Dia 3
queria ser mais transparente — talvez. (talvez, não). as metáforas são lugares seguros, ou tão seguros quanto a incerteza pode ser. posso…
Dia 3
queria ser mais transparente — talvez. (talvez, não). as metáforas são lugares seguros, ou tão seguros quanto a incerteza pode ser. posso deixar amplo o que sou dentro de uma alegoria, posso dizer de mim tocando em você e assim você pode ser um pouco eu e eu, um pouco você, e nós, algo que não é exatamente quem somos, ao mesmo tempo que é precisamente algo do que há em nós de ser.
sobre a dor, tenho testamentos. todos descreditados quando olho para dores que imagino serem maiores, mas cada um recebe o desafio que lhe cabe vencer e cada um luta com todo o esforço que tem, sendo “todo o esforço que tem” a medida do difícil de lutar comum a todos, independente da batalha. não se pode comparar o que é diferente de viver.
mas a mágoa, essa ferida aberta minguando sangue e água pelas aberturas do peito, uma dor que talvez se esconda, mas que não passa, ela tem sempre o que dizer. e talvez tenha muitas pessoas que a esgravatem com as unhas, não só uma que a abra. talvez a mágoa seja uma dor colérica de existir quando dói, mais do que uma acusação que se segura para se proteger de alguém que machuque. talvez seja um pouco dos dois e a vida só carregue também um tanto da culpa, a qual tem que cair em algum lugar que não seja nos nossos ombros esfolados.
trago as mágoas que toda gente traz: dos erros dos meus pais, dos erros dos meus amores, dos meus próprios erros. trago também mágoa de mim mesma. me perdoo muito, e perdoo os outros mais ainda, mas seguro a dor sem querer como lembrete do que dói no mundo, que é pra evitar doer mais no fim.
mágoa do meu pai por me fazer crescer me achando insuficiente e feia. mágoa da minha mãe, por não estar lá quando eu precisava. mágoa do meu primeiro amor, por ter destruído o que tinha de mais puro em mim. mágoa da minha melhor amiga, por ter traído a minha confiança já tão difícil de se conquistar. mágoa do dia que um amor me deixou na rua chorando como se eu fosse nada. mágoa de mim mesma por às vezes deixar que a mágoa borre meus passos. tudo pra lembrar que: nossos pais erram. o amor decepciona. pessoas inusitadas traem. amigos vão embora. eu erro e decepciono também.
pra lembrar sempre o mais importante de tudo: a única pessoa que vai cuidar de mim no mundo sou eu mesma, até onde eu consigo, e no resto, é um tantão de Deus.
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