A luz se fez.
Eu estava recém mãe. E pouco a pouco sem uma mãe. Quanto mais mãe eu me descobria, partes de mim se desprendiam. Era preciso aliviar a…
A luz se fez.
Eu estava recém mãe. E pouco a pouco sem uma mãe. Quanto mais mãe eu me descobria, partes de mim se desprendiam. Era preciso aliviar a carga para sustentar sozinha. Eu não entendia, mas era como se nem quisesse saber porque eu estava focada na nova vida. Enquanto a balança me acusava de perder muito de mim tão rapidamente, eu me distraía com aquela pequena grande luz.
E mesmo com tantos fins eu sorria. Eu estava ali, ou achava que estava, com meu bebê em meus braços no quarto em que eu cuidava de minha mãe. Inebriada, eu mantinha o sorriso e também a força. Completamente imersa numa paixão avassaladora pelo novo, que me mantinha ocupada e focada. Submersa nos cuidados- que mal começavam. O começo da vida e o começo de um longo fim. E era naquela pequenina grande luz que eu rodeava feito mariposa a me reabastecer porque o olhar para o fim volta e meia me chamava. Assim eu seguia adiante naquele labirinto escuro dentro de mim mesma onde nada mais estava em seu lugar.
Eu tropeçava mas não via. Muitas noites e incontáveis dias eu me via só. Eu e o lampião. E o olhar para o fim, continuava chamando.
Antes de parir eu desejava e planejava “dar conta de tudo” sem ajuda. Meu desejo foi atendido: marido foi trabalhar em outra cidade e minha mãe cada dia mais estando menos ali. Eis o alerta, cuidado com o que deseja. E eu não parava, caminhava e caminhava… encantada por aquele novo ser, ainda que com passos ébrios eu tateava mas me mantinha em pé e em muitas funções. A cada curva mais uma parte de mim ficava mas em minhas mãos o lampião seguia ileso. Nessa tortuosa caminhada de me redescobrir dentro de mim, assistia às cenas da filha adulta partindo com a mãe — ainda jovem demais para mim — , juntas, pouco a pouco. Cada uma vivendo suas mortes. E eu sobrevivendo a duas. Eu segurava firme aquele lampião, querendo construir uma fortaleza. Assim eu sentia a finitude materializando naturalmente e mantinha o foco no que precisava se estruturar e crescer.
Não que eu não sentisse a dor de tantos adeus mas era questão de lógica, era essencial a reserva para nutrir. Num corpo que mirrava minha proteção e escolha era fazer as pazes com toda finitude. Mesmo inconscientemente meu corpo orquestrava tudo de forma sábia.
Eu me desfazia de tanto. A ossatura cada vez mais evidente dizia sobre referências e conceitos que se esvaíam. Um terreno sendo arado com firmeza para se preparar para a colheita.
Hoje, refeita estou, de desejos, sonhos e conceitos. Livre do labirinto porque abracei todos os fins possíveis. A luz se fez além do pequeno lampião ao qual eu me agarrava.
Renascida entendi que carrego dentro de mim tudo que preciso, sem precisar perder mais partes de mim ou construir fortalezas para seguir o fluxo da vida.
Olho para trás parece que mil vidas se foram. Olho adiante vejo o quanto de vida ainda se tem mesmo com o fim de vida. Eu me pergunto o quanto dela, ela talvez esteja agora a reencontrar ou refazer. Enquanto há vida, há ressurgires. E para que se venha à vida, é preciso do outro.

메타데이터
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