coisas de continuar
Tenho pensado muito no passado. Não exatamente de forma nostálgica ou melancólica. Às vezes sim, mas não exatamente. Acho que por estar…
coisas de continuar
Tenho pensado muito no passado. Não exatamente de forma nostálgica ou melancólica. Às vezes sim, mas não exatamente. Acho que por estar estudando algumas coisas a partir de Benjamin, tenho olhado pro tempo e pra história de uma forma não-linear, algo mais parecido com um movimento de vai e vem, onde passado e presente se encontram e se influenciam, mutuamente. Se eu não tiver entendido errado, algo de similar com o provérbio iorubá que diz que “Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que jogou hoje”. Esses dias enviei uns filmes analógicos pro laboratório e a revelação deles chegou ontem. E desde então, fiquei com um siricutico com eles. São filmes de 2016 e do ano passado. Revelar um filme dez anos depois é mesmo coisa que deixa a gente siricutiquizada. Mas antes de falar disso, queria falar justamente sobre o passado e meu contato com a fotografia analógica.

Porto da Barra, Salvador. 2016 | Fujifilm Superia X-tra 400, Fisheye

Porto da Barra, Salvador. 2016 | Fujifilm Superia X-tra 400, Fisheye
Nasci em 94, numa família pobre, em um bairro popular chamado Malvinas, que começou a partir de uma ocupação que aconteceu no início dos anos 80 (chamavam de “invasão das Malvinas”). Não sei dizer com certeza se a casa da minha tia, onde cresci, era uma dessas casas ocupadas, mas acredito que sim. Ouvi algum dos meus parentes dizerem que a casa de uma outra tia, que morava poucas ruas abaixo da nossa, era. Como em tantas outras realidades parecidas, vivíamos em um contexto de limitações financeiras/materiais, se assim posso dizer. As coisas caras que tínhamos se referiam, em grande parte, às coleções de panelas, enxovais, presentes de casamento que meus tios tinham ganhado. Conseguiria descrever com clareza: era uma casa simples, de telha e chão de cimento batido, as paredes de um amarelo claro, dividida em três quartos, um banheiro, uma sala, uma cozinha pequena onde ficava o fogão, ao lado da pia, e um espaço maior logo depois da cozinha, onde ficava a mesa, a geladeira e os armários. Era uma casa grande, com um quintal em L grande também, com um pé de manga e outro de caju, onde eu minhas primas costumávamos subir pra ver o bairro de cima. Apesar do contexto de pobreza, nunca nos faltou nada. Mas voltando às coisas que nos eram caras, ou seja, que tinham valor pra gente (pra minha tia, particularmente, mas que sem dúvida também crescemos com algum apego), estavam os álbuns de fotografia. Fotos de aniversário, de casamento, muitas fotos de bebês, de enxovais e presentes em cima das camas.

Primas reunidas (sou a que está em cima do banquinho), Campina Grande | Arquivo pessoal
As câmeras “point and shoot” (aponte e dispare, em tradução livre), que se refere às câmeras analógicas compactas que tinham um fácil manuseio e não precisavam de nada mais além de, literalmente, inserir o filme, apontar pra um motivo e clicar, surgem no início dos anos 80 e se popularizam como item de consumo de massa lá pelos anos 90. No início dos anos 2000, que é até onde minha memória consegue alcançar ainda com clareza, quando eu tinha por volta de 6 pra 7 anos, essas câmeras já existiam na nossa vida, na casa onde eu morava e também na casa da minha tia, a que morava algumas ruas abaixo da nossa. Lembro de ficar muito envergonhada quando iam tirar foto da gente, eu com minhas primas, eu sozinha, eu em aniversário, na balsa quando vínhamos pra capital, enfim, ficava “encabulada” e acho que nunca desejei com convicção ter uma câmera dessas.
Num salto no tempo, no final da minha adolescência, talvez por um contato maior com a internet (que possibilitou a algumas pessoas da minha geração conhecerem um monte de novidade), a fotografia começou a parecer algo bem interessante pra mim. Lembro que sonhava com uma câmera digital profissional, coisa completamente fora da realidade posto que sempre foi um objeto carérrimo, o qual não fazia sentido algum ter (pelo menos não dentro da lógica em que cresci, onde coisas desse tipo precisavam ter alguma utilidade para além de mera satisfação ou lazer — o que não era o caso). Tive uma câmera digital pequena (“cybershot” da Sony, daquelas “saboneteiras”, como se dizia), e foi o auge! Não me recordo da câmera analógica bombar nessa época, mas tempos depois, não lembro bem como foi, me reencontrei com ela. Talvez em um momento em que o vintage estava na moda (lembro muito de uma fase que eu adorava “coisas vintage”, pin-ups e afins), lá por 2010, aliado a uma amiga que tive anos depois que curtia fazer fotos analógicas. Ou talvez tenha acontecido de, por conta própria, conhecer na internet uma loja chamada Lomography, que vendia lindas câmeras analógicas de “plástico”, coloridas, imitando versões de câmeras específicas. Ou ainda tudo isso junto, intercalado no tempo ou acontecendo de maneira sequencial, me levou a um novo-velho contato com as câmeras e fotos analógicas, agora a partir de um lugar desejante de ser eu a apontar e disparar.

Porto da Barra, Salvador. 2016 | Fujifilm Superia X-tra 400, Fisheye
Comprei minha câmera analógica. Minha queridinha até hoje. Uma fisheye da Lomography, da mais simples, vermelha. Acho que as primeiras fotos que fiz foram em João Pessoa, com algumas amigas da época. Fizemos um rolê analógico, onde praticamente cada uma tinha uma câmera dessas de plástico em mãos, e foi bem legal. Foi com essa câmera que, percebi, fiz minhas primeiras fotos mais legais da vida! O mistério, a diversão e a imaginação por trás desse processo, junto com a espera e a surpresa quando da revelação do filme… tudo isso é de dar alegria na barriga, na bochecha. Lembro da primeira vez, da sensação, com clareza. Isso porque essa mesma alegria se repete em mim toda vez que compro um filme, tiro fotos, envio pra revelação. Pois então, voltando pra história de pensar no passado, de sentir que o passado é logo ali e aqui, ontem recebi a revelação de um filme de 2016. Um do ano passado também, que veio com algumas fotos queimadas (o que me causou frustração) e outras que alguns diriam que não deu certo, e eu seria obrigada a discordar. Mas é sobre as de 2016 que queria falar. Foram elas, as que deram certo, mais do que a frustração das que não deram, que mexeram comigo.
2016, minha primeira viagem pro Capão, na Chapada Diamantina. Minha 2a ou 3a vez em Salvador, cidade que fui morar no ano seguinte e que foi meu lar por 3 anos (acho que, em alguma medida, continua sendo). As fotos me levaram pra um outro tempo e me mexeram. Depois me trouxeram pro presente. Me lembraram do que eu gostava, de pessoas de quem eu gostava, das relações, dos sonhos. As fotos verdes, cheias de água, sol. Parecia mesmo um recorte de quem fui ali. A cada foto que passava na tela do computador, uma risada, um delírio, ou uma fofoca acompanhada de um “a foto ficou tão linda, pena que a gente não se fala mais risosssss”.

Da série “pra mim deu certo”: Com Isa na melhor costela de João Pessoa. 2025 | Kodak Vision 3 250D, Zenit

Da série “pra mim deu certo”: Aninha na praia do Seixas, João Pessoa. 2025 | Kodak Vision 3 250D, Zenit

Da série “pra mim deu certo”: Vista do elevador Lacerda, Salvador. 2025 | Kodak Vision 3 250D, Zenit
Ano passado, em uma ida à Pinacoteca de São Paulo, me deparei com uma lindíssima foto que fazia parte de uma exposição (e projeto de mesmo nome) chamada Retratistas do Morro, com fotos de Afonso Pimenta e João Mendes, com curadoria de Guilherme Cunha. Trata-se de um uma reunião de fotos, advindas do acervo de ambos, com arquivos fotográficos que datam da década de 60 pra cá. São registros da periferia de Belo Horizonte, de uma perspectiva familiar, festiva, poderosa de certa maneira. Quando vi no museu, fiquei maravilhada. Algo tão próximo a mim, uma foto tão cheia de verossimilhanças (com as que eu via nos álbuns da minha tia, com as fotos das quais eu fazia parte, os cenários, tanta coisa), estampada no museu como arte. Não sei bem, mas mexeu comigo. Talvez isso não tenha nada a ver com esse texto, ou talvez tenha. Me lembrei e acho que foi, realmente, um momento importante.

Esta foto que vi na Pinacoteca de São Paulo. Ela faz parte da exposição (e do projeto) Retratistas do Morro, de Afonso Pimenta e João Mendes, com curadoria de Guilherme Cunha.
Fato é que, as fotografias têm esse poder. Essas, nessas ocasiões, tiveram. A do museu, as que chegaram ontem, as dos álbuns de infância. Me deram a sensação que Benjamin estava mesmo certo quando falou que a história é construída no presente. A história com h maiúsculo e a história da gente, se é que elas se separam. A história é um acúmulo de “agoras”, momentos em que passado e presente entram em relação e onde cada “agora” traz consigo fragmentos de tempos anteriores. É como se o passado continuasse sendo, ao mesmo tempo em que o presente também age no passado, com releituras, outras interpretações, e, por consequência, no futuro.
Fotos reveladas, retorno ao passado, reelaborações, risadas, reflexões, saudades, vida acontecendo nesse movimento de vai e vem. Uma vontade de um novo filme.
É isso. O passado tem repercutido por aqui nos últimos tempos, e tem me auxiliado a compreender algumas coisas sobre mim mesma, sobre a minha história, sobre a história das coisas do mundo. Tem sido um exercício interessante.
Abaixo seguem algumas das benditas fotos.

Fim de tarde na Carlos Gomes, Salvador. 2025 | Kodak Vision 3 250D, Zenit

Porto da Barra, Salvador. 2025 | Kodak Vision 3 250D, Zenit


deusa, João Pessoa. 2025 | Kodak Vision 3 250D, Zenit

Travessia para o subúrbio, Salvador. 2016 | Fujifilm Superia X-tra 400, Fisheye

Travessia para o subúrbio, Salvador. 2016 | Fujifilm Superia X-tra 400, Fisheye

Capão, Chapada Diamantina. 2016 | Fujifilm Superia X-tra 400, Fisheye




Capão, Chapada Diamantina. 2016 | Fujifilm Superia X-tra 400, Fisheye

Vista da cachoeira da Fumaça no Capão, Chapada Diamantina. 2016 | Fujifilm Superia X-tra 400, Fisheye

Vista da cachoeira da Fumaça no Capão, Chapada Diamantina. 2016 | Fujifilm Superia X-tra 400, Fisheye
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