FORTALEZA, 2030
Conto
FORTALEZA, 2030
Conto

Descartes Gadelha — (Imagem Exposição \ Divulgação)
Quando conseguimos enxergar além do muro eu vejo parte da vida que fui, ou que tive; dos menores aos maiores e mais íntimos caminhos; do menor ao maior medo que ainda me ofega. Para lá do muro há fragmentos meus entre os ladrilhos das calçadas, me diluindo meio-chuva nos ‘correágua’ dos asfalto. Um mosaico de mim em pedra portuguesa.
Entre aqui e o muro o mundo é uma dobra inteira de tijolos vermelhos torrando sob sol e açoitado pelo vento de uma maresia distante. Eu sinto o cheiro da praia, não a vejo mas a sinto, repartindo o sol sobre minha cabeça e polindo os móveis com areia. Andei a vida toda entre lá e cá do muro: quando aluna, quando funcionária da fábrica, quando só andante. Qual a dificuldade do ônibus vir até esse lado, hein? Como é tão insuportável rasgar os pés nesse calçamento, chinela falta derreter. Faz um certo tempo que notei as coisas fora de lugar, até o lixão tem ficado cada vez mais a esquerda do que costumava, e mais a esquerda significa no meu caminho. Não bastasse desviar das motos tenho que desviar de um cachorro ou gato morto sendo fritado no calor do meio-dia. Fico irritada só de pensar na ideia de ir no mercantil, no sol quente, desviar dos bichos mortos, fingir simpatia com a Dona Adélia perguntando sempre como vai minha perna e ainda ter que atravessar o buraco no muro. É um buraco enorme, realmente. Mas não é tão simples passar por ele. Parte dos tijolos de quando o buraco foi aberto a marretadas estão suspensos numa fina espessura de concreto velho pegando chuva e sol. Imagine só atravessar o buraco e morrer por uma tijolada. Me sinto sendo cagada pra cidade por aquele buraco maldito.

DESCARTES GADELHA — (Exposição \ imagem: “Por do sol atrás da Rampa” — 1980 — Divulgação)
Voltando um dia desses do forró, beba que nem preste, tropecei numa coisa entre o buraco e meu caminho. Era uma criança deitada no chão. Achei que tava morta ou doente, perdida talvez. Ela estavam querendo me dá um susto, os outros saíram de dentro dos montes de lixo e deram um berro. Joguei o tamanco longe e depois fiz foi rir com eles. Era onze da noite, botei todo mundo pra casa.
Hoje o buraco está menos pior, têm como passar sem precisar quase encostar a barriga no chão. Eu nova, indo pra escola me arranhava toda e ainda sujava a farda e quem tinha farda suja todo mundo sabia que era morador da ‘Favela do Buraco’. Ridículos. Nem era essa o nome do bairro, agora é porque pegou, mas antes era Santa Teresinha. E ainda chamo assim. Minha vó foi a primeira a comprar terreno aqui e ajudou na construção da Capela, então vai ser sim Santa Teresinha, quando eu morrer pode virar até Buracão Que Caga Gente que não me importo. A prefeitura botou uma placa na avenida principal com o nome “Jardim Santa Teresinha”, e por onde andam as flores? Estrume sem dúvida têm, animal e gente morta não deixa de brotar sob o sol. Já cheguei a ver um corpo ser montado ao longo de doze dias; achavam pedacinhos toda manhã. Alguns não se salvaram. Tenho certeza de ter visto uma mão na boca da Lindinha quando fui comprar pão bem cedo, cachorra louca. Já fiz de conta que o buraco não existia e dava a volta até chegar na avenida para pegar o ônibus, tinha uma falsa impressão de dignidade, na verdade era bem pior, chegava molhada de suor no trabalho e com as pernas sujas de areia e, lógico, atrasada.
Que miséria tem sido esses últimos dias, viu. Choveu uma água estranha, meio marrom. Falaram na TV que é culpa das fábricas de tijolos na beira da cidade, do trânsito, do fogaréu dos barracos da invasão no Loteamento Cocó, culparam até Deus. Como pode tanta desgraça? Ontem mesmo deixei, Sophia, minha neta, no balé. Pelo menos não tenho que passar pelo buraco, o balé é aqui do lado. Damiana deixou a escola aberta para ver se alguém olhava pra cá do muro, pessoal gosta de ver a meninada dançando. Sophia dançou no teatro natal passado. Problema tá sendo levar ela pra creche todo dia, passar aquele buraco com a coitada é muito ruim. Com o vento batendo mais forte voou um monte de lixo na cara dela, voltamos e dei um banho, eram sacolas molhadas de alguma coisa. Mijo, sei lá, algo nojento. Sophia chorou, chorei também, mas escondida, não queria que ela soubesse que foi humilhante. Na creche as coisas não vão bem, disseram que por causa dos conflitos vão liberar as crianças do Santa Teresinha: “tá muito arriscado receber as crianças de lá aqui”, disse a diretora. Não sei como vai ser. Tô trabalhando o dia todo e com a Larissa presa me deixa sem opção, deixar a menina sem estudar não vou. Mas se a coisa apertar mais eu volto a fazer faxina de noite mas, penso que o gato na luz e na água vai melhorar e aí sobra dinheiro para uma creche particular, mais longe porém caminhar um pouco não mata ninguém. Se eu for pegar ônibus todo dia pra creche e depois pro trabalho não dá certo. E aquele buraco maldito no caminho. Tinha até me acostumado com ele mas, de um tempo pra cá estou indignada e sem paciência, deve ser os efeitos da perna inflamada ou ecos da velhice. Imagina ficar velha nessas condições. Vi na novela uma mulher da minha idade dizendo que não tá velha para continuar trabalhando, que ironia, ela é rica. Eu nos trinta já pensava em chegar a aposentadoria. Deve ser extraordinário continuar trabalhando em uma sala com ar condicionado e envelhecer na frente de uma tela e ter como maior dificuldade demitir algum pobre que choraminga pelas contas.
Antes da fábrica eu passava, cozinhava, lavava, cuidava de idoso, criança e cachorro. Por uns meses, na pandemia, onze anos atrás, com fome, até arrisquei vender água e bolo de pote no semáforo. Agefis levou minhas coisas porque não tinha licença. Mas a fome eu enganei, consegui o auxílio. Até comprei uma geladeira nova.

Descartes Gadelha, 1963
Era terrível atravessar o buraco naquela época, eu tinha que respirar de máscara e correr para não perder o ônibus com a frota reduzida. Larissa era novinha, mal corria com as pernas curtas. Ela aprendeu a falar palavrão nessa época, por minha culpa. “Filha da puta” era a menor coisa que eu dizia com o motorista quando ele ignorava meu sinal. Não vou mentir que foi uma época boa, tinha faxina todo dia e os bolos de pote ajudavam. Mas soube de gente que deixou de comer, que morreu. Cansei de ver gente sendo levada na maca atravessando o buraco do muro, porquê era o caminho mais rápido e a ambulância não chegava até aqui. Ainda não chega, óbvio. Se passar mal torça pra ser algo que mate devagar, porquê se for infarto você morre antes de atravessar o buraco. Pelas minhas contas, na época, umas 200 pessoas morreram em casa. Rezei o terço na maioria dos velórios. Ajudei a juntar mantimentos para cestas básicas e claro também recebi algumas Ainda pandemia a prefeitura disse que ia fechar o buraco porquê estavam ameaçando invadir o terreno entre o muro e o Santa Teresinha, mas era mentira, o dono quer vender o terreno faz anos e ninguém quer comprar. O velho morreu e os filhos tão brigando. Vender pra quem? Ninguém quer a gente como vizinho. Imagine só comprar o terreno cujo quintal é um bairro que tem como portão um buraco. Engraçado! Brinco que moro em condomínio e a portaria é o buraco. De certa forma é mesmo. Os bandidos não deixam nenhum estranho passar. Ninguém rouba aqui dentro, então tá tudo certo. “Villa Santa Teresinha”, chique. “Um condomínio com lixão próprio, brisa do mar (mas sem a vista para o mar), segurança vinte e quatro horas, comércio interno, espaço gourmet (?)”. Não sei qual seria o espaço goumert, o salão da igreja talvez. Essas janelinhas nunca viram o mar de frente. Tem o muro antes do horizonte e o buraco é quem sabe o convite para a beleza das coisas.
Chegou uma coisa nova esses dias: um parquinho infantil em frente a igreja, é a primeira vez que vejo uma coisa dessas aqui, fiquei feliz mas uma escola ou uma creche seriam bem melhor. Não posso reclamar, o posto de saúde é exemplar, foi pintado recentemente e tem duas enfermeiras atendendo diariamente. Médicos a cada 15 dias para consultas e dentistas uma vez no semestre. Antes havia só o posto, o prédio, hoje ele funciona. Exemplar porque conheço partes da cidade que não tem nada disso. Mas para chegar nesse cenário, muito pneu queimou na avenida e muita reportagem teve que vir até aqui e aí os moradores ameaçaram protestar na feirinha de turismo na orla. No outro dia vieram assinar a ordem de serviço da reforma. Teve até lanche no evento. Cobramos sobre o buraco e uma calçada para acessar a avenida…silêncio, cliques de câmera e o dingle da prefeitura. Nem uma palavra do secretário.
Pode ser que o buraco seja nosso maior patrimônio, pintaram ele também, lógico, do lado de lá que dá pra avenida. Tem um grafite imenso e no local do buraco eles fizeram a silhueta de um portão medieval, vigiado por dois soldadinhos caricatos de armadura e tudo. A frase “O portal do passado” era a mensagem de recepção pro Santa Teresinha. E no mural do lado: “O Portal du Futuro” com a reprodução do projeto de requalificação do bairro, mas agora com um portão moderno, casas coloridas e calçadas. Os movimentos do bairro reclamaram muito, fizeram movimento nas redes, protesto, xingaram a prefeitura e tudo. Mas o mural ficou lá, com os pixos até dando uma cara mais amena. O artista apareceu na TV denunciando. No fim foi só as fotos do artista e do prefeito que rendeu, ficou por isso mesmo.
Sophia teve crise de asma de novo, depois da chuva veio a fumaça, depois fuligem; pedaços de plástico, entrando pelas telhas e caindo na comida, nos móveis, em tudo. Fui visitar Larissa, tinha deixado a casa limpa, limpei até tarde da noite, voltei umas dezesseis horas e já estava tudo sujo. Sophia foi liberada cedo da creche mas não fui buscar ela logo, a volta do presídio demora muito de ônibus. A professora a levou no postinho, do lado de lá do muro, voltei correndo com ela no braço para pegar os documentos. O médico do posto encaminhou direto para UPA.
A cidade estava cinza, um nevoeiro deixou a vista na distância de um braço. De seis anos pra cá piorou muito, fogo todo dia a partir de agosto. Agora isso. Seu Mário me ajudou com Sophia, coitado. A cirrose tava atacando mas ele levou ela comigo. Minha perna rangia e eu suava de dor. Minha cabeça girava, o nevoeiro pairava e o sol era sentido só pelo calor, até os postes falhavam. Se fez breu na terra da luz.
Atravessamos o buraco com pouca dificuldade, iluminava o caminho com a lanterna do celular. Os faróis pareciam fogos fátuos entre na escuridão acinzentada, a lanterna era um nada no meio delas. O semáforo dava pra ver, pelo menos. Chegamos na parada mas não tinha ônibus, consegui pedir um carro. Demoramos muito até o hospital infantil. Lá eu vi uma fresta do inferno. Crianças machucadas por atropelamento, queimaduras, asma, sufocadas de fuligem. Tudo de pior. O hospital foi obrigado a receber os idosos que desciam dos bairros próximos, lá dentro o ar não existia, as mães eram vultos ao lado dos filhos nas macas, rangendo rezas. Foi horrível. Nunca mais quero reviver aquilo novamente. Vi mães que perderam os filhos, vós, que nem eu, perderem os netos. Uma bebê de meses morreu sufocada. A TV nomeou como calamidade e tragédia. Uma combinação mortal de incêndios, fábricas de tijolos e nuvens. Já haviam avisado sobre isso. A fuligem de plástico veio do fogo no Loteamento Cocó, reintegração de posse.
Mas quem é o dono daquele lugar? Desde que os leilões de concessão ocorreram, toda aquela terra virou um descampado com a promessa de virar um aglomerado de multinacionais. Parte virou montadora de carros, a outra uma invasão loteada. Quando lá queima, aqui sufoca. Metade da cidade dessa vez sufocou. Durou seis dias esse nevoeiro, a cidade ficou estagnada. Mas trabalhei no dia menos pior, quando havia se dissipado boa parte. No pior dia, o terceiro, quando faltou luz aqui, deu pra ver luzes coloridas no céu. Os crentes disseram ser o juízo final, os meninos disseram ser os ETS mas na verdade eram raves particulares nos prédios do outro lado do muro. Do alto o ar era mais ameno, a névoa era menos densa. “O after do fim do mundo” disse a influencer que vi no celular. Governo Federal emitiu ordem de emergência, mudou pouca coisa mas a Força Nacional fechou as festas e controlou o trânsito. O prefeito saiu da cidade por segurança, ficou o caos e os secretários. Foi difícil sair pra qualquer lugar, assaltos e assassinatos. Perseguiram as filhas da Noélia, a vizinha, pegaram as meninas no terreno baldio perto do buraco no muro; e depois pegaram os caras também no breu, degolaram eles. E dessa vez, nem IML e nem polícia catou os restos. Os cachorros ficaram de barriga cheia por dias.
É estranho saber que o buraco resiste ao tempo, e conforme o tempo passa ele se alargou, ficou mais carcomido da passagem das motos e das pessoas. Uma fenda, ou uma chaga aberta. Me irrito fácil com ele agora, aquele grafite cravejado de pixos e bala me deixa ferozmente cansada.
Passado os dias de nevoeiro e fuligem, o calor voltou duas vezes mais forte, o sol virou uma chama viva na minha cabeça sinto ele torrar a coroa que se formou com a queda do meu cabelo. Deve ser por conta do repuxo da touca que uso na fábrica e do excesso de presilhas; está virando uma massa dolorida esbranquiçada. Quando tiver tempo vou no médico saber disso. Agora preciso bancar o tratamento da Sophia, os remédios estão em falta e ela tem se cansado muito. Quando posso levo ela no braço até a nova creche mas o dinheiro está indo embora com as passagens de ônibus, está muito difícil. Tenho medo de Larissa não conseguir pegar a liberdade assistida e eu ficar sem trabalhar e com a Sophia para cuidar, sozinha. Minha perna está inflamada a cada dia, incha toda noite após o trabalho. Vamos ver até onde vai isso.
Conversei com Dona Francisca ontem de manhã e conseguimos uns pés de acerola para plantar na pracinha em frente a igreja, acho que vai crescer. Foram caras essas mudinhas. Parcelei em três vezes. Desde que os vazamentos de gás contaminaram metade do chão da cidade pouca coisa têm dado, só bananeira e com muita resistência. Fogo tem minado no chão, ainda mais onde era mais próximo dos encanamentos. Fazem oito anos desde o vazamento e o centro inteiro segue interditado, os catadores dizem ainda achar pedaços de esqueletos entre os escombros. Os canalhas roubam tijolos das explosões e revendem na feira. Isso ainda é uma coisa de minha infância que ainda existe: as feiras. Com menos frutas, certamente. As que têm são caras e não muito seguras de comer. Mas tem frangos magricelos, carne de porco (bem duvidosa) e peixes minúsculos. A feira hoje em dia fede muito, fedor de gente suja e comidas estranhas. Penso que deveriam acabar com elas logo, não tem mais nada de bom; quem gosta são os donos de puteiros. Lá eles aliciam as menininhas novinhas, filhas dos feirantes mais pobres, prometem emprego em algum lugar longe e no final botam as coitadas em uma casa estranha qualquer com uma dívida enorme. A polícia? Eles são os mais recorrentes clientes, vejam só! Quando estoura uma casa dessas a cidade finge estar alarmada e no dia seguinte tudo volta ao normal. Chego do trabalho de faxina, a tal hora extra, umas onze e meia da noite, na última condução e vejo umas pivetass se vendendo na avenida. É triste. Duvido que a maioria delas tenha pelo menos almoçado ou jantado. Passo o buraco pensando em quem seriam seus pais, se moram no Santa Teresinha, se são boa gente…

Descartes Gadelha — “Carro de Frutas” , 1967 óleo sobre hardboard, c.i.e. 60 x 75 cm
Nem só de desgraça vive o pobre. Entrei no EJA, essa semana foi agitada. Sei ler bem, escrevo como dá mas preciso de um diploma. Minhas aulas são boas, gosto de todos os professores, o de matemática me ajuda bastante, sou muito ruim em calcular tudo. Química? Aquilo é uma bruxaria. Não consigo deixar de dizer o inferno que é chegar do trabalho na fábrica, me arrumar e ir pra escola. Sendo sincera, desisti de duas faxinas para não faltar tantas aulas. Comprei um caderno muito lindo com Jesus na capa, é tão iluminado e azul. Na escola eu peguei um livro muito bom, vários contos e histórias sobre a vida.
Estou preocupada com Sophia, ela tem cansado mais do que o normal. O sol até a creche e mesmo o calor do ônibus não a deixa nada bem. Não posso deixar ela e nem ficar em casa. Quem vai botar comida na mesa? O médico da UPA disse que ela só vai melhorar se fizer o tratamento certinho. Mas pra isso, doutor, é preciso que eu compre os remédios, não é tão simples. Dinheiro não dá em árvore, mesmo que árvore ainda tivesse pra esses lados. Espero que tenha com esses pés de acerola que vou plantar, não vai dá sombra mas acerola espero que sim. Imagina a meninada pegando acerola, mesmo azeda, e se acabando de tardezinha. Pode ser, né. Custa nada sonhar. Ir para aula me deixa irritada só quando preciso atravessar o muro, o lixão e aquele breu desgraçado. Não tenho medo de assaltado, mas tenho medo das trocas de tiros que são comuns, a prefeitura quer pacificar a comunidade. Deixar as coisas calmas. A bem da verdade é a milícia querendo território. Eles perderam duas zonas boas na parte oeste da cidade e aí pra compensar querem os lados de cá. Está tarde, preciso descansar.
Sons metálicos, ar condicionado numa sala azulada, bipes de sensores que não sei. Coisas. Rostos pela metade através das janelas de vidro embaçado. “A senhora sabe porquê está aqui?”, era uma voz que pendia entre ferocidade e melodia, sociopata. “Sei”, respondi todas as vezes secamente. Enrijecida na cadeira e com a perna inchada latejando, suja de areia e sangue. Minha saia jeans fedia a mijo e alguma lama misturada, meus dedos estavam leves, estranhamente leves. “Sou capaz de bordar numa grinalda agora”, vacilei entre os pensamentos perdidos sob a voz distante do delegado. Quem poderá dizer o que se deu desde que escrevi pela última vez? Estava tudo tão bem. Aparentemente Larissa vai ter companhia agora. Desgraça! Sophia adoeceu mais uma vez, umas dez da noite, tossia sem parar e percebi sangue saindo do nariz dela. O tempo está seco faz semanas. Peguei ela pelo braço, vesti qualquer coisa e segui para a UPA. Não daria tempo de atravessar pelo caminho mais iluminado então tive que seguir pelo terreno e pelo buraco. Antes de chegar, fitei de longe o breu me olhando de volta, tudo estava calmo. Apenas uma moto atravessava o buraco e dava uma certa luz no chão batido e nos sacos de lixo sob a noite. Seria até bonito se houvesse quem fizesse disso um quadro. Sophia choramingava e tossia, e tremia. Não sei, mas não era bem asma. Puxando a perna doente dei bons passos até o buraco, arfava sem ar pelo calor da noite e o cheiro insuportável do lixão. Não lembro de muita coisa. Só do buraco sendo atravessado pelas luzes dos carros na avenida. Ecos de alguma coisa, ignorei. Não eram ecos e nem luzes de carros. Meu ouvido rangia e a perna travou, senti Sophia pular quase no meu ombro quase arrancando meu pescoço. Fui jogada no chão pelas pernas dela se debatendo e ficamos com a cara no lixo e na areia ainda quente. Um enxame de motos cruzavam o escuro; as estrelas de bala brilhavam ensurdecedoras. Não tive nada melhor do que rezar e xingar. Uma serpente úmida escorreu pela minha coxa, Sophia mijou de medo. Ela estava tão caladinha, coitada. Muda, parecia um saco de areia.
Os tiros migraram para mais longe, se foram junto das motos. Corri desesperada com Sophia no colo; foi tudo tão estranho que a UPA me alcançou e não o contrário, corri como nunca. Na triagem, pegaram Sophia dos meus braços no meio dos meus gritos. “Ela tem asma! Pelo amor de Deus!”, gritava enquanto todos me olhavam, penosos. Agora percebo que deveria parecer uma doida, descabelada, suja e mijada. O desespero têm seus cheiros, suas próprias formas. As enfermeiras pegaram Sophia dos meus braços numa rapidez gelada, a menina foi sacudida na maca tal qual uma boneca de pano, imóvel. “Ferimento de bala na altura da nuca, saiam da frente!”, uma voz apavorante ecoou. “Não, é asma!”, gritei mais uma vez. Todos me olharam de novo, penosos, a boneca de pano era levada para trás de uma porta branca, muda.
Rodei, vi o mundo à volta, girando a despeito de mim. Me acudiram de qualquer jeito. Não lembro de muita coisa. Rostos mascarados e vultos de branco me dizendo “calma”, vozes apáticas me devorando no caos. Sons de bipes iguais os dessa sala gelada e azul. As horas naquela UPA eram eras inteiras e não recebia notícia alguma de Sophia. O dia brotava do chão dolorosamente, o sol era frio.
Fui embora daquele lugar, Sophia se foi. Ela não se mexia. Mataram minha pequena no meio do lixo…querendo atravessar aquele buraco que caga gente. Voltas na memória; me vejo em casa, com as mãos desesperadas mexendo nas gavetas. Não acho nada porquê não procurava nada. Preciso voltar na UPA, reconhecer o corpo de Sophia, dá pra ela um velório melhor do que a morte. Não falo com ninguém na rua, são todos sombras no canto do olho. Sob o sol, o buraco, o lixo, eu. Acolá uma reforma na avenida, mais uma vez vão trocar o asfalto enquanto o buraco segue sendo a janela deles para a miséria. Do lado de cá é isso.
Trabalhadores, equipamentos, coisas estranhas de construção. Caminho meio cega, suada, obcecada. Mijo, areia e sangue. A perna virou algo, não dói mais. Apenas está lá, inchada. O mundo me vê, os trabalhadores torrando em tons de laranja no sol, a poeira do terreno misturada com a do asfalto sendo quebrado. Subo numa montanha amarela, sento numa cadeira, alguém sobe atrás de mim e me puxa. Lembro de chutar algo, uma cabeça ou uma barriga, não sei. Som de motor ganhando força. “Como se acorda um boi?”, disso eu lembro de ter pensado. Uma imensa garra a minha frente mexeu, depois mexeu todo o boi de ferro. A cavadeira tremeu, os homens gritaram. Ouvi palavrões, pedras no parabrisa. A cavadeira rompeu para o muro, para o buraco. Acelerei violentamente e fui jogada para trás; o muro virou um dominó, caindo sobre si mesmo, a perder de vista no serpentear da avenida. Não havia mais buraco porque o muro também não havia. A cavadeira bateu na montanha de lixo, subiu como um cavalo e caiu numa vala. Poeira, sacos de lixo. Alguém me arrastou, sons de polícia e de gente fofoqueira.
Cá estou, na sala azulada. “A senhora sabe porquê está aqui?”, ele de novo. “Sei”. Bipes e teclas de computador sendo amassadas. “Registro que a detida não feriu pessoa alguma e não cometeu danos materiais a empresa. O muro estava em terreno particular e os donos não se apresentaram para registrar Boletim de Ocorrência”, o delegado nem me olhava, a escrivã amassava com preguiça o teclado. Fazem vinte e quatro horas que Sophia morreu. Espero que tenham lhe dado um bom velório, colocado uma roupa boa, limpado a menina. Coitada. Mãe e vó presas. Mas dizem que a gente pode ir enterrar os parentes. Desço hoje ou amanhã para o presídio. Espero não apanhar. “A senhora pode assina aqui e tá liberada”.
Liberada? Minha mãe me ensinou que coisa boa não se questiona em voz alta, só aceita. “Sua neta tá lhe esperando no hospital. Tome um banho”, o delegado saiu da sala.
O céu rebrilhavam azul mortal, quente e firme. Sem nuvens. Fui a pé até o Santa Teresinha, não atravessei o buraco, não há buraco. Me vesti e fui pro hospital para onde transferiram Sophia, junto com Seu Mário me ajudando. Ela estava bem, foi de raspão. Mas deixou uma deformidade no pescoço. Uma lembrança eterna. O buraco saiu do muro e agora está no pescoço dela. Demorou semanas até receber alta, conforme os dias passaram, o mundo se ajustou. O calor continuou o mesmo, os incêndios também. Larissa está em liberdade assistida e eu não fui fichada, apenas perturbação da ordem. Em nada deu. Sophia voltou para a creche, passamos pelo lixo ainda, só que sem o buraco e sem o muro. Agora o mar pode ser visto pelas janelinhas do Santa Teresinha, tímido por entre as frestas dos prédios no horizonte.
Ando com ajuda de muletas, Larissa com Sophia no colo, tudo sendo como em anos atrás. Com o muro e o mato alto, havia esquecido daquele medonho outdoor; consumido de mofo na madeira e com a propaganda da prefeitura semi apagada. Era uma mensagem linda: sol brilhando, mar azul, pessoas sorrindo e as letras prometendo ‘FORTALEZA, 2030’. Acima do outdoor uma nova nuvem de fuligem se forma, as sirenas convidavam todos a irem para casa.
Fortaleza, 22 de setembro de 2031.
메타데이터
- post_id
- df69765ebacd
- slug
- fortaleza-2030-df69765ebacd
- url
- https://medium.com/@pauloricard4378/fortaleza-2030-df69765ebacd
- canonical_url
- https://medium.com/@pauloricard4378/fortaleza-2030-df69765ebacd
- author_url
- https://medium.com/@pauloricard4378
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-27 01:10:15