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A culpa é do Lula ou do Bolsonaro ?

As instituições afundaram em seu próprio sucesso

Victor Fritzsche · 2024-12-13 20:16 · 0 claps · 6.3 min read
#politica #guattari #debord #bolsonarismo
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A culpa é do Lula ou do Bolsonaro ?

Guy Debord, “Naked City”, 1957.

Guy Debord, “Naked City”, 1957.

As instituições afundaram em seu próprio sucesso

— Montesquieu.¹

Assim, procuramos o político no lugar errado, nas tribunas erradas e nas páginas erradas dos jornais.

— Ulrich Beck.²

Antes de começar a ler esse texto, quero deixar um mini prefácio para dizer o que me motivou a escrever, além de claro, um interesse latente sobre. Recentemente vi um video satirizando a situação de pegar um Uber e ter que ficar escutando as atrocidades políticas mais absurdas possíveis, e como o discurso vai de “hoje tá quente né” até “isso tudo é culpa do Lula, Morre Lula”, em literais segundos, apesar do video ser uma sátira, era um video relativamente curtido e comentado, então é uma situação que se vê comum, não só no uber, mas na situação cotidiana, aonde o discurso sobre política se tornou casual, e inflamado de posturas personalistas, e agressivas. O menino do video só escuta e concorda, porque afinal, como é possível o dialogo ? estamos em mundos diferentes, esses são enunciados completamente alienados e alienantes do mundo, e do discurso com o outro, o jeito cotidiano é concordar. Enfim, por situações como esta que eu me senti inclinado á escrever…

Os discursos e os enunciados que se escutam por lá e acolá andam inflamados pelo Personalismo. Tendência a colocar o sujeito no centro do discurso. Filosofia essa perigosa para se reproduzir na política. Na verdade culpar um nome ou outro raramente vai nos levar a lugar algum.O sociólogo Max Weber, já nos condenou dizendo que o futuro pertence a burocracia, pois entendendo que a burocracia, em seu modelo, é o meio mais eficiente de gestão. Mas a burocracia de Weber contem algo essencial que se vê altamente faltoso, a impessoalidade. Veja bem, Luiz Inácio Lula da Silva não é o presidente do Brasil, ele ocupa o atual cargo de presidente do Brasil. Entenderemos, essa não é uma frase simples quanto parece, O sujeito Lula é apenas o ocupante de um cargo político numa hierarquia burocrática, que comanda mais diretamente apenas um dos três poderes, não vou entrar nos pormenores do Presidencialismo e dos Cargos públicos, mas existe algo fundamental nisso, ele não manda nem desmanda em nada. Estamos num problema de enunciados. A diferença do presidente deste um poder para os outros poderes, é que este é o eleito pelo voto (além de claro, outros pormenores dos seus cargos, mas o que eu quero dizer é, pela legislação os Três Poderes são independentes e harmônicos).

Enfim, o ponto é que a discussão de nomes e nomes não é realmente prestativa, ela nada mais do que cria uma cortina de fumaça para discussões realmente importantes. E este é um ponto crucial que eu há de ser retomado. Mas também outra pontuação é analisar como o discurso e discussão politica nos últimos anos tem estado muito mais na superfície do que em qualquer outro tempo. A ditadura deixou um legado forte no Brasil que foi o de não se discutir politica. Por muito tempo as pessoas tiveram medo de se expor a esses temas, por medo, medo real de simplesmente sumirem. Demorou anos para possuirmos um paladar tão aberto a falar de presidências e reclamações como vemos a torto e a direito. Mas apesar de vivermos nos anos em que se mais fala de politica, é também, paradoxalmente aonde existe a maior despolitização do discurso politico. O Discurso politico anda inflamado de nomes e culpa. Vivemos em anos trágicos, o Brutalismo está ai, catástrofes, brutalidade policial, guerras, brutalidades no dia a dia, está ai, não se nega, a questão é de como esses problemas estão postos, quais as suas reais causas ? O problema do jornalismo midiático, e das grandes televisivas, é a mera exposição dos problemas, e dos tipos de enunciados. Exibe-se catástrofe uma atrás da outra, como se nada disso tivesse um fim nem um começo, sufoca-se o interlocutor com uma fumaça tóxica de morte. Cria-se um espetáculo de tudo que se está acontecendo, e olha que está sempre acontecendo muita coisa. E quanto mais se infla esse espetáculo, mais se aliena o interlocutor.

Precisamos procurar o discurso politico de outras formas, fora das formas mais ‘institucionalizadas’, fora dos jornais, e não olhar a política de cima para baixo, olhando os sujeitos, e esperar que algo mude.

Eu não me considero um fã de Debord, tão pouco um situacionista. Não passo nem perto de querer libertar o povo de sua alienação. Uso-me do seu conceito de espetáculo a livre mão. Nem quero aqui culpar o povo pela sua alienação nem algo do tipo. Se fosse para culpar, eu culparia as redes sociais, e redes telecomunicativas pela forma de apresentar os problemas. As redes sociais possuem uma forma extremamente tóxica de funcionar para as noticiais(em particular), pois, o que é mais compartilhado é aquilo que é mais chamativo, sendo verdade ou não, até mesmo sendo meia-verdade, uma verdade mal dita. O algoritmo funciona meramente privilegiando a forma das postagens muito mais do que o seu conteúdo. Veja como os enunciados falam muito mais alto do que a forma dos problemas em si, não carecemos realmente de um problema de informações, mas sim, quais noticias chegam e como chegam nas pessoas. E a mínima preocupação a respeito disso de tais plataformas, as noticiais se tornam paradoxalmente meios alienantes das plataformas de noticiais. Quanto mais que para você ler alguns dos jornais onlines mais famosos, você precisa pagar o acesso a tais (esse é só um, entre sinceramente, tantos outros problemas com acesso as noticiais online, a tal democracia de acesso digital não se fez presente, o que vemos é a reprodução da alienação e da falta de incentivo a noticiais verdadeiras e acesso a ler matérias de fato). E poderíamos nos filiar a outras formas de pensar também, como Jean Baudrillard, que em Simulacres et simulation, destaca a passividade do sujeito ao amontoado de noticiais e informações providas numa tela. Quer dizer, ficar diante a uma tela quer dizer: aumento na passividade estéril, exposição a noticiais catastróficas alienantes e ressentimento politico.

E outro ponto que Baudrillard toca que vale a pena ser citado, é que nós sabemos dessa alienação, as vezes realmente querermos ver alguns podres do políticos e nos livrar do mundo. Mas acho que aos olhos do Guattari, precisamos entender que essas formas de subjetividade são muito mais criados por esses espaços, do que nossa vontade de verdade. Ninguém desejaria se alienar realmente, se existissem outras formas de ser e subjetividade. Gostamos do espetáculo, das redes sociais, das futilidades, porque não existem outras formas de subjetividade, precisamos fugir destas.

E aqui eu me afilio muito mais ao Guattari do que qualquer outro, estamos frente a um paradigma estético. Pois não quero fazer um discurso sobre alienação das massas, nem quero propor que parem de usar tecnologia, nem olhar as noticiais, mas precisamos pensar esses espaços e propor novas ações, em contrapartida a passividade pós-modernista.

Félix Guattari

Félix Guattari

O paradigma estético de que falo se apresenta como uma alternativa em relação ao paradigma científico subjacente ao universo capitalístico. É o paradigma da criatividade. […]

A ideia principal consiste no fato de que a essência da criatividade estética reside na instauração de focos parciais de subjetivação, de uma subjetivação que se impõe fora das relações intersubjetivas, fora da subjetividade individual. Trata-se de uma criatividade existencial, ontológica […]

Trata-se, antes, de um agenciamento de enunciação, que traz à luz esta produção que é estética mas, também, ética. Digamos, mais exatamente, que é criacionista em sua essência. Podemos dizer que se trata da possibilidade de refundar — não de reconstruir — utopias, mas sem nenhuma nostalgia, nem delírios paranoicos sobre o apocalipse tecnológico e, sim, com micropolíticas de intensificação das subjetividades, que são a única via capaz de combater o fascismo, em todas as suas dimensões.³

Vemos como o novo paradigma estético do Guattari pode nos ajudar, trata-se de criacionismo, criar novos espaços, novos afetos, novos problemas estéticos e éticos. Culpa e ressentimento não vão levar-nos a lugar nenhum, politicamente é estagnante, e subjetivamente é maléfico, affecciona mal o sujeito, diminui nossa potencia e vontade, quem fica animado assistindo noticias hoje em dia ? precisamos pensar novos enunciados, novas éticas.

Precisamos de criatividade politica, e melhores afetos com o outro, para criar esses espaços de subjetividade antifascistas, que é nos livrar dessa fumaça tóxica que nos rodeia, que inflama nossos discursos ao outro, que impede, que mata, que interrompe e culpa a um ou outro.

Precisamos pensar o paradigma estético, ético, politico e afetivo. E estamos nos melhores tempos para isso, aonde as pessoas estão mais ou menos dispostas a falar sobre politica.

referencias: ¹ Modernização Reflexiva: política, tradição e estética na ordem social moderna. Ulrich Beck, Anthony Giddens, Scott Lash — São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1997. ² Ibidem

³ Entrevista realizada por Fernando Urribarri em novembro de 1991, na cidade de Buenos Aires, com a colaboração de Suely Rolnik, Paulo Cesar Lopes e Oswaldo Saidon na elaboração das perguntas. Originariamente publicada pela revista Zona Erogena, Buenos Aires, Argentina, 5(10), 1992. O texto foi traduzido por Arthur Hyppólito de Moura, revisado e reeditado por Suely Rolnik.


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