra e trazê-la para os níveis de fertilidade originais. Seria até possível, se parássemos hoje e esperássemos mais alguns séculos, mas sabemos que já não temos esse tempo para reverter o processo degenerativo em curso.
A nossa esperança reside na eficiência dessas árvores, cuja capacidade de captação de nutrientes muito mais eficaz que a da vegetação nativa. São autênticas máquinas de bombear água e nutrientes de horizontes do solo onde só elas conseguem chegar. Ao trazer toda essa energia para a superfície, criarão uma camada de fertilidade a um ritmo que nos permite ter outra perspectiva de recuperação.
O eucalipto, as acácias ou as austrálias, quando foram trazidos para o nosso território, encontraram o lugar ideal para avançar. Não por terem um instinto aniquilador, mas porque a natureza usa a sua tecnologia para fazer a própria análise de solo e avaliar quais espécies do banco de sementes estão em melhores condições de avançar no trabalho de regeneração. O sistema é eclético e imparcial. Nenhuma espécie vegetal ganhará terreno se não for útil aos propósitos regenerativos. A inteligência da floresta é muito mais complexa e assertiva que o conhecimento humano.
Se entrarmos num espaço florestal estratificado, maduro e com um solo fértil, podemos lançar por lá as sementes de todas as espécies “invasoras” que conseguirmos e veremos ao longo dos anos que nenhuma delas terá dominado o ambiente, a não ser que se tenha aberto uma clareira com o derrube de árvores autóctones e se tenha degradado o solo levando toda essa biomassa para fora do sistema.


A presença do eucalipto entre as restantes espécies num sistema agroflorestal no norte de Portugal implantado pelo coletivo Somos Agrofloresta - Quinta da Manguela, Julho de 2020
Chegando a tal estado de degradação, impõe-se a questão: Será viável usar eucaliptos e outras árvores de crescimento rápido para regenerar os solos?
Sim, se respeitarmos a biodiversidade, se juntamente forem plantadas e semeadas espécies autóctones, se planearmos essa intervenção tendo em conta o espaço (estratificação) e o tempo (ciclo vegetativo) de cada espécie e se aproveitarmos a dinâmica da sucessão ecológica, desde a colonização até ao clímax. É neste contexto que a Agrofloresta de Sucessão e o conceito de Agricultura Sintrópica criado por Ernst Gotsch podem inovar e contribuir para uma evolução na prática ecológica.
O eucalipto e outras espécies vegetais não nativas podem ajudar a salvar o solo em Portugal se forem manejados por meio de podas ou cortes atempados, se com elas forem plantadas e semeadas plantas anuais que criarão em conjunto uma dinâmica de vida e crescimento, se a determinada altura incorporarmos a biomassa triturada para criar uma camada enriquecida de matéria orgânica que torne possível uma rápida regeneração através da cobertura constante do solo.
Se, ao invés dessa prática perpetuarmos a monocultura e os proveitos forem totalmente retirados do ecossistema para alimentar as indústrias que dele dependem, pode significar a catástrofe ecológica de um país que há muito expulsou a floresta do seu território. A diferença entre o remédio e o veneno é a dose, ou neste caso, o método usado ou a finalidade.


Monocultura de eucalipto no Concelho de Santo Tirso
Ao utilizar a maioria da floresta como um ativo económico, mantemos uma indústria de extração de recursos de solo, que deveriam estar disponíveis para as próximas gerações. Estamos a utilizar o “cartão de crédito energético” dos nosso filhos e netos para alimentar um sistema que não temos coragem de desmantelar. A fatura, essa chegará bem pesada para eles.
As espécies de crescimento rápido vão abrir caminho à instalação de uma floresta madura e maioritariamente autóctone (que todos queremos), criando um atalho na evolução que demoraria centenas de anos a acontecer. É este propósito que os movimentos ecologistas tradicionais não entenderam ainda. Criar listas maniqueístas de espécies vegetais, classificando-as de boas ou más, sem ter em conta o contexto em que elas crescem e o serviço ecológico que podem prestar, parece ser uma atitude preconceituosa, preguiçosa e que denuncia falta de estudo. Não há tempo para esperar que as espécies autóctones trabalhem sozinhas e não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar a eficácia das chamadas invasoras. O próprio Homem criou as condições que nos leva a essa urgência.
메타데이터
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