Como o Rainbow chegou ao ápice com Rising
Combinação entre talento e liberdade artística deu origem a uma grande obra-prima do rock pesado
Como o Rainbow chegou ao ápice com Rising
Combinação entre talento e liberdade artística deu origem a uma obra-prima do rock pesado

Em 1976, o Rainbow era uma banda em busca de si mesma. Ritchie Blackmore havia saído do Deep Purple menos de um ano antes, e o grupo formado ao redor dele ainda não tinha encontrado equilíbrio entre ambição e execução. O álbum de estreia, Ritchie Blackmore’s Rainbow (1975), mostrava potencial, mas também instabilidade — a maioria dos músicos seria descartada antes mesmo de o disco esfriar nas prateleiras. Rising, lançado em maio de 1976, foi o resultado dessa faxina.
A debandada e o que ficou
Do elenco original, apenas dois resistiram — o próprio Blackmore na guitarra e Ronnie James Dio nos vocais. Craig Gruber saiu do baixo e deu lugar a Jimmy Bain. Na bateria, Gary Driscoll foi trocado por Cozy Powell, que havia se tornado conhecido com o hit instrumental Dance with the Devil (1973) e depois de uma passagem pelo Jeff Beck Group. Tony Carey entrou nos teclados.
Antes de entrar em estúdio, a nova formação foi testada em uma turnê pelos Estados Unidos em novembro de 1975. Foi nessas datas ao vivo que Stargazer e A Light in the Black foram apresentadas pela primeira vez ao público — as músicas existiam antes da gravação, moldadas em ensaios e em palco, o que explica a coesão que elas têm no disco.

Uma gravação sem rodeios
O Rainbow chegou ao Musicland, em Munique, em fevereiro de 1976. O estúdio já havia recebido Led Zeppelin e os Rolling Stones, e seria o mesmo onde o ABBA gravaria parte de Arrival naquele ano. A produção ficou com Martin Birch, veterano do Deep Purple que mais tarde se tornaria o produtor de cabeceira do Iron Maiden.
Birch optou por usar o estúdio móvel de 24 trilhas dos Rolling Stones em vez do equipamento fixo do Musicland, que trabalhava com apenas 16 trilhas. A preparação prévia da banda foi tão intensa que bateria, baixo, guitarra e parte dos teclados foram gravados separadamente em menos de dez dias, geralmente em uma ou duas tomadas.
Não existem versões alternativas das faixas — só as mixagens originais e alguns rough mixes dos ensaios. “Escrevemos Stargazer nos ensaios, e Tarot Woman também, acredito. As outras músicas criamos no estúdio, pelo que me lembro”, disse Blackmore em entrevista à Classic Rock.

Blackmore, Dio e o peso certo
Blackmore deu aos músicos uma liberdade que não havia existido no primeiro disco — espaço para improvisar intros, fills e solos. Tony Carey aproveitou essa abertura na introdução de Tarot Woman, uma das entradas de teclado mais memoráveis do rock dos anos 1970. “Todo mundo foi embora e eu fiquei com o Martin por uma hora e meia. O Blackmore nunca disse uma palavra, nunca me disse qual instrumento tocar. Disse apenas ‘toque o que sentir’”, diss Carey.
Essa mesma abertura definia como Blackmore tratava Dio no processo criativo. “Eu simplesmente acompanhava tudo o que ele trazia vocalmente, porque era sempre uma surpresa agradável. Ele era afinado, nunca perdeu a voz. Sempre criei a base primeiro, mas ficava agradavelmente surpreso com o que ele colocava em cima. Ele fazia a música ganhar vida”, disse o guitarrista sobre o cantor.
O resultado dessa dinâmica está concentrado no lado B do disco. Stargazer e A Light in the Black, as duas últimas faixas, somam mais de dezesseis minutos e transformam a segunda metade do vinil em algo mais próximo de uma suíte do que de um álbum de rock convencional.
A letra de Stargazer, escrita por Dio, era uma narrativa épica com premissa clara. “É escrita do ponto de vista de um escravo no Egito antigo”, explicou o cantor. “Ele serve a um Mago que observa os céus e se obceca com a ideia de voar. Os escravos constroem uma torre de pedra para que o Mago pule do topo e alce voo. Por fim, ele tenta e, claro, cai até a morte. Os escravos são libertados, e é aí que Stargazer termina e A Light in the Black começa.”
As duas faixas funcionam como uma narrativa contínua — A Light in the Black retoma exatamente onde a anterior para, com os escravos livres mas sem saber para onde ir. E para sustentar essa narrativa, a Orquestra Filarmônica de Munique foi contratada para gravar as cordas da faixa.
O riff central da música tinha origem inusitada — Blackmore o desenvolveu em um violoncelo que carregava consigo, instrumento que nunca dominou de verdade, mas que usava para explorar ideias melódicas fora do vocabulário da guitarra.

Recepção e legado
Rising chegou às lojas em 17 de maio de 1976 e atingiu a 11ª posição nas paradas britânicas, além do 48º lugar nos Estados Unidos. A recepção foi calorosa, mas o disco não foi um fenômeno imediato de vendas. Com apenas trinta e três minutos, era também deliberadamente enxuto — Blackmore segurou músicas prontas, entre elas Kill the King e Long Live Rock ’n’ Roll, reservando-as para o álbum seguinte.
Com o tempo, a reputação cresceu. Rising entrou na lista dos 30 maiores álbuns de rock clássico de todos os tempos da Q magazine em 2004 e é citado por críticos como um dos primeiros blueprints do power metal e do metal neoclássico — a fusão de riffs pesados, influências clássicas e narrativas épicas que bandas como Helloween, Blind Guardian e a carreira solo de Dio levariam adiante nos anos seguintes.
Há uma ironia no legado de Rising: o disco que definiu o Rainbow foi gravado por uma formação que mal sobreviveu a ele. Carey foi o primeiro a sair, ainda em 1976. Bain foi logo atrás. Dio ficou até 1978, quando trocou a banda pelo Black Sabbath. Cozy Powell, o último a ir, saiu em 1980. Eles nunca mais tocaram juntos — mas o que gravaram em conjunto foi suficiente para cinquenta anos de conversa.
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