PRIORIDADES
Edith Piaf, uma das maiores vozes da história da música, começou a carreira se apresentando nas ruas de Paris. Era dali que tirava o…
PRIORIDADES

Edith Piaf, uma das maiores vozes da história da música, começou a carreira se apresentando nas ruas de Paris. Era dali que tirava o sustento, passando o chapéu. Aos poucos, começou a atrair um público que se aglomerava para assistir à jovem cantora. Porém, muitas vezes, a multidão literalmente fugia para não ter que contribuir com uma moedinha sequer.
Coordenei, durante quase uma década, um coletivo de artes integradas. Foram mais de 450 edições de um encontro semanal. No começo, não havia ingresso fixo e passava-se o chapéu. Parecia democrático, parecia espontâneo. Só que o chapéu rendia migalhas, nada que chegasse perto de ajudar a galera que estava ali trabalhando até altas horas. Certa feita, teve um abençoado que doou setenta centavos e depois comprou várias cervejas artesanais de vinte e cinco reais cada. Esse comportamento era/é comum. Vê a desproporção? É exatamente isso o que significa não dar valor.
Santo de casa. Belchior nos apresentou o rapaz latino-americano, vindo do interior, que cantou versos em rebeldia diante de um público que só valorizava o que já vinha carimbado pelas grandes capitais, como São Paulo. E, como a sina ensina, muitos artistas locais só alcançam chancela total quando têm o trabalho reconhecido longe de casa, tal qual nos conta a biografia do cearense. Aquela velha história do artista que precisa ir embora para ser respeitado quando volta.
Compartilho com o leitor uma agonia que paira sobre a aura do meu labor artístico. Volta e meia, soa em minha mente, com voz etérea, a ideia de que nós, sergipanos, temos uma “literatura de emigrados”. Talvez o peso dessa sentença se aplique, por analogia, às demais artes da nossa terra. Sílvio Romero reflete cirurgicamente sobre o êxodo intelectual, sobre um padrão estrutural que atravessa o tempo e ainda perdura.
Sinuca de bico. Como produtor, vejo artistas incríveis cujo suposto público, em boa parte, não está disposto a contribuir nem com o ticket médio que cobriria a produção de um evento básico. Não estou evocando elitismo; frise-se que estou falando de quem pode comprar o ingresso e simplesmente não compra. Eis uma triste e repetida realidade: projetos locais, de qualidade nacional, que só encontram espaço e o devido público, em eventos gratuitos e que, no setor privado, não vendem meia casa.
A práxis é uma praga. No dia a dia dos eventos, vê-se muita “cortesia” para amigo que mais parece presença VIP. Mui amigo. Mas, na hora de fazer o Pix… cadê? O mesmo brother que viaja o Brasil inteiro, festival atrás de festival, acha caro um ingresso local. Às vezes não é um amigo e sim um inimigo íntimo, vendo de perto as agruras do artista, entra de graça e sai falando mal.
Penso ter conseguido ilustrar. E, para os desavisados, a espinha dorsal do entendimento desse enredo é a consciência de classe e o fato de estarmos inseridos em um sistema capital e todos os efeitos colaterais que ele gera. Porém, isso tudo nos atravessa e deveria atravessar nossas consciências, para além das trincheiras das bolhas.
A regra primeira devia ser alinhar o que se prega ao que se faz, ora. Se você curte o artista, diz apoiar a cena, gosta do projeto: chegue junto! Priorize o que importa. Ou está performando? Como bem lembram os pedagógicos cartazes nas paredes da Freedom Discos: “não seja um verme, pague o couvert”.
Eis um tema que esta crônica não irá exaurir. É evidente que não se trata de retirar as responsabilidades do fomento dos setores públicos, mas da constatação de que carreira não se faz apenas com show de gestão, ainda mais com um cachê muito abaixo dos “de fora”. Esse não é o caminho para termos expoentes nacionais sem que, antes, precisem virar emigrados. O problema é histórico, estrutural, e, não menos importante, educacional, no âmbito da formação de plateia. Com vinte anos de carreira, vejo que é um processo contínuo e inglório — porém necessário — educar nosso público, nossa aldeia.
Não esqueça: radical vem de raiz. Logo, o conceito de sergipanidade é radical na essência, redundante mesmo. E tem que ser.
Tem gente que paga pau — e ingresso — para quem é de fora. E não se trata aqui de ultra-bairrismo. Para ser justo, falo de artistas que não chegam nem no nosso chulé, nem perto do talento de quem uma parte da própria cena se esforça tanto, em fogo amigo, para desvalidar. Depois vêm falar da maldição do Cacique Serigy e do famigerado caçuá de caranguejo, reforçando o discurso de um bando ignorante que diz que aqui não tem artista que preste, que nossa cultura é fraca… Entrego, confio, aceito e agradeço. O inferno continua sendo os outros.
Prioridades, gente. Prioridades. Já dizia Gandhi: ação expressa prioridades. Hablei.
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- 2026-08-30 22:38:38